Não seja refém da precrastinação: saiba impor limites ao uso do tempo
7 de setembro de 2020
Com as fronteiras entre a vida pessoal e a profissional mais difusas por conta da pandemia, muita gente passou a praticar a precrastinação.
Trata-se do impulso de tentar resolver as tarefas o mais rápido possível, dedicando o máximo de horas do dia à missão de reduzir a lista de pendências.
O risco é perder o interesse por atividades puramente de lazer ou de descanso, por não considerá-las “produtivas” – caminho para problemas como estresse, ansiedade, depressão e burnout.
O conceito de procrastinação – ir deixando para depois tarefas que não são urgentes – é bem conhecido. Já o seu oposto, precrastinar, não é tão famoso, mas pode causar grandes danos, especialmente à saúde.
Precrastinar é o impulso de tentar resolver tudo o mais rápido possível, incluindo assuntos que não são urgentes e talvez nem sejam tão importantes. É uma espécie de compulsão por eliminar pendências da lista de tarefas, em troca da suposta recompensa de esvaziar a mente de preocupações.
“Desde quando ganhamos nosso primeiro relógio e aprendemos a ler os ponteiros do tempo, passamos a fazer alguma coisa com essas horas, conscientemente ou não”, diz a jornalista Izabella Camargo, que se tornou vítima do burnout em 2018 e acaba de lançar o livro Dá um tempo! (Editora Principium), sobre a necessidade de estabelecer limites ao uso do tempo.
Em sintonia com o propósito do livro, Izabella desenvolveu um projeto de longo prazo, sem pressa. Durante três anos, pesquisou em dezenas de fontes e entrevistou mais de 100 influenciadores da nossa época, incluindo Fernanda Montenegro, Padre Fábio de Melo, Maurício de Sousa, Monja Coen e Mario Sergio Cortella.
Indício de desequilíbrio
Precrastinadores são pessoas que levam ao pé da letra a máxima “não deixe para amanhã o que você pode fazer hoje”. A armadilha é que sempre haverá o que pode ser adiantado, ao mesmo tempo em que novos itens estarão constantemente entrando na lista de assuntos a resolver.
A sensação acaba sendo a de frustração. Mesmo que o sonho de todo precrastinador se realize – zerar a lista de tarefas –, a conquista tende a não ser intimamente percebida de forma positiva. Há grande chance de vir acompanhada de um sentimento de vazio e de inutilidade.
Assim, em vez de se contentar com uma lista enxuta de pendências, o precrastinador tende a sentir falta de uma lista repleta de assuntos a resolver – mesmo que muitos desses assuntos tenham baixo nível de urgência e de relevância. É isso que o faz se sentir vivo e produtivo.
Precrastinar é um indício de desequilíbrio entre os diversos aspectos que levam a uma existência feliz: convívio com familiares e amigos, relações com a sociedade, cuidados com a saúde física e mental, atenção compartilhada com outros interesses além do trabalho.
Para quem já tinha alguma tendência, é provável que a quarentena tenha agravado o hábito, pois as fronteiras entre vida pessoal, profissional e familiar ficaram ainda mais difusas. Muitas pessoas entraram num looping permanente de atividades, parando apenas para dormir – e não raro roubando horas importantes de sono.
Escolha irracional
O conceito de precrastinação foi consolidado pelo psicólogo americano David Rosenbaum. A partir de 2014, ele fez uma série de experimentos que demonstraram o quanto as pessoas podem apresentar o desejo irracional de resolver coisas o mais rápido possível, mesmo que isso resulte no aumento do esforço necessário.
Num dos experimentos, estudantes universitários tinham que levar um balde até o final de um beco sem saída. Na entrada do beco, podiam escolher entre um balde colocado no lado esquerdo e outro no lado direito. Um dos baldes sempre estava mais próximo do ponto de partida da pessoa que cumpriria a tarefa – e, portanto, mais distante do final do beco.
Parece lógico, racionalmente falando, que os participantes iriam sempre preferir pegar o balde que já estava mais próximo do ponto de chegada, o que reduziria a distância a cumprir carregando o objeto. Surpreendentemente, contudo, a maioria optou por pegar o balde mais próximo do ponto de partida, mesmo que isso implicasse carregá-lo por uma distância maior.
A escolha foi credenciada à tendência de tentar antecipar a realização de tarefas para reduzir a carga cognitiva envolvida. Assim, para a maioria dos participantes, a satisfação com o fato de eliminar logo uma preocupação da mente acabou predominando sobre a perspectiva do esforço extra.
Energia dispersa
Muitos dos precrastinadores imaginam que a ideia de produtividade depende principalmente do volume de tempo dedicado às tarefas. Essa relação não é tão direta, contudo – e pode ser justamente a inversa.
Quem encontra um balanço adequado tende a fazer mais em oito horas bem aproveitadas do que alguém que passa 15 horas por dia e invade os finais de semana atacando tarefas sem uma estratégia de prioridades. A energia dedicada a atividades menos importantes pode fazer falta nas ações realmente primordiais.
Outro fenômeno relacionado à precrastinação é a dificuldade de manter o foco em algo que seja realmente relevante. Assim, uma tarefa que ocupa muito tempo e esforço acaba sendo várias vezes interrompida para abrir espaço à realização de várias outras pequenas tarefas. São atividades menos importantes, mas que dão ao precrastinador a falsa sensação de estar avançando na luta contra a lista de pendências.
Sensação antiga
“Por que muita gente está obcecada em usar cada um dos 1.440 minutos que temos disponíveis diariamente fazendo mais de uma coisa ao mesmo tempo?”, questiona Izabella Camargo em seu livro recém-lançado.
A obra mostra que a tecnologia, a internet, as redes sociais e as facilidades de comunicação até podem ter agravado a visão de que estamos o tempo todo pressionados pela necessidade de resolver tarefas, mas ressalta que essa não é uma sensação recente para a humanidade.
Cada geração tende a considerar que as 24 horas do dia não são suficientes – e sempre há uma certa nostalgia em relação à “tranquilidade” do passado. Basta conferir o que escreveu o escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832): “Penso que o maior dos males do nosso tempo, que a nada permite amadurecer, está em que o momento anterior consome o seguinte, o dia se esgota no próprio dia, e desse modo vive-se sempre da mão para a boca, sem realizar nada que tenha substância”.
Mudar a relação potencialmente doentia com a lista de tarefas depende não apenas de tomar consciência a respeito, mas de agir efetivamente para mudar os hábitos, observa Izabella. Para muita gente, a pandemia pode ter agido como um “choque de realidade” nesse sentido. “Aquela mudança de estilo de vida que estava sendo protelada aconteceu. Muitos já estavam insatisfeitos. Fazia tempo que não podiam mais se enganar.”