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“As leis culturais que existem são insuficientes e nem dão subsídios necessários para se investir na cultura”

13 de maio de 2015

No sonho: ser famoso, rico, reconhecido e amado pelas pessoas. Na realidade: trabalho sacrificante, rotina difícil, leis insuficientes de apoio. O mercado artístico de atores é extremamente competitivo e nem sempre só quem tem talento vence. É preciso mais, na opinião de Júlio Braga, ator e diretor de cinema, irmão de Sônia Braga e tio de Alice Braga. 

Ele, com 24 anos de experiência na área, passa a semana na Paraíba a convite da Liga de Talentos, onde atua como jurado, olheiro e professor na busca de new faces em todo o País.    

Júlio Braga esteve na redação do Paraíba Total e falou sobre este mercado, cujo maior desafio do um aspirante a ator enfrenta é ser levado a sério neste ofício. “Existem muitas pessoas que pretendem ser “atores”, mas não fazem nada para promover suas carreiras. Tem que estudar, se capacitar, fazer os cursos e oficinas de qualidade, com pessoas de talento”, orientou o ator, que participou de produções na televisão como Sítio do Pica Pau Amarelo, Além do Horizonte, A Diarista, Malhação, e filmes como O Homem Nu e Matou a Família e foi ao Cinema.

Confira demais trechos da entrevista:

O que faz alguém ter sucesso na carreira de ator?

São vários fatores. Além do talento e da vontade de realmente ser artista, e não apenas ser famoso, é estar com as pessoas certas, um produtor certo, um diretor de elenco certo. Há seleções que fazem esse tipo de estreitamento, mas o resto é com ela, com a própria pessoa. Existem muitas pessoas que pretendem ser atores, mas não fazem nada para promover suas carreiras. Tem que estudar, se capacitar, fazer os cursos e oficinas de qualidade, com pessoas de talento. É aprender o tempo todo. Outra coisa essencial é contratar o lado emocional e ter realmente determinação, disciplina. Uma criança sem estudar, que não tem horário, não tem como dar certo. É preciso ainda ter humildade e muita paciência. Pois, se você souber esperar, vai chegar o seu momento. Eu sou um exemplo disso. Comecei como figurante e venho conseguindo meus espaços sempre. E o que falta hoje é humildade nas pessoas.  E há 25 anos dou aula sobre isso, nas oficinas e agora na Liga de Talentos.

A Liga estará aqui na Paraíba durante a semana. O que se procura aqui? 

O que nós buscamos é simplesmente o talento, o dom. Depois, vamos lapidar o candidato para que ele aprenda a decorar um texto e interpretar. E outra coisa importante e dará pontos ao candidato: muita humildade e paciência para aguardar a hora de sucesso. Não buscamos nada e ao mesmo tempo tudo. Não existe um perfil ideal, amarrado, não existe um magro, gordo, alto, baixo, loiro, moreno, olhos claros, olhos escuros. Existe sim uma busca de talento, de puro talento. Claro que uma pessoa que quer ser modelo, e tem 1m60, e quer atuar nas passarelas ela não vai conseguir. Esse perfil não sou eu ou os demais que escolhemos, na verdade. O perfil quem vai escolher será o produtor de elenco. Nós apresentamos o que nos achamos e que acham os talentosos para cada área e eles requisitarão da Liga os que melhor sejam para tão finalidade de trabalho, da obra que estejam produzindo.

Como funciona a seleção da Liga de Talentos?

Buscamos em todo o País pessoas de até 25 anos de idade, fazendo arte e fazendo bem e que aprendam a fazer também aqui com pessoas capacitadas. Buscamos gente sem vícios, e hoje isso é a coisa mais difícil de se encontrar, pois o bom é se começar do zero. Como se fosse uma pedra bruta, que deve ser lapidada. Hoje eu vejo garotos desde 5 anos e com talento maravilhoso, por isso temos que renovar e achar e garimpar esses pequeninos grandes talentos. 

Os pais deslumbrados atrapalham um pouco o processo seletivo?

Não é fácil, mas é preciso lidar com esse tipo de pai. Durante a nossa seleção, as mães não existem nesse sentido, pois certamente elas vão atrapalhar e muitas crianças não mentem quando relatam que nem queriam estar ali sempre avaliadas, mas estão por pressão dos pais. É importante a mãe ter em mente que não adiante transferir seus sonhos para os filhos, não vai ocorrer sucesso se seu filho não tiver talento e não se empenhar.

É no palco do teatro onde a maioria dos atores se realiza?

Isso é balela! Esse discurso das antigas, que todo mundo tem. Se não existisse o teatro, é claro, não existiria o mercado do entretenimento e muitos atores estão buscando fazer musicais, o que é ótimo. Dá pra se realizar em todos os lugares onde se trabalha bem e aprende com as pessoas certas. 

Em relação ao mercado artístico em atuação, como você vê o futuro das telenovelas?

Na minha visão artística, a novela brasileira está morrendo para dar vida aos seriados. É um mercado que está se expandindo, porque a novela está ficando desgastante. Quem fazia bem novela está morrendo ou foi mandato embora. E o problema também é porque hoje a produção está nas mãos de muitos e fica difícil tomar decisões. O brasileiro está farto de ver as mesmices e não está preparado para ver coisas muito revolucionárias.

Como você analisa a economia cultural brasileira? As leis de incentivo a cultura são suficientes?

Cultura dá dinheiro é viável. Pena que no Brasil não se tem essa visão. Como seria bom se empresários investissem mais na cultura regional, pois certamente ganhariam força em termos sociais. O governo também esqueceu de injetar e investir nas escolas em teatros dentro das escolas.  As leis culturais que existem são insuficientes e nem dão subsídios necessários para se investir na cultura. Mas, o que falta é interesse, sem falar nos entraves junto ao Ministério da Cultura para se conseguir qual é incentivo do dinheiro público, que hoje corresponde a apenas 2%. E no tocante ao setor privado, também falta divulgação das empresas que realizam atividades de incentivo à cultura. Muitas nem ficamos sabendo de editais.