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“O Folia de Rua e as Muriçocas movimentam cerca de R$ 72 milhões na economia local”

2 de fevereiro de 2016

O Carnaval é, sem dúvidas, o evento que mexe com os brasileiros. Na capital paraibana, que foge um pouco da regra, vê nas prévias seu destaque maior nesta época. O chamado Folia de Rua é realizado na semana que antecede o carnaval nas demais cidades do Estado e movimenta o turismo e toda sua cadeia econômica.  

Seu principal atrativo, o Muriçocas de Miramar, é a maior prévia do Brasil. Bloco de arrasto, desfila tradicionalmente na “Quarta-feira de Fogo”, que antecede o Carnaval, na avenida mais importante do Brasil. O Paraíba Total conversou exclusivamente com o  músico, cantor e compositor, produtor cultural, escritor e vereador de João Pessoa, Flávio Eduardo, o Fuba, um dos fundadores e puxador oficial do Muriçocas há trinta anos.

Natural de João Pessoa, publicitário e há mais de 30 anos é um militante da cultura, destacou a importância do evento para João Pessoa e revelou seus novos projetos após se despedir do Muriçocas do Miramar agora em 2016. “É hora de passar o bastão. É preciso dar continuidade com vigor das novas gerações, chegou a hora de passar o bastão, já fiz tudo, cantei a cidade, tenho certeza que será bem entregue”, confirmou Fuba, ressaltando que não vai abandonar o bloco, seguirá como uma espécie de conselheiro.

Como e quando começou o seu trabalho direto no âmbito cultural?

Meu trabalho cultural teve início na cidade de Campina Grande quando eu já tinha uma ligação com a música e resolvi fazer a primeira Coletiva da Música Paraibana. Juntei muitos artistas paraibanos da época. Essa foi a primeira produção cultural que eu fiz. Depois comecei a produzir peças teatrais, e em paralelo iniciei a composição de músicas, e muitas foram gravadas por artistas nacionalmente conhecidos, como é o caso da cantora paraibana Elba Ramalho. Não parei mais. No caso da minha iniciação musical, e acho que foi isso que deu o ponta pé inicial na minha vida artística. Comecei muito cedo em um grupo chamado Os Peraltas. Eu tinha apenas nove anos. Meu avô era músico da Orquestra do maestro Capiba, e recebi toda essa influência dele. Meu pai gostava muito de música, e mesmo não tocando nenhum instrumento resolveu montar um conjunto que também tinha meu irmão como um dos integrantes. Esse conjunto infantil se tornou um referencial, pois naquela época não existiam grupos formados por crianças. Uma emissora de TV de Recife queria até que fôssemos para o Rio de Janeiro, mas meu pai não deixou por causa da nossa idade, e teríamos que parar os estudos.

 Tem dando para conciliar bem os papéis de artista e de político?

A política entrou na minha vida muito tempo depois. Eu estava com 40 anos de idade quando fui o vice de Luiz Couto em 1996 em uma campanha para a Prefeitura de João Pessoa. Mesmo militando culturalmente na universidade, nunca tinha me envolvido partidariamente. Não era filiado em nenhum partido. Roberto Freire, que era do PPS, e que na época era um partido de esquerda, veio em João Pessoa. Depois de muita conversa acabei entrando no partido. Na época perguntaram se eu queria colocar meu nome para vereador, mas no último dia da convenção do partido, para a minha surpresa, colocaram o meu nome para ser o vice na aliança feita com o PT. Ficamos em terceiro lugar, e foi uma campanha muito bonita. Sobre conciliar o artista com o político, isso é feito com tranquilidade, e muitas vezes o fato de ter uma militância artística me ajuda na construção dos meus mandatos de vereador. Estou no meu segundo mandato, e este ano estarei colocando mais uma vez o meu nome para a população pessoense pelo Partido dos Trabalhadores.

Qual a sua expectativa para as prévias carnavalescas deste ano na Capital?  

O Folia de Rua já é um evento consolidado na cidade, mas até hoje o poder publico não enxerga isso como um produto turístico, e isso cria bastante dificuldade para os organizadores dos blocos que fazem parte da prévia carnavalesca. Os blocos são abertos, e não tem uma visão mercantilista. Não temos um cordão de isolamento e a venda de camisas, o que seria uma forma de captar recursos, o que faz com que o investimento do Poder Público seja muito importante. No caso das Muriçocas, apesar ser termos o título de Patrimônio Imaterial da Paraíba, isso não foi utilizado para alavancar o turismo na nossa cidade e no Estado. Somos catalogados na Embratur, mas nunca tivemos esse reconhecimento. Dificilmente você consegue a cumplicidade do poder público e das empresas privadas.

Ao seu ver, qual o grau de importância desse festejo para o turismo e a economia pessoense?

Existe uma pesquisa no Sebrae realizada há aproximadamente quatro anos, que diz que o período pré carnavalesco, o Folia de Rua e as Muriçocas, tinham movimentado cerca de R$ 72 milhões na economia local. Infelizmente essa constatação não é vista pelo poder público como algo que poderia receber uma atenção mais especial. Se na época da pesquisa eram R$ 72 milhões, evidentemente que isso poderia ter sido ampliado muito mais. São pessoas que vendem camisas, produtos carnavalescos, são taxistas, hotéis, restaurantes e ambulantes que movimentam a economia da cidade, porém, o poder público não tem esse olhar.

É verdade mesmo que este será o seu último ano como puxador oficial do Bloco Muriçocas de Miramar?

Isso mesmo, a partir de 2017 não estarei mais a frente da organização, nem sendo o principal puxador do bloco, que além de arrastar centenas de milhares de pessoas, instituiu uma nova data no calendário brasileiro: a quarta-feira de fogo. Dedicou mais da metade da sua vida ao Carnaval de João Pessoa e acredita que já dei a minha contribuição. Então é hora de passar o bastão. Mas não vou abandonar o bloco, seguirei como uma espécie de conselheiro. O meu sucessor será o violeiro, poeta  e produtor cultural, Zé Neto. Pois ele é a pessoa mais indicada, por que cresceu dentro do bloco e é um grande músico e compositor. É preciso dar continuidade com vigor das novas gerações, chegou a hora de passar o bastão, já fiz tudo, cantei a cidade, tenho certeza que será bem entregue.

Há quanto tempo o senhor está frente do Bloco Muriçocas de Miramar? E qual seu balanço de sua trajetória junto do Bloco e os novos projetos?

Há trinta anos iniciamos esse projeto com uma brincadeira durante o aniversário do filho de um amigo que se tornou o maior bloco de arrasto de prévias carnavalescas do mundo. E ao passar o bastão, passar o bastão vou me dedicar a outros projetos como o Arremedo Musical, onde pretende lançar 10 CDs, com ritmos diferentes. Já tenho mais de 400 músicas compostas. Preciso tirar isso do baú para que as pessoas conheçam meu trabalho. Vou continuar compondo, escrever um livro de poesias, dá continuidade ao folheto de cordel, escrever um livro sobre as Muriçocas e continuar como político, trabalhando por João Pessoa.

Do seu ponto de vista, João Pessoa está sendo bem vendida culturalmente para fora da Paraíba?

Culturalmente, João Pessoa está sendo vendida pessimamente pelo poder público. Primeiro temos um diferencial geográfico, todo um aparato de coisas que só João Pessoa possui. Temos uma cena cultural muito forte, mas que é uma cena independente, que não acontece pelo apoio do poder público. Acontece muito mais pela força de vontade dos próprios artistas que querem que a coisa aconteça. Não vejo um bom trabalho feito pela Prefeitura de João Pessoa ou pelo Governo do Estado.

Como andam os incentivos à classe artística paraibana e quais os principais gargalos enfrentados?

Nenhum projeto que possa alavancar e dar condições de sobrevivência aos artistas locais vem sendo apresentado. Esse é o nosso grande gargalo. E no caso do Muriçocas, apesar de ser um movimento tombado como patrimônio imaterial, nunca recebeu a atenção devida do Poder Público e não foi trabalhado ainda como um produto turístico. E assim, todos os anos as dificuldades são grandes para colocar o bloco na rua.