“Um evento é um negócio totalmente subjetivo até o momento em que ele acontece pela primeira vez”
10 de novembro de 2015
A terceira edição, o Campus Festival 2015, que acontece entre os dias 19 e 22 de novembro, no Espaço Cultural José Lins do Rego, promove a união de várias áreas do conhecimento como o direito, saúde, comunicação, tecnologia e cultura, sem deixar de lado o empreendedorismo.
Mesas redondas, palestras, feiras, oficinas, exposições, competições de games, shows musicais, apresentações de arte cênica, dança e circo são algumas das atividades que fazem parte da programação do Campus Festival, que propõe ser plataforma de lançamento de ideias e produtos inovadores, bem como incentivar boas práticas de cidadania e de inclusão social.
Criado pelo o administrador de empresas Will Fonseca, em 2012, o evento também pretende estimular jovens empreendedores por meio da arte, economia criativa e tecnologia. Durante sua formação, Will organizou pequenos eventos dentro da universidade, participou de movimentos estudantis e viajou pelo Brasil para ter contato com encontros acadêmicos. Na iniciativa privada, ele já trabalhou em três bancos até que, meses antes da segunda edição do festival, largou o último emprego para se dedicar exclusivamente ao Campus. “Eu tinha duas jornadas e quando eu saí do banco para me dedicar, o Campus começou a decolar e as perspectivas de negócio que temos hoje fazem valer a pena”, reconheceu Will Fonseca, durante uma exclusiva ao Paraíba Total.
Ele recebeu a reportagem no escritório do Campus Festival, no Espaço Cultural, e comentou sobre o processo de construção do evento, desde o seu surgimento até a edição atual. Na entrevista, ele ainda fala sobre as novidades desta nova edição e do seu impacto para o desenvolvimento da Paraíba.
De onde surgiu a necessidade de criar um evento como o Campus Festival?
O Campus foi criado quando eu ainda estava na universidade cursando Administração. Pelas experiências que tive dentro e fora da sala de aula, de uma maneira geral, eu consegui enxergar um potencial gigante nas pessoas no sentido de transformadores, delas conseguirem transformar a própria realidade nas suas áreas. Quando essas pessoas se formavam, a gente não ouvia mais falar delas e por algum motivo ou circunstância, o mercado meio que as apagavam. A partir disso, eu fui procurar entender esse processo. Comecei a trabalhar em grandes empresas e vi que é um processo natural de mercado, em que as pessoas vão se adaptando e as empresas, principalmente as mais tradicionais, vão podando a criatividade das pessoas para colocá-las num padrão comercial, na sua cultura organizacional, e isso é completamente natural. Mas, a maior provocação que eu tinha naquele momento era como não deixar essas pessoas se apagarem. Na metade da minha graduação eu tive contato com o empreendedorismo na academia e me interessei bastante. Estudando sobre empreendedorismo, eu vi que era uma coisa muito boa, que traz desenvolvimento para uma região, que gera emprego, arrecadação impostos… E acima de tudo, pra quem é empreendedor, é um sonho pleno. Então eu saí juntando as coisas e pensei em como não deixar as pessoas se apagarem e como a gente muda a realidade de uma cidade como João Pessoa e a solução foi o empreendedorismo. O que eu podia fazer era criar um evento que pautasse o empreendedorismo e a gente criou o Campus sob uma perspectiva não apenas econômica de quem abre um negócio, mas na perspectiva de postura e de visão empreendedora, de uma pessoa que é um protagonista onde ela está e faz as coisas diferentes, inovadoras. O Campus surgiu dessa vontade de pautar o empreendedorismo na universidade e na sociedade como um todo.
Algum projeto serviu de inspiração?
No início eu me baseava muito no The South by Southwest, que é um evento americano realizado no Texas em que integram cinema, música, tecnologia, games, comunicação, entre outros. É um evento integrado e eu me inspirei muito nele. Apesar de termos o nome Campus e as pessoas pensarem em Campus Party, o campus se refere ao universitário mesmo. A gente queria que o Campus Festival fosse uma universidade dentro de um festival, em que todas as áreas estivessem juntas só que numa estética de festival e que fosse uma coisa boa para as pessoas. A inspiração principal foi o South by Southwest, mas hoje temos outras.
Como foi tirar a ideia do papel e colocar em prática, sem ter experiência?
Foi a coisa mais difícil da minha vida. Até hoje o evento não é da forma que eu tenho na minha cabeça, talvez um dia eu consiga. A proposta original, há três anos, está bem próxima, mas o que eu quero hoje de Campus, está longe de alcançar. Um evento é um negócio totalmente subjetivo até o momento em que ele acontece pela primeira vez e aí as pessoas vão tirar uma conclusão sobre ele. Patrocínio é difícil e tudo é caro. Há uma série de expectativa, de público, de pessoas que estão próximas, de pessoas que vão trabalhar e de fornecedores. É muito difícil começar um negócio do zero. As pessoas falam que empreender é legal e realmente é, mas é para quem está realmente decidido que quer fazer isso na vida. Não adianta você vir só com a vontade, porque você vai se dar mal. O primeiro ano de festival foi pesado, tive muita dificuldade como primeiro empreendimento, mas hoje eu tenho mais conhecimento de mercado e as coisas tão fluindo bem melhor.
Financeiramente, como o evento se sustenta desde a primeira edição?
Trabalhei em uma grande empresa por muito tempo, tinha algumas economias e investi tudo no Campus. No segundo ano continuei investindo. Neste ano, a gente já trabalha com um caixa próprio e o festival já se sustenta. Hoje a gente tem patrocinadores e apoio de empresas. Essa é a lógica do ramo de negócios de evento: proporcionar o encontro de clientes e marcas. Atualmente o evento é sustentável, tem uma equipe fixa, mas os dois primeiros anos foram bem difíceis.
Quais as maiores dificuldades desde a primeira edição até hoje?
Um dos pré-requisitos que um patrocinador busca num evento é o resultado de edições anteriores. Ele quer saber o que você já fez, quantas pessoas participaram do evento, qual foi a sua avaliação de satisfação das pessoas que passaram, se o evento foi bom ou ruim. Não adianta ter um evento que deu muita gente e ter sido avaliado como ruim. A dificuldade de se começar não só um evento, mas qualquer empreendimento, é que o patrocinador quer saber do seu passado e isso é natural. A maior dificuldade da gente foi essa de não ter nada para apresentar como passado, porque começamos do zero. A partir do momento que a gente tinha algo para apresentar sobre as edições anteriores, as portas foram se abrindo porque as pessoas passaram a ter referência do que a gente estava fazendo. Hoje a gente tem uma história mais consolidada, que está crescendo e é mais fácil trabalhar com essas pessoas. A própria experiência que eu tenho hoje me credencia pra fazer coisas maiores. A dificuldade mesmo é a falta de histórico, experiência e a falta de acesso ao capital. Não existe uma linha de crédito pública, por exemplo, para financiar esse tipo de empreendimento. Os grandes bancos também não financiam novos empreendimentos. Eles querem histórico e empresas que tenham, no mínimo, alguns meses ou anos de abertura, ou empresas que já possuam um faturamento. Quando você decide virar um empreendedor, praticamente ninguém te apoia. A verdade é essa. No máximo a sua família te apoia e, em alguns casos até a família mesmo não acredita que a coisa vai dar certo – o que não foi o meu caso.
Já pensou em desistir? Se sim, o que te fez continuar?
Pensei. O que me fez continuar foi certeza de que eu estava fazendo a coisa certa. Passei por momentos em que pensei em desistir para estudar mais e trabalhar em outros ramos para depois voltar a empreender. Mas aí eu parei e pensei “se eu acredito no que eu estou fazendo, então eu tenho que ir até o fim e até as ultimas consequências, porque eu sei que o que eu estou fazendo é certo e acredito que estou preparado para fazer”.
Você deixou seu emprego em uma grande empresa bancária para se dedicar exclusivamente ao festival. Por que?
Alguns meses antes da segunda edição eu saí do banco que trabalhava. Tinha propostas de promoção, de ascensão e até de outros bancos e larguei tudo. A partir do momento que eu tomei a decisão de se dedicar ao que é meu, as coisas melhoraram muito no meu negócio porque antes eu me dividia muito e, mesmo dando conta do meu trabalho, o campus não tinha tanta atenção. Eu tinha duas jornadas e quando eu saí do banco para me dedicar, o Campus começou a decolar e as perspectivas de negócio que temos hoje fazem valer a pena.
Como empreendedor, qual a maior lição que você tirou desse projeto?
Empreendedorismo para mim é sinônimo de felicidade. Eu acho que a maior lição que eu tiro é que ninguém é feliz sozinho. Se as pessoas ao seu redor não estiverem feliz, de alguma maneira ou de outra você não vai ficar feliz. Se você está altamente realizando com o que está fazendo e não consegue enxergar que existem pessoas ao seu redor que não estão, você pode estar até anestesiado demais com essa realização.
Com três anos de Campus, o que diria para os que estão começando a empreender?
Se prepare e planeje, seja por meio do estudo, da prática, ou de relacionamento. Acredite em você. Tenha foco para trabalhar diariamente para alcançar as metas e siga sua intuição. Se acha que aquilo vai dar certo, mentalize e faça uma projeção daquilo na sua vida. Se tiver que mudar algo no meio do caminho, mude, mas não deixe de mirar no objetivo final e no seu sonho. Quando se trata de um empreendimento que envolve finanças, se prepare porque ele pode oscilar. Às vezes as pessoas se assustam com essa oscilação e na primeira maré baixa correm com medo. Já na primeira maré alta se acham, perdem a cabeça e não é bem assim.
O que o Campus Festival traz de novo em relação as edições anteriores?
O festival tem de novo uma arena gastronômica com oito chefs paraibanos bem renomados; uma área de games inspirada no que acontece de melhor no mundo; competições de games; youtubers; a área de feira, com artesanato literatura, tecnologia, empresas locais e instituições públicas; apresentações de teatro, circo e dança; hackathon que é uma maratona de desenvolvimento de software; mostra de pesquisa e desenvolvimento; demoday e muita coisa nova. O evento vem com uma cara diferente este ano.
Como funciona o demoday?
No demoday nós convidamos alguns investidores e abrimos uma inscrição pela internet para as pessoas apresentarem os seus projetos. No dia do evento, se houver brecha, algumas pessoas que não se inscreveram antecipadamente vão poder apresentar os seus projetos para os investidores. Na verdade, o que os investidores procuram não é só uma ideia. Ela pode até ser interessante para eles, mas eles procuram algo em desenvolvimento ou uma pessoa que tenha noção do que está propondo. Normalmente o que eles buscam são alguns produtos em estágio inicial.
Desde a primeira edição, o festival caminha pelos setores da economia criativa. Qual a importância dessa área?
Na verdade a economia criativa me achou porque a gente trabalhou com ela logo no primeiro ano e eu não conhecia o conceito disso. Quando conheci, vi que era isso que a gente estava fazendo. Estávamos trazendo para o festival projetos na área da economia criativa. No segundo ano a gente conseguiu visualizar para implantar no terceiro. Na economia criativa trabalhamos com todos os setores: gastronomia, software, jogos eletrônicos, artesanato, literatura, música, cinema, moda, arquitetura, engenharia, biotecnologia. Todos esses setores têm um espaço no Campus e isso por causa do contexto em que estamos inseridos aqui na Paraíba. Historicamente, o estado sempre foi muito forte, desde a tecnologia, em Campina Grande; a música, com Jackson do Pandeiro, Elba ramalho, Sivuca; a literatura com José Lins do Rego, Augusto dos Anjos, entre muitos outros. E, para um estado que tem poucos recursos, trabalhar com o ativo-intelectual como matriz de desenvolvimento, como é o caso da economia criativa, é muito mais fácil. Você não tem recursos, mas tem mentes criativas e pensantes que estão criando e elas precisam dar vasão a essa criação. Essa criação precisa encontrar mercado fora daqui porque o recurso tem que vir de fora pra cá. Então o Campus tem essa pegada de ser plataforma, de pegar o que a gente tem de criativo aqui na Paraíba e mostrar para o Brasil e para o mundo, seja com uma banda, um designer, um gamer, um escritor, uma empresa… Assim a gente vai trazer uma melhora econômica e investimento para o estado e esse dinheiro vai circular aqui.
Atrair investimentos seria o maior impacto que o evento pode trazer para a Paraíba?
Economicamente falando, o maior impacto é atrair investimentos para o Estado e recursos por meio do mercado da economia criativa. No social, é a parte de inclusão que a gente tem no festival, que é muito forte. A gente faz inclusão com pessoas de classes sociais mais baixas e também com deficientes físicos. O evento tem três dias gratuitos e um dia pago – no sábado, apenas para shows, mesas e palestras.
Qual o público que o festival quer alcançar?
O nosso público são pessoas com espíritos inovadores, independente da idade, cor, religião, raça ou formação. São essas pessoas que a gente quer no Campus.
O que o eles podem esperar do Campus?
Transformação. Eu quero que as pessoas venham com um ponto de vista e saiam com um horizonte de possibilidades. Esta é a proposta.