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“A universidade precisa ser dotada de uma infraestrutura mais adequada para suas atividades. Não podemos acomodar com a crise”

18 de dezembro de 2013

De acordo com dados do IBGE, o Brasil está entre os dez países com as maiores economias do mundo. Porém, a educação brasileira é um grande desafio, principalmente no tocante à precariedade do ensino público. São problemas a se resolver de estrutura, longas distâncias e principalmente a baixa qualidade das instituições de ensino que está muito distante do ensino aplicado pelos países desenvolvidos. Porém na Paraíba, que conta atualmente com três universidades públicas, sendo duas federais e uma estadual, essa realidade tem sido um pouco melhorada, segundo os indicadores oficiais.

Em entrevista exclusiva ao Paraíba Total, o reitor da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), Antonio Guedes Rangel Junior, explica de que forma a entidade vem tentando superar os desafios da educação pública superior no Estado. Ele que há um ano assumiu esse posto e agora após 12 meses de gestão, tendo enfrentado as dificuldades impostas à instituição se empenhando na busca de soluções para os problemas decorrentes, encerra seu primeiro ano de reitorado trazendo boas notícias para a UEPB, como o convênio firmado com o Ministério da Saúde, que vai garantir a construção de uma fábrica dentro da Universidade para a fabricação de equipamentos médico-hospitalares, em uma iniciativa inédita, que vai promover o desenvolvimento de Campina Grande e da Paraíba, gerando riquezas e difundindo conhecimento.

Ainda durante a entrevista o reitor Rangel Júnior também avaliou esse período de sua administração, falou sobre as principais adversidades, projetou ações e reforçou sua esperança em ver o crescimento da UEPB sendo retomado, a partir do entendimento de que Educação não é gasto, mas sim um investimento. “Vamos buscar melhorar cada vez mais e tenho esperança disso fundada em análises muito concretas da vida da Universidade, da sua história. Vamos continuar no desafio de convencer o governo da importância que a Universidade tem para o nosso povo, que educação não é gasto, é investimento”, disse ele.

Confira a entrevista na íntegra.

Qual a missão e os maiores desafios da UEPB e como a instituição de ensino tem feito para superá-los?

A missão da UEPB é formar cidadãos, mediante a produção e a socialização do conhecimento, contribuindo para o desenvolvimento educacional e sócio-cultural da Região Nordeste, particularmente do Estado da Paraíba, em sintonia com o Plano de Desenvolvimento Sustentável Estadual. Nossa visão é ser um centro qualificado de Ensino, Pesquisa e Extensão, através de ações que contribuam para a formação de cidadãos tecnicamente qualificados, críticos e socialmente comprometidos. E nossos desafios é nos manter através dos nossos princípios, que são compostos pela identidade, a autonomia, a unidade, a diversidade, a qualidade e a participação são os princípios de sustentabilidade institucional da UEPB, baseados ainda nas nossas diretrizes de, por ter caráter público deve, através do ensino, da pesquisa e da extensão, produzir um conhecimento comprometido com o enfrentamento da exclusão social.

Como é formada a UEPB atualmente? Alunos, professores, servidores gerais ativos e inativos, campi, cursos de graduação e pós-graduação,  etc.

A UEPB possui atualmente 8 campus, sendo o Campus I – Campina Grande, Campus II – Lagoa Seca, Campus III – Guarabira, Campus IV – Catolé do Rocha, Campus V – João Pessoa, Campus VI – Monteiro, Campus VII – Patos, e Campus VIII – Araruna; 54 cursos de graduação, com 20.229 alunos matriculados na graduação e 2 mil alunos formados por ano; Conta também com 64 cursos de pós-graduação, sendo 18 mestrados, 4 doutorados e 42 especializações, onde destes, 2.227 alunos estão na pós-graduação; oferece ainda 4 cursos na modalidade EAD, com 1.913 alunos matriculados na EAD. Nosso corpo docente é composto por 976 professores (46 doutores, 401 mestres, 98 especialistas, 15 graduados), temos um total de 727 servidores técnicos administrativos. Nossa instituição ainda dispõe de 300 mil itens de acervo nas bibliotecas, possui 106 grupos de pesquisa, com 250 projetos de iniciação científica, 25 programas de extensão, 400 projetos de extensão e 30 cursos cadastrados na extensão. Para tanto, temos ainda 860 professores envolvidos na extensão universitária, 2.191 alunos envolvidos na extensão universitária, 176.200 pessoas beneficiadas por ações extensionistas a cada ano, 14 programas de apoio estudantil, 20 mil atendimentos mensais nas clínicas de saúde da UEPB realizados nas clínicas de Enfermagem, Psicologia, Odontologia, Fisioterapia e Laboratório de Análises Clínicas. Por fim ainda oferecemos uma Assistência Estudantil, através de Bolsas de Iniciação Científica, PIBIC / UEPB, PIBIC / CNPq, Bolsas de extensão, Bolsas de Monitoria, PIBID – Iniciação à Docência, Bolsas de Tutoria, Restaurante Universitário, Restaurante Popular, Bolsas de Alimentação – Total, Bolsa Manutenção, Residência Universitária e Bolsa Transporte.

Em sua gestão, quais os principais avanços e principais conquistas que podemos pontuar?

Há um ano assumi a Reitoria da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Nos últimos nove anos experimentamos um momento de muita ascensão na vida da UEPB. Há 33 anos vivo a vida dessa Universidade, desde aluno e como professor e não há parâmetros para comparar o período que vivenciamos entre 2005 e 2010 na UEPB com qualquer outro período. Essa Universidade passou por uma verdadeira refundação. Sua criação foi um marco fundamental, mas trouxe a UEPB até 1987 em muita crise. Nesse ano, a estadualização tirou a Universidade de uma crise e a lançou em outra, que foi a do financiamento público em um Estado em crise e em um cenário de fim de ditadura. Havia salários muito ruins, condições salariais terríveis. Em 1996 conseguimos o reconhecimento no MEC e ele trouxe certa segurança, um novo conceito institucional, que foi resultado do investimento que o governo fez para melhorar seu quadro de professores. De lá para cá não tivemos muitas mudanças, até a definição da lei de Autonomia, que foi um marco em sua vida, com critérios de repasses de recursos que permitiram experimentar um novo estágio em sua história, de estabilidade, de planejamento, de crescimento, de expansão em todas as suas áreas e isso criou um referência nova para a UEPB no cenário das universidades na Paraíba, no Nordeste e até pra fora do Brasil em alguns aspectos. A UEPB passou a ser conhecida como universidade que produz conhecimento, com professores qualificados. Antes tínhamos apenas evasão de quadros e passamos a ter até professores de fora querendo trabalhar aqui. Quando assumi a Reitoria, foi em um momento de declínio, de crise, de redução da potência e da capacidade de crescimento. Isso obrigou a Universidade a se repensar, a recuar nos seus planos de expansão e consolidação. Infelizmente assumi em um momento de crise e o esforço tem sido no sentido de dotar a Universidade de uma cultura do debate político, da transparência pública ao extremo, para a sociedade se apropriar do que a Universidade faz, de como usa os recursos.

O senhor atualmente também integra alguma representação na educação a nível do Norte/Nordeste ou Brasil, como conselhos etc.. Caso sim, qual a importância para Paraíba ter um representante desta instituição com esse tipo de atuação externa?

As instituições públicas se uniram este ano em torno do Fórum de Reitores, e eu sou um dos principais entusiastas. Somos quatro Instituições de Ensino Superior que, apesar de vizinhas, dialogam pouco institucionalmente. Com essa articulação, vamos pensar em conjunto as políticas que podem potencializar nossa capacidade de ajuda, de apoio, políticas de desenvolvimento do Estado, como nos planos de expansão, para que os projetos de uma não se sobreponham aos de outra e, assim, evitar que haja desperdícios de investimentos públicos. O Fórum discute políticas de investimento, de expansão, de intercâmbio e mobilidade interna, aprofundamento de convênios e parceiras entre as instituições. Tudo isso vai ajudar muito todas as IES. Combinamos também de nos unir na busca de recursos e já conseguimos nos reunir com deputados paraibanos. Nessa reunião ficou definido que, prioritariamente, a cada ano, quatro deputados e senadores irão destinar emendas para as instituições paraibanas.

Como funciona a assistência estudantil financeira oferecida à classe estudantil da UEPB? O como ela atuou esse ano, houve algum momento de crise?

Com relação à assistência estudantil fizemos um esforço grande para não cortar nada do que vinha sendo feito. Temos muitas políticas de apoio estudantil, mas que atingem apenas cerca de 10% do universo total de alunos. São bolsas moradia, manutenção, transporte, alimentação, monitorias, residência, deslocamento, PIBID, iniciação cientifica. Elas atingem um número pequeno do universo de estudantes como um todo, que envolve mais de 22 mil alunos. As bolsas meritocráticas, que são de pesquisa, ensino, monitoria, extensão, de mobilidade nacional e internacional, que são de mérito acadêmico, não têm cotas. Ao entrarmos no Sisu, conseguimos recursos externos do MEC que estimulam as universidades a aderirem ao Enem como processo seletivo e oferecem auxílio financeiro que deve ser revertido em políticas para os estudantes. Fizemos isso para não prejudicar a assistência estudantil. Em 2013 conseguimos R$ 1,5 milhão e para 2014 já temos algo próximo de R$ 1,7 milhão. Esse recurso foi todo revertido para atividades de apoio aos estudantes, às bolsas. Por isso não reduzimos. Na verdade, ampliamos e estamos em via de conseguirmos mais, como um ônibus estudantil para transporte de estudantes. Mas em termos de viagens para eventos reduzimos drasticamente.

O ano de 2013 está se encerrando com uma grande conquista para a UEPB, que foi a assinatura dos convênios com o Ministério da Saúde para a construção de uma fábrica de equipamentos médico-hospitalares na Instituição. Podemos dizer que a UEPB entra no mapa das instituições com crédito e confiança no campo científico e tecnológico?

Fizemos um convênio para investir R$ 17 milhões na Universidade para termos uma fábrica de equipamentos médico-hospitalares, que é algo inédito. Só na construção teremos esses R$ 17 milhões do Ministério da Saúde e teremos mais, com uma aplicação de recursos na ordem de R$ 130 milhões em investimentos na fábrica, entre geração de emprego e transferência de tecnologia. A fábrica vai ser um fator fantástico de desenvolvimento para o Estado. Vai ser fator de desenvolvimento estruturante em Campina Grande e que daqui vai projetar muita coisa importante da cidade para fora. Vamos fazer equipamentos para vender ao Ministério da Saúde. A UEPB não vai entrar no mercado para disputar o setor privado. É um convênio de uma política de plano de desenvolvimento produtivo, que envolve várias instituições de pesquisa. Vai fazer o Estado brasileiro economizar milhões. Vamos gerar conhecimento, riqueza para a região, emprego. Isso é fundamental.

Fale um pouco dos demais investimentos feitos até agora na instituição, detalhando ações realizadas e em andamento e recursos utilizados.

Tivemos que rever praticamente tudo do que tínhamos pensando em termos de projeto político, de quando apresentamos a candidatura para gerir a Universidade. Nos foram impostos limites e estamos buscando superar. Muito do que pensávamos não conseguimos fazer ainda e isso nos frustra um pouco. Tivemos que decidir sobre prioridades e isso é sempre um problema de ordem política, é gestão de risco permanentemente. Quando você precisa tomar algumas decisões em um cenário de crise como o nosso, às vezes as decisões desagradam. Antes a gente sempre realizava eventos na UEPB, com palestrantes e pesquisadores de fora, gerava intercâmbio, que é riqueza para a Universidade, mas em alguns aspectos fizemos cortes de 70% e isso reduz a atividade da Universidade, que é o pior. Então temos demandas enormes de infraestrutura, de laboratórios, de espaços físicos, que não tem como resolver imediatamente e precisam de planejamento. Temos ido atrás de recursos externos, emendas de bancadas parlamentares, entre outros meios de conquistar condições de investimentos.

O que está sendo preparado de investimentos e melhorias em todas as áreas de um modo geral na instituição para o futuro? Existem ainda algum tipo de investimento na valorização dos servidores?

No primeiro ano de gestão, mesmo eu estando integrado à vida da Universidade, mesmo tendo sido auxiliar da gestão anterior, tudo muda. Continuar um trabalho, uma linha de atuação, não significa repetir. Tenho trabalhado no sentido de mostrar às pessoas que o conjunto tem que pensar, que não é o reitor que deve ficar dizendo o que tem que mudar. Em cada setor, em cada lugar, em cada frente de ação as pessoas têm que buscar a renovação, o que pode fazer para melhorar, trazer ideias, tomar iniciativas.  A gente tá fechando o ano com algumas coisas boas, como os investimentos que conseguimos recentemente com o convênio com o Ministério da Saúde, mas que foram resultado de um ano de busca, de peleja, de bater em uma porta e outra. Conseguimos fechar com a CEF o convênio para a pista de atletismo de Educação Física, que se arrasta desde 2011; fechamos o projeto do Campus de Monteiro para entregar ao governador e ele iniciar em 2014 a construção do Campus; e algumas outras obras que são importantes. Temos uma preocupação muito grande, que é infraestrutura. A Universidade precisa ser dotada de uma infraestrutura mais adequada para suas atividades. Capital humano temos praticamente constituído, mas sem ter infraestrutura para as pessoas desenvolverem suas atividades cria uma frustração. A minha expectativa é de que o aprendizado de 2013 seja válido. A Universidade chegou ao limite da contenção, de gastos, de uso de recursos, para baixo não podemos descer mais. Precisamos agora, e essa é minha expectativa, de que a gente comece uma retomada de crescimento. Não podemos nos acomodar com a crise, que é muito ruim.

Como funciona o custeio por parte do Governo Estadual por meio da autonomia dada à instituição? 

Nosso parceiro principal tem que ser o Governo do Estado, o Estado da Paraíba, porque a Universidade não esta a serviço do governo, mas do Estado. Logicamente o ideal seria a Universidade se aproximar dos planos de governo, sintonizar com os planos que são de interesse geral da população. Não é que a Universidade seja um apêndice das políticas do governo, mas ela pode executar políticas, planos e projetos e contribuir para a formulação de projetos de capacitação. Temos feito isso sistematicamente, mas isso é apenas parte do trabalho. A Universidade é um laboratório para pesquisa e sua maior riqueza é a capacidade humana. O que tem que ser mais explorado nela é a capacidade que seus profissionais têm para entender o Estado, para entender as dinâmicas e a partir daí ajudar a formular políticas públicas. O que não pode é mudar governo e a Universidade ter que se adequar a um governo, porque daí muda o governo e vem nova adequação. Isso não pode. A Universidade deve estar acima de governos.  Mas é sempre muito comum o governo querer controlar a Universidade. O sentido de autonomia da Universidade é além do que ter o direito de ter um dinheiro e usar esse dinheiro. A autonomia é capacidade de pensar e construir suas políticas. Tenho mantido um diálogo muito cordial com todos os setores do governo e a grande expectativa que eu tenho é no sentido de convencer, de mostrar a importância da u sensibilizar o governo como um todo para a sua importância, mostrar que ela é uma fonte inesgotável de riqueza para o povo do Estado, que ajuda a impulsionar o desenvolvimento e para isso precisa ter recursos, receber investimentos. Estamos ainda em um processo de retirada de recursos. Nos últimos três anos, a cada ano temos encolhido no investimento do Estado na Universidade. Seus investimentos básicos – de pessoal e custeio – e aqueles investimentos de reformas, equipamentos, insumos, laboratórios, não têm financiamento externo para eles. Tudo isso é recurso da fonte do Estado. Os recursos conquistados por pesquisadores, em editais de financiamento de pesquisa são recursos para investimentos em áreas específicas.

O Campus Avançado é um projeto ousado, mas polêmico também porque muitas pessoas não concordam que se deve investir em presos. O senhor já havia falado que a Universidade também tem a função de humanizar. O senhor acha que a Universidade está dando um exemplo que pode revolucionar o sistema prisional brasileiro?

Sim. A estrutura que funciona lá ainda é muito incipiente para o que se pode desenvolver dentro do presídio paraibano. Ele todo foi construído pelos apenados que, no trabalho, ajudaram a reduzir suas penas e ganharam algum dinheiro. Não é só um processo de ressocialização. Essa ideia agrega um conjunto de ações. Podemos de fato, com esse trabalho, criar expectativas nas pessoas de que elas terão uma chance fora do presídio. Não é uma ação de caridade. O apenado um dia vai sair do presídio. Há um limite de cumprimento de pena em regime fechado. Então, já que ele vai voltar, vamos tentar criar uma expectativa de que ele volte para reconstruir sua vida em outro patamar. Temos que ver o ser humano com sua capacidade de mudar. A ideia é a Universidade fazer um trabalho no presídio na busca de humanizar as pessoas que ali estão, se envolvendo com estudo, com capacitação, para ela ver que é capaz de agir diferentemente de como agiu que a fez chegar até lá. Na UEPB temos muitos exemplos, bons exemplos, de servidores que chegaram no sistema de albergue e que deram certo, que se reintegraram na sociedade, que se desenvolveram.

Algo mais a acrescentar aos leitores do Paraíba Total?

Outro ponto que gostaria de ressaltar para finalizar é que no início da minha gestão anunciamos a criação de um programa social com a proposta de levar a UEPB para toda a Paraíba, nos moldes do Projeto Rondon. Mas, essa é uma das maiores frustrações no campo acadêmico para mim, como gestor, porque apostei muito alto nessa ideia, que vem dando certo em muitas universidades pelo Brasil. Tivemos uma greve de três meses e ela alterou o calendário escolar totalmente. Pretendíamos em julho fazer um piloto em três cidades paraibanas para a primeira experiência. Equipes de 14 estudantes e dois professores seriam distribuídos para um trabalho social nas cidades, parecido com o Universidade Solidária ou o projeto Rondon e outros projetos de intervenção desse tipo em todas as áreas, mas o calendário escolar mudou e o projeto teve que ser modificado. Tentamos ver essa possibilidade para janeiro, mas estamos com o calendário imprensado. Mas a proposta esta de pé. Vamos abrir edital para as prefeituras que quiserem fazer parte deste projeto e tentar fazer com que no meio do ano que vem já façamos a experiência de 15 dias em algumas cidades e no começo de 2015 potencializarmos.