“O Brasil precisa mais de planejamento para melhor desenvolver os entraves na área da robótica”
4 de agosto de 2014
Sediada pela primeira vez no Brasil e na América Latina, a Copa do Mundo de Robótica (RoboCup 2014) foi realizada em João Pessoa, entre os dias 19 e 25 deste mês de julho. O evento foi considerado sucesso de público e projetou a Paraíba para o mundo não apenas no setor tecnológico, mas em toda a cadeira turística e gastronômica. Afinal, recebemos três mil participantes, de 45 países diferentes, mais de 60 mil visitantes no Centro de Convenções, o que injetou aproximadamente R$ 20 milhões na economia da Capital.
Em entrevista exclusiva ao Paraíba Total, o coordenador geral da Robocup 2014 e professor de Robótica da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Alexandre Simões, fez uma avaliação bastante positiva do evento. O torneio envolveu disputa em cinco categorias principais ou ligas (Soccer, Rescue, Home, Work e RoboCupJunior), incluindo nelas jogos e demonstrações. Oficinas, simpósios, exposições interativas e workshops também integraram a programação da RoboCup 2014. “Os participantes ficaram todos os dias, e o evento teve um grande público. As pessoas torcendo, se manifestando nas arquibancadas, o que não é comum nos demais países do mundo”, comparou.
Alexandre também avaliou a produção e os investimentos em tecnologia e robótica que estão acontecendo no País. “Acho que é uma urgência do Brasil fazer investimentos pesados na área. Eu não diria que estamos atrasados, mas que a robótica é um mercado em consolidação e os países que estiveram a frente desse processo vão ter um mercado com 50 anos, 100 anos que sejam. Quem perder a crista da onda vai ser um importador”, alertou o coordenador.
Abaixo, Alexandre detalha mais sobre o balanço do evento, analisa o mercado da robótica e opina sobre o futuro do setor no País.
Quais os principais
objetivos de um evento como a Robocup?
O evento é organizado por professores universitários
voluntários e, desde o início, nós tínhamos essa preocupação de que as pessoas
tivessem contato com essa tecnologia, inclusive as crianças que aqui estiveram,
que encheram os olhos, também desmistificaram o conceito que tinham de robôs.
Isso é importante, pois na próxima década, a robótica tende a ser o que a
computação foi em décadas anteriores. E importante mostrar que essa tecnologia
pode estar na sua casa, quem sabe já nos próximos cinco anos. E também para que
essas pessoas passem a consumir essa tecnologia, pois já existem muitos robôs a
venda. E ainda no caso da criação, a formação de mão-de-obra, já que são
pessoas que podem se interessar e se engajar nisso no futuro. Esse é um dos
principais objetivos do evento, inclusive no momento atual em que vive o
Brasil.
Qual o balanço da edição da Robocup deste ano? Atendeu a expectativa da organização?
O balanço é bastante positivo. Já tínhamos expectativas elevadas com essa edição do evento, mas elas foram bastante superadas em vários pontos de vistas diferentes. Do ponto de vista dos competidores, que aqui estiveram do mundo inteiro, creio que conseguimos atender bem todo esse pessoal. Do ponto de vista técnico, também foi positivo, com boas arenas, com infraestrutura de ótima qualidade para eles desempenharem seus trabalhos. E o Centro de Convenções daqui de João Pessoa foi fator preponderante para termos esse sucesso. Outro ponto foi o acolhimento da cidade para esse turista, visitante internacional. Eu acredito que muitos da comunidade Robocup não conheciam o Brasil, não conheciam a Paraíba e nem João Pessoa. Foi uma boa surpresa! E do ponto de vista de público esperávamos umas 60 mil pessoas e foram até um pouco mais que isso – isso já atingido do segundo para o terceiro dia do evento, com pessoas que vinham uma vez e depois voltavam em outro dia trazendo mais pessoas. Tivemos muitas excussões de escolas do Estado inteiro e também de outros de quase 3 mil quilômetros de distância. Então, isso pra gente foi uma responsabilidade e uma grande satisfação.
Qual o diferencial
dessa edição do mundial em relação aos anteriores?
Como organizador, eu tenho algumas
visões sobre a evolução do evento. Contudo, nesta edição os participantes nos
relataram que ficaram realmente impactados com a atenção da população ao
evento. Ou seja, todos os dias, o evento teve grande público, casa cheia, bem
como também o corpo de voluntários composto por mais de 500 pessoas e a
proatividade e a disponibilidade de todos eles foi muito legal. Isso também
marcou os participantes. E por fim, as belezas da cidade de João Pessoa que
encantaram a todos.
Por que a capital
paraibana, João Pessoa, foi escolhida como cidade brasileira a sediar o evento?
A Robocup acontece todo ano e quando
existe Copa do Mundo de Futebol ou Olimpíadas existe uma certa tendência de
realizar o evento no país sede desses eventos, mas não é uma regra. Então, o
país apresenta uma candidatura, os pesquisadores de robótica e inteligência
artificial se submetem a uma candidatura. Há três anos nos reunimos um
corpo de pesquisadores, num número suficiente, elaboramos uma proposta e
começamos a buscar parceria no país inteiro. Visitamos vários centros de
convenções em vários estados até decidirmos aqui pelo da Paraíba, além da
parceria dos governos em todas as suas esferas. Então, primeiro por conta da
sua boa infraestrutura e moderno para atender nossas necessidades, pois por
incrível que parece os centros de convenção do sul e sudeste estão deixando a
desejar. E também porque queríamos tirar o evento do eixo sul-sudeste, porque
lá seria apenas mais um evento e nós entendíamos que o evento daria uma maior
contribuição ao país sendo feito fora de eixo. E finalmente João Pessoa
vencendo a disputa com várias cidades, a Capital paraibana também venceu a
disputa final com a cidade de Montreal do Canadá, para sediar o evento. Em
resumo, para nós também foi uma satisfação conseguir colocar o País em destaque
no evento.
Como se deu à recepção
do público paraibano nas atividades da Robocup 2014?
Foi muito legal mesmo. Inclusive foi um
dos maiores diferenciais desta edição. Os participantes ficaram todos os dias o
evento teve grande público. E as pessoas torcendo, se manifestando nas
arquibancadas, o que não é comum nos demais países do mundo. E aqui nos tivemos
isso! A visitação foi bem acima do que prevemos. A expectativa dos 60
mil foi superada já nos dois primeiros dias. Por isso, muita gente não
conseguiu entrar. Pedimos inclusive desculpas à população paraibana por isso,
porque queríamos mesmo era atender a todos. Porém, em eventos como este, há
sempre limites físicos.
Do seu ponto de vista,
qual a importância de um evento como esse acontecer na Paraíba?
É muito importante em vários aspectos. Com
a Robocup, o Estado ganha em visibilidade, em turismo e também em outros
pontos como cultura, esporte, tratamento de línguas, no cardápio de alimentos.
Tudo aqui vivenciado foi uma contribuição bastante válida para outros eventos
desse porte que venham a ser sediados na Paraíba e na sua capital futuramente, bem
como para os estabelecimentos comerciais de diversos segmentos que estão
atuando na cidade. E algumas falhas que por ventura tiveram serão superadas e
melhoradas para o sucesso na operação de outros grandes eventos.
Quais foram os investimentos em estrutura para o evento?
Tivemos muitos parceiros e voluntariado.
Mas, em termo de infraestrutura física, a organização dispôs da utilização de
2,5 quilômetros quadrados de carpete, três toneladas de tecidos e 14 km de fios
para as instalações do evento. Além das arenas modernas e de qualidade onde
aconteceram os jogos de futebol, com 100 metros quadrados e mobiliadas com
utensílios domésticos para as competições da categoria Home.
Quantos profissionais
estiveram envolvidos na organização do evento?
Na organização, tivemos um corpo de
voluntários composto por mais de 500 pessoas e a proatividade e disponibilidade
de todos eles foram muito legais e isso também marcou os participantes.
Quantos países e quantos
times participaram do evento neste ano e qual o público em geral nos cinco dias
do campeonato?
Foram 400 times, com quatro mil equipes
competidoras de 45 países que participaram das disputas no Centro de Convenções
de João Pessoa, acompanhadas por um público de mais 60 mil pessoas.
Fale um pouco de como
foi a programação. Quantas categorias, ligas e outras atividades
aconteceram durante o evento?
O torneio envolveu disputa em cinco
categorias principais, ou ligas (Soccer, Rescue, Home, Work e RoboCupJunior),
incluindo nelas jogos e demonstrações. Oficinas, simpósios, exposições
interativas e workshops também integraram a programação da RoboCup 2014.
Quando e onde será a
próxima edição do Robocup? Já tem algo previsto?
A Robocup acontece todos os anos, e a
edição de 2015 acontecerá na China. Inclusive já estou me organizando para
marcar presença, como tenho feito há vários anos nas edições anteriores.
Como o senhor avalia a
produção e os investimentos em tecnologia e robótica que estão acontecendo em
nosso País?
Eu acho que é uma urgência do Brasil
fazer investimentos pesados. Eu não diria que estamos atrasados, mas que a
robótica é um mercado em consolidação e os países que estiveram à frente desse
processo vão ter um mercado com 50 anos, 100 anos que seja, como a computação
foi assim e quem perder a crista da onda vai ser um importador por 50 anos, cem
anos. Então, eu sou a favor de gerar postos de trabalho aqui para que a gente
não tenha que importar no futuro e assim, gerar o desenvolvimento aqui sem
precisar importar. Então, é preciso apertamos o cinto. O Brasil já se
destaca. Dentro da Robocup, o Brasil era a quinta ou sexta maior comunidade.
Mas a Robótica é uma área que requer recursos. Então são necessários
investimentos diferenciados, precisamos fomentar essas nossas pequenas e médias
empresas para que elas possam começar com produtos robotizados pequenos e irem
evoluindo ao longo do tempo. Eu diria que nós até temos polos de Robóticas do país, como São Carlos, no interior de São Paulo, Rio de Janeiro, mas todos os Estados
podem chegar lá. Na tecnologia, não tem mágica e nem sorte, e o Brasil se
deu bem esse ano. Contudo, precisamos mais de planejamento para melhor
desenvolver os entraves que precisam ser revistos na área da robótica.
Algo mais a acrescentar?
Uma coisa que queria destacar foi a questão da alimentação do evento. A Robocup foi o evento que já trouxe mais países aqui para o estado, um total de 45. Então, isso nos chamou atenção para as questões de vigilância sanitária, já que os participantes precisavam se adaptar a cultura alimentar local. A Robocup teve essa preocupação e tudo foi bem sucedida, pois fizemos uma parceria com colegas professores de Engenharia de Alimentos da comunidade acadêmica da Paraíba e de outras universidades participantes. Vale salientar que tudo foi em caráter voluntário, onde foram capacitados vários profissionais de empresas da cidade. Isso vai deixar um legado de acondicionamento, transporte e preparo de alimentos para outros eventos internacionais futuros que serão aqui sediados.