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“É preciso que os governos olhem para o setor canavieiro e privilegiem a produção de combustíveis renováveis”

24 de março de 2014

Mesmo sendo uma das principais bases
da economia e da geração de emprego do país, a cada dia que passa, o setor
produtivo, independente de qual seja a cultura praticada, tem enfrentado
inúmeras dificuldades para se manter atuante. Clima, mão-de-obra qualificada, alto
custo de produção ou mesmo por falta de incentivos por parte dos governantes
são alguns gargalos comuns no meio rural.  Essa realidade também faz parte
do dia-a-dia do setor sucroalcooleiro no Nordeste e também da Paraíba,
responsável pelo cultivo da cana-de-açúcar no Estado, que é a principal
matéria-prima para produção do açúcar, do álcool e demais derivados.

“A elevação do preço dos fertilizantes
nos últimos anos foi de cinco vezes muito acima do crescimento do valor da cana
e esse talvez seja o nosso maior desafio na atualidade. Os insumos, inclusive,
representam 61% dos custos de um ciclo médio total de cana-de-açúcar que é de
cinco anos para um hectare”, avaliou presidente da Associação dos Plantadores
de Cana da Paraíba (Asplan-PB), o engenheiro civil e produtor rural, Murilo
Correia Paraíso.

Fundada em 1957, a Asplan é uma
entidade de direito privado que congrega, atualmente, cerca de 1.800 pequenos,
médios e grandes produtores de cana-de-açúcar, sendo a maior parte deles
pequenos e médios.

Durante entrevista ao Paraíba Total, dirigente
apontou as maiores dificuldades vivenciadas pelos associados, da zona litorânea
e do Brejo paraibano, no cultivo da cana-de-açúcar e como a entidade tem se
empenhado para tentar amenizá-las. Na oportunidade, ele ainda adiantou o
balanço atual da safra 2013/2014 processada nas usinas, apesar de todo o alto
custo de produção. “Já atingimos 85%, o equivalente a 1.406.551,442 toneladas.
Toda essa matéria-prima produzida pelos 1.800 fornecedores/associados já foram
processadas nas oito usinas sucroalcooleiras do estado. Dificilmente será
atingida a mesma moagem de 2011/2012, já teve uma redução de 25%, repercutindo
de uma forma bastante negativa na atividade dos produtores de cana-de-açúcar”,
acrescentou ele.

Abaixo, os principais trechos da
entrevista:

Como está a atual situação dos
produtores canavieiros do Estado?

O setor, infelizmente, carece de
políticas públicas que o fortaleça. A Asplan, junto com as entidades
representativas da categoria, tem cobrado dos governos estadual e federal,
ações que fortaleçam o segmento que é um dos mais importantes da economia, que
emprega mão de obra no campo, que gera divisas. A doação de cana-semente, em
nível local, e a perpetuação do pagamento da subvenção, em nível federal, são
algumas das principais bandeiras de luta defendidas pela entidade em prol do
surgimento da atividade e na defesa de quem vive de plantar e colher cana-de-açúcar.
É preciso que os governos olhem mais atentamente para o segmento canavieiro
devido a sua importância econômica e social e, especialmente, invistam, cada
vez mais, em políticas que privilegiem a produção de um combustível limpo e
renovável, o álcool, em detrimento de combustíveis fósseis que poluem e tem
suas reservas limitadas. O Brasil tem terra boa, fértil e em grande quantidade,
matéria-prima de boa qualidade, indústrias e produtores que vivem da terra,
plantam e colhem com amor. Falta ainda direcionamento e visão para todo esse
potencial.

Como estão os números do setor, em
relação à tonelada de cana, salários dos trabalhadores e produto final da
produção?

A tonelada de cana vem variando uma
média de 6,6% sempre para baixo desde 2011 (valores: R$ 73,44 em 2011; R$ 67,31
em 2012 e R$ 64,58 em 2013) e os salários médios dos trabalhadores crescendo em
média 10% no período que compreende os anos de 2000 a 2014. Em 2007, por
exemplo, o setor pagava R$ 387,00 de salários aos trabalhadores rurais. Hoje o
mesmo trabalhador recebe R$ 734,00. Isso significa uma elevação de quase 100%
no pagamento das folhas em sete anos, enquanto o valor pago pela cana de 2007
para cá variou negativamente. E os custos não param por aí. Nos últimos 14 anos, os salários
subiram, chegando a quase sete vezes mais, visto que lá pelo ano 2000 a
remuneração do cortador de cana era de pouco mais de R$ 100. Também tivemos a
elevação do diesel e dos adubos. Imagine que em 1994, na virada do Real,
pagávamos R$ 0,38 pelo litro do diesel e a cana estava a R$ 21. Agora, o litro
do diesel está sempre acima de R$ 2,30 e a cana está sendo comercializada a R$
61, ou seja, enquanto o diesel subiu seis vezes, a cana subiu três. O adubo
também teve elevação nesses anos. Se antes o produtor comprava insumos a R$ 200
hoje paga R$ 1.000. Enfim, a elevação nos insumos foi de cinco vezes, também
acima do crescimento do valor da cana e esse talvez seja o nosso maior desafio
na atualidade. Os insumos, inclusive, representam 61% dos custos de um ciclo
médio total de cana-de-açúcar que é de cinco anos para um hectare.

Qual o balanço atual da safra
2013/2014? Qual previsão de conclusão da moagem nas usinas? E qual a
expectativa de produção em álcool e açúcar?

O processo de moagem da
cana-de-açúcar referente à safra 2013/2014 dos fornecedores ligados à Asplan já
atingiu 85%, o equivalente a 1.406.551,442 toneladas. Toda essa matéria-prima
produzida pelos 1.800 fornecedores/associados já foram processadas nas oito
usinas sucroalcooleiras do estado. O trabalho teve início em agosto em algumas
unidades e noutras em setembro. A expectativa é que a safra termine nos
próximos dias. É importante salientar que o atraso do inicio desta safra em
relação a anterior ocorreu por conta do péssimo desempenho do inverno de 2012 e
o inverno de 2013 ter começado a se consolidar só a partir de maio retardando,
portanto, a época ideal de corte da cana para moagem. Dificilmente será
atingida a mesma moagem da safra 12/13 que, comparando com a 2011/12, já teve
uma redução de 25%, repercutindo de uma forma bastante negativa na atividade
dos produtores de cana-de-açúcar. Nós não respondemos pela produção de álcool e
açúcar. Essa é uma prerrogativa exclusiva do setor industrial. Os associados da
Asplan são fornecedores da matéria-prima às indústrias.

E para a próxima safra, como estão os
preparativos e qual a nova estimativa da entidade no que diz respeito a
rendimentos?

As perspectivas de safra, geralmente
são regidas por dois parâmetros principais: clima e preços. As previsões
climáticas para o ano de 2014 são animadoras, com previsão de inverno dentro da
média acima da média histórica. As chuvas que vêm caindo na região canavieira
desde o início do ano só vêm a corroborar com estas previsões. O segundo fator,
o preço, está atrelado à produção nacional de uma forma geral e internacional.
É sabido que o Centro-Sul do Brasil passa por problemas causados pela estiagem,
o que já comprometeu parte da sua produção. Como o Centro-Sul responde pela
maior parte da produção brasileira, suas quedas de safra, bem como suas
supersafras, atingem positiva ou negativamente os preços praticados pelo açúcar
e etanol. Já é sabido que quando tais quedas de safra ocorrem, principalmente,
no Estado de São Paulo, os preços destes produtos tendem a subir no Nordeste. O
mesmo ocorre quando países como Índia e Austrália enfrentam problemas com as
monções e as secas. Em suma, as previsões para a próxima safra são boas, tanto
no clima quanto nos preços.

Quais os principais resultados
obtidos pela entidade nos últimos tempos?

O principal resultado obtido no ano
de 2013, que foi um ano muito difícil para o setor, foi a liberação da
subvenção da cana-de-açúcar, no valor de R$ 12,00 por tonelada para o produtor.
Para 2014, um dos principais pleitos é o controle do preço, uma vez que o
etanol está atrelado diretamente à gasolina. Temos também, a situação do
endividamento rural que mesmo com a existência de vários Projetos de Lei, até o
momento, nenhum deles solucionou o problema dos produtores que estão
endividados e sem perspectivas de renovação de crédito. Estamos também no
aguardo da conclusão do projeto de irrigação para resolvermos a situação crítica
causada pela seca, o qual depende da transposição do Rio São Francisco.

A geração de emprego e renda em todo
setor produtivo favorece e muito para o desenvolvimento de um estado, de uma região?
A Asplan-PB tem acompanhado  de forma positiva estes números no segmento
sucroalcooleiro da Paraíba?

Sim. O segmento como um todo emprega,
em média, cerca de 40 mil trabalhadores em períodos de safra na Paraíba e isso
é um volume significativo de trabalhadores e geração de emprego no campo, onde
a maior parte da mão de obra absorvida não é qualificada.

Como se dá a interface entre a
Asplan-PB e a Federação dos Plantadores de Cana (Feplana)?

Através da Lei 4870/65, a Feplana é
parceira em todos os sentidos e o trabalho é voltado para todo o setor
canavieiro, onde juntamente com a Unida- União Nordestina dos Produtores de
Cana-de-açúcar, lutam por todas as causas do segmento canavieiro e são
responsáveis pelas grandes conquistas, a exemplo da subvenção.

Como a Asplan-PB tem administrado a
crise e orientado seus associados nos períodos de estiagem decorrentes nos
últimos anos?

Cobrando das autoridades políticas
públicas efetivas que não apenas resolvam pontualmente o problema, mas que dê
soluções definitivas. A continuidade e conclusão das obras da transposição do
Rio São Francisco está inserida neste contexto de buscar soluções duradouras
para a problemática da seca.

Que outros tipos de auxílios a
Asplan-PB têm oferecido aos seus associados? 

O trabalho de assistência prestado
pela entidade aos seus associados é realizado tanto na sede da entidade, em
João Pessoa, quando na propriedade deles, in loco. Há também o assessoramento
em questões ambientais e trabalhistas e de Segurança no Trabalho, tais como,
cumprimento de Normas Reguladoras, em questões jurídicas nas áreas Civil,
Criminal, Agrária e Trabalhista, na área de saúde, com atendimento médio e
odontológico gratuitos, além de exames laboratoriais, na questão social, com as
ações pontuais de realização de eventos, palestras e comemorações. Asplan
mantém ainda à disposição dos associados uma Estação Experimental, em
Camaratuba, Município de Mataraca-PB, onde se produz insumos biológicos (vespas
e fungos) para o combate natural de pragas dos canaviais, além de um
laboratório de análise da cana, para auxiliar os produtores a identificar o
valor do ATR de sua matéria-prima.

Do seu ponto de vista, quais são as
perspectivas para o crescimento e desenvolvimentos do setor canavieiro da
Paraíba nos próximos anos e como a Asplan-PB se projeta nesse contexto?

A única área de possível expansão
seria onde está ocorrendo a interligação das bacias, Acauã e Araçagi, onde está
sendo disponibilizado 16.000 ha.. A Asplan está em constante busca de
resultados através de inúmeras reuniões com o Governador do Estado e as Classes
representativas, como também, a disponibilidade de áreas através de alguns
associados que inclusive, alguns deles já plantam através de sistemas
rotativos.