Juro do cheque especial cai em 2019, mas continua acima de 300% ao ano
29 de janeiro de 2020
Os juros do cheque especial e do cartão de crédito terminaram 2019 acima de 300% ao ano, apesar de a taxa básica, a Selic, estar no seu menor patamar histórico (4,5%). A taxa do cheque especial, uma das modalidades de crédito mais caras do país, caiu em dezembro para 302,5% ao ano, segundo dados do Banco Central divulgados nesta quinta-feira.
A queda foi de 10,1 pontos percentuais em relação à cobrada em dezembro de 2018, quando o custo do cheque especial estava em 312,6% ao ano. No mês, o indicador também recuou. Em novembro, a taxa de juros anual do cheque especial estava em 306,6% ao ano.
Na direção contrária, os juros do cartão de crédito na modalidade rotativa- quando o cliente não paga o valor integral da fatura na data de vencimento – cresceram. Em dezembro de 2019, a taxa chegou a 318,9% ao ano, uma alta de 33,5 pontos percentuais frente a dezembro de 2018, quando o custo do rotativo ficou em 285,4% ao ano.
No mês, também houve nova alta de juros no cartão rotativo. Em novembro, o custo anual estava em 318,3%, informou o BC.
O aumento do custo do cartão de crédito ocorre num ambiente em que a taxa básica de juros, a Selic, está em sua mínima histórica, 4,5%. Só em 2019, a queda da Selic foi de 2 pontos percentuais.
Segundo o chefe adjunto do Departamento de Estatísticas do Banco Central, Renato Baldini, o custo que se verifica hoje nos juros médios do cartão ainda é menor que os custos verificados antes de abril 2017, quando passaram a valer novas regras para a modalidade: desde então, o cliente não pode ficar mais de 30 dias no rotativo, e os bancos precisam oferecer um parcelamento para solucionar o débito.
Questionado se o desalinho entre o movimento de redução de custo do cheque especial e o avanço dos juros no cartão, mesmo com a Selic mais baixa da história, é uma decisão dos bancos, Baldini afirmou que o cartão de crédito é um produto mais complexo, e que o cenário não tem relação com a atuação do BC.
– (Isso) não tem relação com a política monetária- disse.
Em paralelo, a taxa de inadimplência para as pessoas físicas, quando considerados os recursos livres – aqueles emprestados pelos bancos sem direcionamento de preço do governo – continua estável com viés de queda. Em dezembro, o percentual ficou em 3,5%.
Novo teto de juros: Em novembro do ano passado, o Banco Central decidiu limitar a taxa mensal de juros do cheque especial a 8%, ante uma média de 12% aplicada pelos bancos nessa linha. A regra começou a valer no dia 6 de janeiro.
O novo limite fará com que a taxa média anual do cheque especial fique, no máximo, em cerca de 150% ao ano, metade da taxa praticada atualmente.
Consignado e veículos mais baratos: Conseguir um empréstimo consignado – aquele com desconto em folha – e financiar um veículo também ficou mais barato. No caso do crédito consignado para as famílias, de novembro a dezembro a taxa média de juros foi de 20,6% para 20,5% ao ano, mínima histórica para essa taxa nos últimos vinte anos.
Na compra de veículos, a taxa média caiu ligeiramente para as pessoas físicas, de 19,3% para 19,2% ao ano, configurando também uma nova mínima histórica, desde junho de 2000, quando o dado começou a ser medido.
Mais crédito: O BC comunicou ainda que o estoque total de crédito no Brasil subiu 6,5% em 2019, chegando a 3,471 trilhões de reais. E a segunda alta real desde 2017. Para as famílias os bancos concederam 11,7% mais crédito em 2019 do que em 2018. Para as empresas, a alta foi significativamente menor, de 0,2%.
O avanço do estoque em 2019 foi puxado pelo crédito livre, sem regulação nos juros pelo governo. A expansão dos recursos livres foi de 14,1%, ao mesmo tempo em que o crédito direcionado, regulado pelo governo, caiu 2,4% no ano passado, principalmente por conta da redução de operações via BNDES, segundo Baldini.
O movimento vai ao encontro dos objetivos do governo, que quer aumentar a participação do crédito livre e privado no sistema financeiro nacional, em substituição aos recursos públicos, como vem enfatizando o próprio presidente do BC, Roberto Campos Neto.
A autoridade monetária espera que em 2020 o estoque do crédito cresça ainda mais sob o impulso do consumo das famílias, e seja incrementado em 8,1%.