“Temos de atrair empreendimentos que se relacionem com nossa base empresarial e fortaleça as cadeias produtivas em TIC”
16 de setembro de 2013
A Paraíba, ao longo dos anos, tem se consolidado no setor de TIC (Tecnologia
da Informação e Comunicação) e marcado presença, cada vez mais, no cenário
mundial do segmento. O destaque é Campina Grande, que concentra uma centena de
empresas, emprega mais de mil profissionais e é a cidade onde há mais
PHds no Brasil, proporcionalmente. Campina foi ainda a primeira cidade do
Nordeste a ter um computador e a quarta do País a contar com um curso de tecnólogo
em Processamento de Dados. O setor alavancou para mais de 40 países as
exportações de software e hardware, que vão das mais simples recicladoras de cartuchos
até ao bancos de dados de alta complexidade.
Para analisar o cenário atual deste segmento tão robusto, o
Paraíba Total conversou com a diretora
geral do Parque Tecnológico da Paraíba, Francilene Garcia,
que também é presidente da Anprotec e teve várias publicações técnicas em eventos de referência no
país e no exterior. “Vários
foram os avanços nos últimos anos, em parte, por uma oferta mais qualificada de
fomento aos diferentes estágios de desenvolvimento de uma startup, em parte por
se perceber uma maior demanda do mercado por serviços e produtos mais
qualificados”, disse a diretora, que atualmente ainda acumula a função de
secretária de Ciência e Tecnologia do Estado.
Na entrevista que segue, Francilene aponta os gargalos do setor,
como a dificuldade de reter talentos na região, a formação em gestão de negócios e atração de
empreendimentos ancoras que se relacionem com a base empresarial para fortalecer
algumas cadeias produtivas de interesse do setor.
A
senhora é referência e em gestão no setor de TIC. Tendo estudado na China e
atuando agora frente à Anprotec, uma entidade nacional, como avalia o
comportamento do segmento na Paraíba. Estamos bem posicionados em relação ao
restante do país e do mundo?
Uma marca forte da Paraíba
ainda é a sua base científica e tecnológica. Temos excelentes cursos de
graduação e pós-graduação, laboratórios de P&D desenvolvendo projetos
estratégicos para empresas nacionais e internacionais. A nossa base empresarial
vem se instalando no entorno destas instituições, ocupando a mão de obra
qualificada, desenvolvendo soluções inovadoras para o mercado, e articulando
parcerias relevantes para o seu crescimento – elementos essenciais para um bom
posicionamento na região, no país e internacionalmente. No entanto,
considerando o porte destas empresas – a maioria fatura abaixo de 3,6 milhões
ao ano – ainda temos muito a avançar – em especial na consolidação de verticais,
como saúde, varejo, e-gov etc, no ajuste de legislações que facilitem a chegada
ao mercado e na atração de capital empreendedor.
Como
é, no Brasil e na Paraíba, o movimento do mercado das empresas incubadas, que
começa com os nichos, as startups, e atinge os mercados nacionais e o internacional?
Elas têm conseguido ser competitiva e realmente inovadoras?
No Brasil, em todas as suas
regiões e Estados, o movimento em apoio ao empreendedorismo inovador é pujante
e vem contribuindo para a construção de novas rotas de desenvolvimento
regional, em sinergia com vocações locais. Os mecanismos de parques e incubadoras
são os responsáveis por prospectar, selecionar e acompanhar a consolidação de
empreendimentos desde a sua gênesis até que se posicionem no mercado (local e
internacional). Tais mecanismos entregam ao mercado empresas mais competitivas
e melhor posicionadas para lidarem com os atuais desafios – muitas delas são
dirigidas por jovens empreendedores com imenso potencial criativo e em busca de
novos modelos de interação com a sociedade. No Estado da Paraíba, pioneiro
neste tipo de iniciativa, temos a Incubadora Tecnológica de Campina Grande
(ITCG), criada e operada pela Fundação PaqTcPB, cuja atuação já graduou mais de
80 empreendimentos. Vários foram os avanços nos últimos anos, em parte, por uma
oferta mais qualificada de fomento aos diferentes estágios de desenvolvimento
de uma startup, em parte por se perceber uma maior demanda do mercado por
serviços e produtos mais qualificados. Um desafio ainda é a formação em gestão
de negócios – disciplina pouco disseminada nas grades de formação típicas.
Aliás,
as micro e pequenas têm conseguido essa inovação, diante deste cenário de
desafios nacionais, como falta de recursos, de educação e de políticas públicas
ainda insuficientes?
Os avanços no âmbito das
políticas públicas nos últimos anos foram muito relevantes. Inicialmente a Lei
de Inovação, em 2005, seguida pela Subvenção Econômica, em 2006, ambiente legal
favorável ao surgimento das startups. A subvenção econômica introduziu fomento
às startups favorecendo ao desenvolvimento de novas tecnologias – atividades
que envolvem significativo risco tecnológico associado a novas oportunidades de
mercado. Ainda precisamos avançar na formação e atração de capital de risco –
um capital importante no momento da chegada da startup ao mercado – em geral
muito competitivo. No campo da educação, temos de investir na formação
empreendedora desde muito cedo, oferecendo disciplinas em toda a grade de
formação de cursos de graduação.
O
polo tecnológico de Campina Grande é reconhecido em todo o mundo. O que faz da
cidade ser referência nacional e que contribuição as instituições
governamentais poderiam dar para fortalecer o setor?
Campina Grande é sede de um
cluster do conhecimento – que contempla a presença de centros de formação e de
pesquisa reconhecidos por sua excelência. Alguns números atuais reforçam a
importante base científica: 30 mil alunos de graduação (matriculados em três
universidades públicas e duas privadas); 1,8 mil alunos de pós-graduação
engajados em 58 cursos; mais de mil alunos engajados em cursos técnicos – um phd
para cada 669 habitantes. Esta marca vem sendo fomentada desde os anos 50 e foi
a principal responsável pelas referências constantes à Campina Grande como polo
de tecnologia. A forte base educacional e de pesquisa foi, aos poucos, em face à
uma cultura empreendedora, promovendo o surgimento de empresas com DNA focado
na apropriação de conhecimento. As conexões com o mercado, estabelecidas pelas
bases acadêmica e empresarial, trazem ainda elementos atrativos aos
empreendimentos âncoras que escolhe Campina Grande para implantar unidades de
negócios diferenciadas. É ainda de bastante relevância destacar o papel dos governos
locais e federal que complementam o arranjo e movimentam os avanços a cada ano.
A
Fundação PaqTcPB, desde a sua criação em 1984, vem buscando promover o
empreendedorismo inovador no Estado. Qual tem sido a atuação do Parque para
desenvolver o segmento da TI?
Desde a sua criação, a Funda
PaqTcPB apoia o segmento de TI em nosso Estado – em sinergia com vocação local de nossas
instituições acadêmicas e as tendências de mercado. Neste sentido, os
empreendimentos de TI prospectados e
selecionados recebem apoio na forma de capacitação, assessoramento e captação
de fomento em vários estágios de seu desenvolvimento. Cerca de 50% dos
empreendimentos já graduados pela ITCG pertencem a este segmento. Não
esqueçamos que a transversalidade da TI facilita a sua inserção em várias
outras cadeias produtivas em desataque na Paraíba.
Há
grande expectativa em torno do CITTA. Como será e no que vai desenvolver o
setor no Estado?
O CITTA chega para promover
a inovação em nossa região, através da oferta de serviços diferenciados e que
favoreçam a uma inteligência competitiva nos setores onde ha alinhamento de
oferta e demanda de novas tecnologias. Além desta ambiência diferenciada para
articulação de projetos inovadores em áreas estratégicas, haverá a oferta de
espaços físicos para implantação de laboratórios e empresas. A articulação
entre governos, academia e empresas é fundamental para este ambiente funcionar
e gerar resultados de impacto para a região.
Reter
talentos é um desafio. O que Campina Grande tem feito para isso e quais seriam
os demais gargalos do setor na Paraíba, na avaliação da senhora?
Reter talentos e o maior
desafio para polos de formação como Campina Grande. Neste sentido, temos alguns
desafios a superar: nossa base empresarial ainda contrata pouco graduados e pós
graduados, temos de incentivar mais a cultura empreendedora nos laboratórios de
pesquisa e ambientes de formação; estamos distante do mercado, temos de criar
mecanismos baseados em novas gerações de comunicação para mitigar esta
dificuldade; baixa presença de grandes grupos empresariais em nossa região,
temos de atrair empreendimentos ancoras que se relacionem com nossa base
empresarial e fortaleça algumas cadeias produtivas de interesse.
Quais
são e como são procedidas as políticas públicas em relação aos parques
tecnológicos do País? Como é o comportamento desses ambientes inovadores de
cada um deles?
Nestes ambientes, temos uma
trajetória relativamente recente de estruturação de politicas publicas e
instrumentos de fomento. Durante muito tempo tivemos de investir na melhoria do
ensino superior e das infraestruturas de pesquisa. No meados dos anos 80,
começamos a nos ocupar com iniciativas empreendedoras, em especial, aquelas que
se apropriam de conhecimento gerado para um atendimento mais sustentável e
inovador junto ao mercado. Desta forma, vários ciclos de fomento foram
construídos, envolvendo a subvenção econômica as empresas inovadoras,
instrumentos de credito e mais recentemente o capital de risco. Os parques tecnológicos
buscam articular, prospectar, apoiar e acompanhar a movimentação das empresas e
parceiros, buscando um melhor uso destes ciclos de fomento. Em tais ambientes,
três elementos são fundamentais: educação de qualidade, infraestrutura para
P&D e recursos para os diferentes estágios de crescimento das empresas.
Quais
contribuições que as incubadoras podem dar para o desenvolvimento dos
municípios nas áreas de C&TI?
As incubadoras apoiam o
surgimento e o crescimento de startups, empresas que buscam ser diferentes e
mais competitivas pela via da inovação em seu nicho de atuação. Trata-se de uma
nova geração de empresas que podem impactar no desenvolvimento de regiões e
cidades.
De
que forma a Anprotec atua na motivação do empreendedorismo inovador, integrando
visões e instituições?
A Anprotec e a entidade
associativa de parques e Incubadoras e como tal ela articula e acompanha a
implementação de politicas publicas em apoio a estes ambientes e as empresas,
integrando e compartilhando visões e expectativas dos parceiros em cada região.
As experiências acumuladas são diversas e servem de referencia para novos
projetos e para avaliação dos impactos gerados.