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“A crise fez com que o consumidor intensificasse o gerenciamento do seu próprio orçamento”

22 de dezembro de 2015

Mesmo diante de um dos piores cenários da economia nacional, o setor supermercadista brasileiro, representado por mais de 80 mil estabelecimentos varejistas, se mantém ainda este ano como um dos poucos saudáveis segmentos econômicos do País, gerando mais de 900 mil empregos formais e faturando em torno de R$ 200 bilhões, o que representa cerca de 5,5% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Na Paraíba, esse setor é representado pela Associação de Supermercados da Paraíba (ASPB), uma entidade de classe criada em 1977 para apoiar e representar seus mais de 200 associados.

Para analisar o momento de leve aquecimento das vendas deste mês de dezembro, em função dos festejos natalinos, e ainda as perspectivas para o segmento em 2016, mesmo diante da nova carga tributária anunciada de ICMS já para vigorar a partir de 1º de janeiro do próximo ano, o Paraíba Total conversou com exclusividade com o superintendente ASPB, Damião Evangelista Pereira, que também é formado em Relações Públicas. “A solução correta seria o governo ir atrás dos inadimplentes e não de aumentar a carga tributária dos que já pagam em dia, e que no final será diluída ao consumidor. E esse impacto forte, ainda pode gerar uma desestabilidade nas empresas e consequentemente, gerar demissões de colaboradores e até mesmo falência de alguns estabelecimentos”, disse ele.

Os resultados da 11ª edição da Convenção Paraibana de Supermercados (Consuper) realizada pela ASPB no último mês de outubro, no Centro de Convenções de João Pessoa, também estão entre os assuntos da entrevista que segue.

Qual a sua expectativa para o aquecimento das vendas do setor supermercadista em 2016? E neste último mês do ano, a pesar da crise econômica brasileira, as vendas devem ficar um pouco acima do esperado como ainda pregam alguns economistas ou não?

Nossa expectativa é de atingir pelo menos os resultados obtidos do ano passado. E para tanto, nós estamos adotando certas mudanças e incrementos, pois hoje o consumidor não está mais com aquela prática de fazer compras mensais, mas sim, está indo semanalmente aos estabelecimentos comerciais em busca do que está mais em conta. Por isso, é que estamos investindo nas promoções diárias para atrair os consumidores. Outra coisa realizada é o investimento na marca própria. Isso tem sido válido tanto para o cliente quanto para o supermercadista.

Qual a época do ano que mais preocupa os empresários do setor? E de que maneira a ASPB tem contribuído para superar os picos de esfriamento das vendas ao logo do ano?

Nós passamos o ano inteiro de 2015 basicamente administrando e fazendo uma gestão melhor de nossos negócios. E em relação ao ano anterior, mês a mês percebemos queda nas vendas, e com isso a nossa orientação é que todos trabalhem diminuindo um pouco a margem de lucro, colocando promoções, inclusive no fim de semana, pois na semana já temos a terça-feira ou quarta-feira verde, a quinta-feira ou sexta-feira da carne, por exemplo, que já são frequentadas pelos consumidores.

Qual a sua avaliação da edição da Consulper deste ano, que tem a organização da ASPB, em relação ao ano passado?

Na verdade a realização da Convenção Consulper é da ASPB, com o apoio de outras entidades como Associação dos Atacadistas, Fecomércio, Sebrae, Associação Brasileira de Supermercado, Associação Brasileira de Atacadista e Associação Brasileira de Automação, Essa foi nossa 11ª edição e nela trabalhamos mais a questão de relacionamento e de parceria, pois a questão de volume, números, esse ano ficou difícil de atingir devido a essa recessão da economia e às adversidades que ela trouxe. Mas, conseguimos manter o mesmo padrão de organização e qualidade das edições anteriores.

Quais são os maiores desafios enfrentados atualmente pelos empresários do segmento no Estado? A questão tributária seria o maior deles?

Com certeza o setor supermercadista é bastante impactado com a carga tributária, que tem feito com que o segmento tenha que o melhor jogo de cintura possível para absorver esses impostos, sem se desestruturar e nem espantar seus clientes.

E sem falar que, além da crise econômica, temos ainda uma grave crise hídrica que vem atingindo diversas cidades das mais variadas regiões paraibanas, e que reflete nas produções das safras, elevando cada vez mais o custo dos produtos, que consequentemente são repassados para toda a cadeia de vendas.

Como o setor recebeu o anúncio de aumento do ICMS feito pelo Conselho Nacional da Fazenda de 17% para até 20% na alíquota do setor de perfumaria e beleza, e que entrará em vigor já a partir de janeiro de 2016?

Recebemos com preocupação e também com indignação. Pois, o governo ao invés de buscar as empresas que não pagam impostos para aumentar sua arrecadação, decide é aumentar a tributação. E a solução correta seria o governo ir atrás dos inadimplentes e não de aumentar a carga tributária dos que já pagam em dia, e que no final será diluída ao consumidor. E esse impacto forte, ainda pode gerar uma desestabilidade nas empresas e consequentemente, gerar demissões de colaboradores e até mesmo falência de alguns estabelecimentos.

Com relação à criação de novas vagas temporárias. Qual a comparação com relação ao mesmo período do ano anterior com a venda intensificada para natal e até para material escolar para o ano que vem, por exemplo?

No nosso segmento esse incremento é muito pouco, pois trabalhamos durante todo o ano com nosso quadro de funcionários necessários. E apesar de incrementar vendas de final de ano, quem faz esse implemento pessoal geralmente é a indústria, ou seja, nossos fornecedores que encaminham para nossas lojas promotores para realizarem abordagem, demostração e degustação de produto junto aos nossos cliente.

Qual o perfil do cliente do setor supermercadista da Paraíba? Ele é compulsivo ou resistente, mesmo com o pagamento do 13º salário?

O nosso consumidor sem dúvidas se mantem cada vez mais cauteloso, mesmo com o incremento salarial do 13º salário. Mas, esperamos um aquecimento nas vendas na semana de natal e de ano novo. Mesmo que esse consumo seja diferente dos anos anteriores, já que este ano o que vem predominando é a substituição de produtos mais caros por outros mais acessíveis, a exemplo de carne de primeira por frango ou carne de segunda. A crise fez com que o consumidor intensificasse o gerenciamento do seu próprio orçamento.

Como o senhor analisa o perfil desse mesmo cliente atual com relação aos compradores de 10 anos atrás aqui no Estado?

Não é nenhuma novidade que nesse período o poder de compra cresceu para todas as classes, inclusive nas C, D e E com os benefícios dos programas sociais do Governo Federal. Mas, ultimamente economistas mostram queda no consumo da classe C, que já adquire não apenas a cesta básica, ela tem se mantido cautelosa ao longo dos anos, e este ano vem mais ainda, bem diferente dos anos anteriores em que não tinham temor à crise econômica.  

Que segmentos (perfumaria, alimentos, brinquedos, papelaria, etc.) são mais procurados durante esse período do ano pelos clientes paraibanos e de que maneira os supermercadistas se preparam para essa demanda?

A parte de higiene, cosmético e perfumaria tem crescido bastante e apesar da crise ainda é um dos mais procurados, inclusive nesse período de final de ano, onde todo mundo quer estar apresentável, e desse modo reforçamos nossos estoques. Contudo, esse setor de beleza até perdeu vendas também nesse ano, mas foi um dos segmentos pouco atingidos. Essa realidade pode até mudar a partir de janeiro do próximo ano, com esse impacto na carga tributária, pois os produtos vão aumentar de preço e isso vai refletir no consumidor.

Os supermercados têm criado outros serviços, como delivery, refeições prontas e farmácia, bem como ainda alguns já aderiram ao e-commerce. Como o senhor avalia essas inovações? 

Eu particularmente gosto de ir à loja para comprar, mas no geral vejo como positivo, pois tudo que agrega, incrementa, é bem-vindo, soma. E além desses serviços, também existem as ferramentas que também têm auxiliado bastante ao nosso segmento, que são as redes sociais, inclusive tem estabelecimentos que as utilizam bem para divulgar promoções, lançamentos, etc., com uma boa abrangência e a um baixo custo, mesmo se contratando uma agência para cuidar disso, e ao se comparar, por exemplo, com a contratação de uma mídia televisiva que tem um custo bastante alto.

Como a ASPB tem trabalhado para fortalecer o setor na Paraíba? E como a Associação tem contribuído para o desenvolvimento do Estado?

De forma econômica nós representamos um dos mais expressivos do Estado em termo de arrecadação, pois somos hoje mais de 7 mil lojas espalhadas em todo o Estado, gerando emprego e renda, além de fazermos dois eventos anuais que fomentam o turismo de negócios na Paraíba, que são a Consulper, em João Pessoa e o Encontro de Supermercados do Sertão, em Patos. E somos uma entidade que sempre trabalha em parceria com o Sebrae, Fecomércio, trazendo sempre uma soma positiva para o setor de varejo do Estado.

Há quanto tempo existe a ASPB e como se dá a sua atuação e quantos associados possui?

A associação existe desde 1977 e conta com 211 associados. Somos uma entidade de classe e a atuação da entidade se dá de forma institucional, ou seja, na representação do setor, além de orientar e acompanhar o processo de desenvolvimento dos estabelecimentos associados. Além de proporcionar o bom relacionamento entre os associados, entidades afins e os órgãos públicos.

Quais as vantagens em se associar à ASPB?

A maior vantagem para o associado é ter quem o represente na defesa dos interesses do segmento, além de poder participar de eventos que realizamos como a feira, o encontro no Sertão, além de palestras, eventos e visitas técnicas, que garantem uma rica troca de experiência entre os participantes.