“A Paraíba produz um cinema muito forte, de muito valor simbólico”
16 de abril de 2014
Com público estimado de 30 mil pessoas, a exibição de 155 filmes entre curtas, longas e médias metragens, 13 apresentações musicais, exposições de arte, apresentações teatrais, sete livros lançados. O 6º Festival de Cinema de Países de Língua Portuguesa (Cineport), realizado durante 10 dias seguidos em João Pessoa, na Usina Cultura Energisa, movimentou a cultura no Estado.
O evento que, premiou com R$ 25 mil o melhor curta paraibano, também movimentou a economia da Capital paraibana com a injeção de R$ 800 mil gastos com contração de transporte, hospedagem, alimentação, entre outros serviços, utilizados por organizadores, produtores cinematográficos e apreciadores das artes audiovisuais de várias localidades do Brasil e também dos países de Língua Portuguesa.
O Paraíba Total conversou com exclusividade com a idealizadora e diretora geral do Cineport, Mônica Botelho sobre os ecos em desenvolvimento desde importante evento. “Eu estou muito feliz com o resultado desta edição. O evento produz essa efervescência da cidade ao longo dos dias, é uma troca intensa entre participantes, este ano tivemos entre convidados e participantes diretos do Festival em torno de 180 pessoas vindos de Brasil, Portugal e África lusófona”, contou ela.
Mônica acrescentou ainda que a Paraíba já conta com uma cenografia maravilhosa e que precisa apenas de mais incentivos para deslanchar. “O que a gente gostaria de provocar aqui é ainda um aumento maior dessa produção. É que o estado perceba, os agentes dos governos percebam, que a Paraíba tem muito a oferecer para que produções venham de fora e aqui possam filmar. A Paraíba tem uma cenografia maravilhosa. Tem o sertão, tem o mar, tem uma cidade agradável como João Pessoa, que é cinematográfica e muito bonita. Enfim, o que a gente espera do Festival é que ele deixe legados. E assim um deles foi essa contribuição de abrir a discussão com diversos setores da sociedade envolvida na produção do audiovisual paraibano, para que a gente possa de alguma maneira colaborar para que se fortaleça ainda mais e dê um salto do ponto de vista da produção”, frisou ela.
Leia a entrevista na íntegra:
Qual foi o seu balanço geral do Cineport deste ano?
A edição deste ano do Cineport foi marcada pela homenagem a Portugal, com grande parte da programação voltada para exibição dos filmes portugueses, atrações musicais também vindas de Portugal, exposições de arte visual também vindas de lá, trazendo um painel bem significativo da produção recente portuguesa, tanto das artes como geral. Então, agente tentou contemplar não só coisas tradicionais, mas também aquilo que é de novo, aquilo que tem a cara do cinema jovem português. Do ponto de vista cinematográfico geral, essa foi uma edição que ficou marcada por filmes de autor, filmes que tem uma estética comprometida com um trabalho mais autoral e menos comercial. Do ponto de vista da participação, dos convidados e dos encontros que agente pode realizar, eu gostaria de destacar os encontros dos APLs, que são os arranjos produtivos locais voltados para a produção audiovisual no Brasil, aonde, durante esse encontro nos tivemos a participação de dois diretores da Ancine, que é a Agência Nacional que regula a atividade Cinematográfica no Brasil, e abrimos um espaço para a produção paraibana dentro do encontro e destacando que a produção cinematográfica vem crescendo a cada ano não só no ponto de vista quantitativo, mas também qualitativo.
Nessa edição nos tivemos a participação de um júri que também participou da edição do premio Energisa de 2007 e participou agora e o júri ficou impressionado pelo salto de qualidade na produção cinematográfica. Eles destacaram como a produção paraibana está se afirmando de uma maneira inquestionável do ponto de vista de qualidade e de estética. E eu fico muito feliz em ver uma avaliação positiva e de peso de um crítico como ele, o jornalista Antonio Noja Neves, que escreve para os principais jornais portugueses. Durante o evento também saímos com um documento, que foi a carta formal de João Pessoa, que fala de certos compromissos, de uma agenda propositiva para Paraíba em torno do Cinema.
Qual o diferencial desta 6º edição do Festival em relação às anteriores?
Este ano nos só exibimos filmes no formato digital, que é um dado novo, pois até a última edição nós tivemos ainda a película e agora não mais, apenas nos formatos digitais, que ainda é bastante sensível e problemático. Então, esse pode ser considerado um diferencial tecnológico dessa edição e até mesmo evolutivo da história do cinema se pensarmos que até os últimos anos não tínhamos adotado essa tecnologia. E por tudo isso, eu acho que nós fomos muito felizes por conseguirmos atingir nossos objetivos, mesmo que nós na condição de produtores conseguimos enxergar erros e problemas que ainda acontecem, como pequenos atrasos nas projeções.
Na sua avaliação, como foi a produção paraibana desta edição do Cineport?
A Paraíba produz um cinema muito forte, de muito valor simbólico, mas desde o início do Festival no Estado foi registrado um aumento maior. Esse ano a produção paraibana foi muito boa. Além da quantidade é importante destacar a qualidade. A gente teve júri que participou das primeiras edições aqui, como o Antonio Loja Neto, critico português de cinema. Ele esteve na primeira edição fazendo a avaliação dos filmes paraibanos e voltou esse ano quatro edições depois e ficou espantado. Ele disse, ‘olha, eu nunca vi um resultado tão incrível em pouco temo. Esse cinema jovem paraibano de curta metragem tem muito para mostrar para o Brasil e para o mundo’. Esse cinema que está se produzindo tem muita qualidade estética.
Como ocorreram as produções durante o festival? Houve algo a se destacar?
O Festival tem sido uma janela de exposição para as obras paraibanas, mas também de troca, onde os realizadores podem ver filmes feitos nos outros continentes. Então, há capacidade de o Estado de atrair produções para locações na Paraíba. No festival passado pelo pelos uma produção acabou acontecendo aqui, fruto de acordos firmados durante o evento. Caso do filme “O Grande Kilapy”, de Zezé Gamboa, estrelado por Lázaro Ramos. Nesta edição, dois filmes estavam em curso durante o evento. Um feito por Rodrigo Areias, que aborda a produção de três artistas plásticos: os portugueses Pedro Bastos e Daniel Blaufuks, e o paraibano José Rufino.Outro filme, também em produção, é a história do político português Olímpio de Freiras, que foge da ditadura portuguesa e aqui se liga a uma série de movimentos dos Sem Terra, as Ligas Camponesas e ao partido comunista brasileiro. As filmagens começaram na Paraíba depois foram para o Rio de Janeiro e São Paulo. O filme está sendo feito pelo diretor Tiago Afonso, realizador de cinema político em Portugal.
Por que João Pessoa foi escolhida como cidade brasileira a acontecer o Cinerport?
João Pessoa foi a escolhida principalmente porque a Fundação Ormeo Junqueira Botelho, que promove o festival, é mantida pelas empresas do grupo Energisa. A primeira edição realizamos em Minas Gerais, e em Cataguazes, que também é atendida pela Energisa, mas é uma cidade pequena, que não fornece as mesmas condições que João Pessoa, pois ela é mais longe de Portugal, enquanto João Pessoa está praticamente em uma linha reta com Luanda, na África. Temos aqui o ponto mais oriental das Américas, o que nos dá mais facilidades de voos da Europa. Então, tudo favorecia, desde a presença do nosso patrocinador aqui, a Energisa, as favoráveis condições de logísticas para que o evento possa funcionar, além de outro diferencial que não temos lá em Cataguazes, que é uma classe cinematográfica local, uma tradição local de cinema e um grande público de jovens aptos a participar e a se envolver no festival, então isso foi o que nos motivou a permanecer com o festival em João Pessoa. E o que a gente gostaria de provocar aqui é ainda um aumento maior dessa produção. É que o estado perceba, os agentes dos governos percebam, que a Paraíba tem muito a oferecer para que produções venham de fora e aqui possam filmar. A Paraíba tem uma cenografia maravilhosa. Tem o sertão, tem o mar, tem uma cidade agradável como João Pessoa, que é cinematográfica e muito bonita. Enfim, o que a gente espera do Festival é que ele deixe legados. E assim um deles foi essa contribuição de abrir a discussão com diversos setores da sociedade envolvida na produção do audiovisual paraibano, para que a gente possa de alguma maneira colaborar para que se fortaleça ainda mais e dê um salto do ponto de vista da produção.
Conte-nos mais um pouco sobre os trabalhos da Fundação Ormeo Junqueira Botelho.
Ela é uma entidade cultural, sem fins lucrativos, e mantida pelas empresas do Grupo Energisa. Ela atual principalmente nas áreas de atuação e concessão das empresas do grupo, no caso de Minas Gerais, na região da Zona da Mata, Nova Friburgo, no Estado Rio de Janeiro, na Paraíba e em Sergipe, no Nordeste brasileiro, então onde a fundação atua por conta da presença do nosso patrocinador vem a desenvolver uma série de projetos e programas em torno da Cultura em geral. Portanto, temos o espaço da Usina Cultural de João Pessoa que procuramos realizar exposições de artes visuais e até mesmo fazemos parcerias com outras entidades para exibição de filmes, realização de espetáculos, enfim, isso se repete nos demais estados onde a fundação está presente, pois ela é multicultural e atua em várias vertentes.
Na sua opinião, como é a recepção do público paraibano nas atrações e nas atividades do festival?
O público paraibano é muito participativo, muito interessado, composto por uma juventude bacana que procura se informar, que facilmente se percebe o seu nível de interesse pela proposta do evento, além de ser um público festeiro e ao mesmo tempo ordeiro e participativo, o que nos faz ser muito felizes com o evento aqui na Paraíba, devido a grande adesão e participação popular.
Qual a importância de um evento como esse acontecer na Paraíba? E qual a contribuição que é dada ao Estado pelo Cinepot?
Como o Cineport tem uma dimensão internacional, o evento se torna importante porque o nome da Paraíba está sendo levado para outros lugares e também pelo público que vem aqui e conhece o Estado e fica super encantado. Um exemplo são os cineastas até mesmo do eixo-rio São Paulo que vem para participar da competição do festival e que nunca tinham vindo à Paraíba, ficam encantados e levam uma boa imagem de cidade que tem uma boa qualidade de vida, é arborizada, apesar de lógico ter seus problemas como toda grande cidade tem, mas com o seu diferencial de ser bem menos caótica do que muitas capitais do Nordeste e do seu porte, como nos conhecemos. Então, todos que aqui vem levam sempre uma imagem positiva. Então, esse é o tipo de contribuição que o Cineport busca dar a cada edição, para além do seu propósito que é congregar os países de língua portuguesa, e promover entre pessoas encontro e trocas de experiências é também essa preocupação de que possa servir de alguma maneira para algum tipo de questão que o cinema paraibano possa está enfrentando. O festival se consolida como espaço de trocas intensas e profundas, nos seus dez dias de realização.
Como surgiu a ideia de um festival de cinema com língua portuguesa?
Na verdade, como eu sou lá de Cataguazes, de Minas Gerais, que é uma cidade curiosa e que tem um envolvimento com a história do Cinema Brasileiro, porque lá, Humberto Mauro, que é um cineasta pioneiro brasileiro, produziu um dos seus primeiros filmes, no final dos anos 20. Daí, quando fui trabalhar lá nos fizemos uma homenagem ao museu em memória a Humberto Mauro, mas é obvio que é importante reverenciar o passado, prestar nossas homenagens àqueles que foram pioneiros, mas é importante também apontar para o futuro e se movimentar em torno do hoje e do futuro. Então, pensamos qual seria a maneira da gente novamente impregnar a cidade com a questão de cinema. Percebemos que realizar o festival seria uma dessas possibilidades, aí foi que a gente teve a ideia de fazer ele voltado para a língua portuguesa, porque rapidamente a gente pesquisou e vimos que tinham muitos festivais no Brasil, mas que não existia uma coisa específica, temática, ligada à língua portuguesa. E quando pesquisamos fora, também vimos que também não tinha. Até existe um festival luso-brasileiro, mas que não envolve a África, então vimos que esse seria o diferencial. Então, foi mesmo a busca de um diferencial para não se fazer apenas mais um festival de cinema, mas sim que ele tivesse uma função específica, um tema, e o elemento da língua é algo muito importante, pois é ele que nos dá uma identidade de como agente se expressa, e por isso julgamos muito importante fazê-lo.
Como a senhora avalia a produção e os investimentos em cultura que estão acontecendo em nosso País?
Existe um grande fundo de recursos da Ancine para a regionalização do cinema e a cada ano são lançados editais cada vez maiores de recursos mesmo para produções de cinema fora do eixo Rio-São Paulo e os estados como a Paraíba que tem uma cinematografia interessante podem pleitear esses recursos, mas têm que estar preparados. Nunca existiu tanto dinheiro para fazer cinema no país, isso do ponto de vista federal, inclusive as metas que a Ancine nos apresentou num seminário, tem metas ambiciosas, a exemplo de transformar o Brasil como quinto maior produtor de conteúdo do audiovisual mundial, que é uma meta bastante expressiva para o país, e para isso eles estão colocando muito dinheiro para isso. Então, vivemos um bom momento, nesse sentido. Agora para fazer esse dinheiro chegar ao Nordeste e a Paraíba, e circular, é óbvio que temos que nos movimentar nesse tabuleiro do xadrez para poder conseguir captar um pouco desses recursos para cá. E para estar bem preparado para isso, significa não só ter os agentes locais produtores e cineastas preparados para esse desafio, mas também, todos os entes que compõem essa cadeia, inclusive governos e prefeituras, precisam estar alinhados com o processo audiovisual. Processo esse que vai além do seu valor simbólico e que pode se tornar uma forte atividade econômica se for bem explorado. Então, existem esses recursos e que sair na frente vai ter como captar esses recursos e competir de igual para igual e mostrar cada vez mais um maior desenvolvimento da produção audiovisual paraibana. Agora do ponto de vista do orçamento do Ministério para Cultura, eu acredito que será o eterno menor orçamento da União. Pois, como vivemos em um país que tem tantas outras prioridades, urgências em questões muito fundamentais como saúde, moradia, mesmo eu sendo uma pessoa ligada e defensora da cultura, eu reconheço que é difícil equilibrar esses orçamentos. Portanto, como competimos, a Cultura convive com esse problema de ter sempre o menor orçamento. Apesar de que até evoluiu nos últimos dez anos os investimentos para a área de cinema pelo menos.
Quando e como será o próximo Cineport? Terá algo de novo?
A ideia nossa é de manter o festival de dois em dois anos, e normalmente acontecendo aqui na Paraíba, logo a próxima edição acontecerá em 2016. E como tivemos a presença de vários convidados e produtores de Angola nesta edição, estamos pensando fortemente em trabalhar para que na próxima edição homenagearmos a Angola, fazendo um evento bem afro e trazendo a cultura angolana, que de todas as culturas, talvez tenha sido a que mais dialogou com o Brasil por conta de que grande parte dos escravos que vieram para o Brasil foram da Angola. Então, será uma grande oportunidade de resgatar esses laços cultural e ancestrais através das artes.
Como funcionou o primeiro encontro nacional das APLs, que trata dos Arranjos Produtivos Locais ligados ao audiovisual do Brasil, realizado durante o evento?
Foi tudo muito bom e proveitoso. Vieram convidados da Agência Nacional do Cinema (Ancine), que participaram ativamente do encontro, e tivemos participantes de diversas regiões do Brasil que vieram discutir as questões da política do audiovisual. Estamos muito esperançosos que essa discussão iniciada aqui produza resultados ainda mais positivos para o cinema paraibano.