“Em relação à inovação e novas pesquisas, a Paraíba ainda é um grande consumidor de soluções externas”
22 de julho de 2015
Integrar o ambiente acadêmico de pesquisa com a sociedade em geral. Esse tem sido o objetivo e ao mesmo tempo o maior desafio do Instituto UFPB de Desenvolvimento da Paraíba (IDEP). O órgão, criado em setembro de 2011, tem ainda como meta auxiliar na criação de soluções viáveis para impulsionar a vigência e a operância de produtos no mercado, produzidos pelas empresas do nosso Estado.
Para detalhar um pouco mais o trabalho do Idep, o Paraíba Total conversou com o presidente do mesmo instituto, o professor e pesquisador da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), no Departamento de Ciências Sociais Aplicadas DCSA/CCAE, João Marcelo Alves Macêdo. “A função do Idep é justamente aproximar a universidade da sociedade, rompendo os muros e trabalhando essa barreira, fazendo com que ao invés de sermos consumidores, passemos a ser produtores de tecnologia”, comentou durante a entrevista.
Para ele, sociedade e universidade precisam estar mais próximos para destravar o desenvolvimento de alguns setores. “Em relação à inovação e novas pesquisas, a Paraíba ainda é um grande consumidor de soluções externas, apesar de ter quatro grandes instituições públicas de ensino superior que são a UFPB, UFCG, UEPB e o IFPB”, observa.
Veja como foi a conversa.
O que é o Idep?
O Idep, o Instituto Desenvolvimento da Paraíba, surgiu no passado com a instalação na UFPB da Secretaria da Integração Universidade e Setor Produtivo (Siusp), só que trabalhava com a definição de algumas políticas em busca de iniciativas que poderiam auxiliar a Universidade a se integrar com a sociedade, em especial o setor produtivo. Ou seja, nós já preparávamos mão-de-obra e em seguida mandamos para a sociedade, para as empresas. Esse era o papel da Siusp. Contudo, como não tinha nenhuma estrutura laboratorial ou mesmo pesquisadores que fossem veiculados, vivia com projetos isolados. Com isso, depois veio o Idep, que surgiu através de uma emenda de bancada parlamentar, da nossa representação federal e capitaneada com uma emenda na ordem de R$ 14,5 milhões. O papel do Idep que é fazer todos os testes para verificar se esse produto está apto para ir para prateleira e ser comercializado. Ele atua trabalhando junto a essa empresa que desenvolveu o produto, aliado um rigoroso trabalho de análise que resultará em um registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e consequentemente esse produto seja autorizado para sua comercialização junto a sociedade através de uma farmácia.
Como o Idep contribui para o desenvolvimento da Paraíba?
Nos seus aspectos essenciais, o Idep pretende dotar o Estado da Paraíba de uma competente base de geração e difusão de conhecimentos científico-tecnológicos a serviço do seu desenvolvimento sustentável. A criação do instituto fundamenta-se na convicção de que a UFPB tem uma alentada capacidade de produção acadêmico-científica e tecnológica de qualidade que pode ser, com grande proveito, mais orientada ao desenvolvimento da Paraíba. Para organizar e sistematizar o seu funcionamento, o Idep orienta as suas atividades pelos seguintes eixos temáticos: modernização, reorganização e eficiência administrativa do Governo do Estado e dos municípios; infraestrutura e serviços básicos; recursos naturais e meio ambiente; Educação, ciência e tecnologia; inovações tecnológicas e organizacionais para o setor produtivo;Novas oportunidades econômicas para a Paraíba; políticas públicas e proteção social; arte e cultura paraibana no contexto nacional e mundial.
Qual a previsão de investimentos federais em tecnologia e inovação para 2015 em diante para melhorar do trabalho do Idep?
Hoje nós temos um grande aporte da Universidade na ordem de R$ 8 milhões para complementar esse investimento que irá construir aproximadamente 7,4 mil de área, composta por laboratórios, auditórios, estruturas de pesquisa, salas multimeios, salas de video-conferências, além de uma série de ações. E através disso, nós iremos realizar essa integração, ou seja, aproximar tudo aquilo que é desenvolvido dentro da Universidade, transformar isso em produto e posteriormente levar para as empresas para se obter desenvolvimento. Esse é nosso primeiro passo, que será feito através do desenvolvimento de soluções a serem levadas à sociedade.
No que constitui o Idep?
O Idep conta com sete Laboratórios para realização de suas pesquisas, sendo eles: LTSPOVA – Laboratório de Solos e Prod. Vegetal e Animal; LTPB – Laboratório de Tec. e Proces. de Biocombustíveis; LFAPBIO – Laboratório de Farmacologia e Prod. Bioativo; TECNOMAT – Laboratório De Tec. de Novos Materiais; LPA – Laboratório de Prod. Agropecuária; LEEN – Laboratório De Eficiência Energética; e LEP – Laboratório de Estudos e Pesquisa. Além disso, temos divisões do IDEP: Divisão de Apoio ao Desenvolvimento de Pequenos Municípios; Divisão de Economia Paraibana; Divisão de Políticas Sociais Públicas; Divisão de Inovações de Tecnológicas de Micro e Pequenas Empresas; Divisão de Educação Básica Pública da Paraíba; Incubadora de Empresas; Geoprocessamento Ambiental e Núcleo de Informática e Multimídia.
Que tipo de metodologia de trabalho é utilizada?
O Idep se utiliza da seguinte metodologia: ele parte das pesquisas que surgem dentro da Universidade, encontradas no âmbito das pós-graduações, dos programas de iniciação científicas e essas pesquisas são as aplicadas, pois não trabalhamos apenas com pesquisas básicas. Na prática, pegamos uma situação e levamos para estudo para se encontra uma solução seja de um problema de uma comunidade como de uma empresa. E nesse sentido, nós temos semelhantes às metodologias do Ipea a o parte de preparação de relatórios, exposição e com reunião técnica e discussão dos resultados obtidos. Nossos laboratórios também se assemelham aos de Pernambuco, onde há um centro onde se é possível desenvolver altas análises e elas compõem principalmente um setor macro que visa desenvolver um produto de prateleira, como por exemplo nós temos aqui um laboratório vinculado ao CCEM, que desenvolveu um produto fitoterápico, biossintético, para tratamento da herpes labial e genital.
Qual maior gargalo encontrado pelo instituto?
Nosso maior gargalo e a situação mais complexa é sem dúvida a conclusão das construções. Nós enfrentamos uma série de problemas, pois as obras tiveram várias empresas que faliram e não deram continuidade ao trabalho. E com isso, o dinheiro volta ao seu lugar de origem. Mas, estamos avançando, pois recentemente conseguimos destravar duas grandes obras, e outra que está em vias de destravamento. E assim eu acredito que até dezembro de 2016 o mesmo está concluído, conforme o previsto no Plano de Trabalho aprovado pelo do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Paralelo a isso tudo, nós temos trabalhado para que as pessoas venham conhecer o que é o Idep e que através dele possam surgir oportunidade para todos.
Na sua avaliação, como está o setor produtivo na Paraíba perante o cenário nacional?
Em relação à inovação e novas pesquisas, a Paraíba ainda é um grande consumidor de soluções externas, apesar de ter quatro grandes instituições públicas de ensino superior que são a UFPB, UFCG, UEPB e o IFPB. Com isso, o empresário paraibano ainda não se dá o grande valor, muitas vezes ainda por culpa da própria universidade que se encastela, se isola e não quer chegar à sociedade como realmente deveria enquanto outros não, pois buscam e batalham por isso. E a função do Idep é justamente isso, aproximar a universidade da sociedade, rompendo os muros e trabalhando essa barreira, fazendo com que ao invés de sermos consumidores, passemos a ser produtores de tecnologia. E assim levando e aplicando junto a sociedade algo novo e viável. Contudo, mesmo nossas empresas ainda apenas consumindo, elas já começam a produzir e nós já temos bons exemplo. Na área de isolamento acústico, nós temos algumas estudos que contam com o apoio da Fundação de Amparo ao Desenvolvimento do Governo do Estado, com o programa Tecnove, e também com o apoio da Fiep que capitaneou nos últimos dois anos o Sistema Regional de Inovação (SRI), por meio do qual estamos discutindo e batalhando junto às empresas para que as mesmas venham assumir essa cultura de inovação .
E como o senhor tem observado o mercado profissional no nosso Estado?
A Paraíba durante muitos anos vem atrelada ao desenvolvimento baseado na matriz de busca por industrialização, busca de acesso ao mercado internacional e desse modo, eu acredito que ela perdeu grandes oportunidades, como no setor turístico, devido ao grande travamento no projeto Costa do Sol, unido ao Mercado do Artesanato e o Espaço Cultural, que seriam o grande tripé para o destravamento da Paraíba no setor de turismo. Quando falamos no turismo, falamos também na profissionalização, na abertura mais estendida dos nossos restaurantes, sem falar que João Pessoa por exemplo não tem uma grande vida noturna e isso também influencia sem dúvida. E se partirmos para o setor comercial, nós vivemos hoje basicamente do comércio e dos serviços, pois estamos virando uma cidade dormitório, como acontece com algumas cidades do ACB Paulista que trabalham em São Paulo e vão praticamente só dormir nas cidades do ABC. E isso é preciso também precisa ser repensado. E isso deve partir desde o ensino de nossas escolas até o das nossas universidades, para que as mesmas possam atrair pessoas da nossa própria região.
E nos demais setores?
Com relação ao setor industrial, por exemplo, a Paraíba precisa fazer uma melhoria na sua infraestrutura logística, com melhoria no porto, e uma reestruturação apoio por meio da Cinep aos polos industriais, dos distritos de mangabeira somado a uma série de ações que possam atrair essa e outras empresas. E é lamentável ver empresas abrindo e fechando, como é o caso das cimenteiras. Nós precisamos pensar de uma maneira conjunta para aproveitar o polo automotivo da Fiat, e o Polo de emoderivados da Hemobras e a fabrica de vidros planos que estão todos nessa região. Para atrai-las, teremos quer ter uma boa logística para abrir esses trabalhadores dessa região industrial, mas para isso eu tenho que ter uma boa estrutura de serviços, comércio, e uma boa logística voltadas para esses trabalhadores.