“A contratação de médicos estrangeiros sem critérios deixa em risco a qualidade da assistência aos pacientes”
17 de junho de 2013
Um assunto que não tem saído da pauta da saúde nacional é a
contratação de médicos estrangeiros para atuarem no Brasil. A polêmica começou
quando o Ministério da Saúde abordou a situação
de que faltam médicos em diversas localidades do país. Segundo dados do governo
federal, o Brasil só tem apenas 1,9 médicos por mil habitantes, enquanto a
Argentina, por exemplo, tem 3,2 médicos por mil habitantes.Para os profissionais e estudantes de
Medicina, por sua vez, dizem que, ao insistir na
importação de médicos sem revalidação de diplomas, o Governo desrespeita a
legislação e coloca em risco a qualidade da assistência oferecida à população.
Várias manifestações já foram realizadas em todo o país.
Na Paraíba, a
Unimed Norte/Nordeste se posiciona contrariamente à decisão federal. “A questão não reside
na falta de profissionais, mas de incentivo, ou melhor, de uma política de
valorização das profissões da área de saúde, que inclui médicos, enfermeiros,
fisioterapeutas, dentre outras”, apontou o presidente da instituição, Reginaldo
Tavares.
Médico, ex-presidente da Unimed João Pessoa, ex-vice-prefeito
de João Pessoa e ex-secretário de Estado da Saúde da Paraíba, Reginaldo Tavares,
em entrevista ao Paraíba Total, toca na polêmica e aborda outros assuntos, como
o crescimento da classe média na contratação dos planos de saúde e conta de que
forma a Unimed, líder no segmento, tem se comportado no mercado frente aos novos
concorrentes. “Neste
sentido, no campo mercadológico, um dos desafios é a conquista dessa importante
fatia de consumidores, a partir da oferta de produtos compatíveis às suas
expectativas, preservando e até ampliando a qualidade dos serviços já prestados
aos outros agrupamentos sociais”, disse.
O senhor já presidiu a Unimed João Pessoa, já passou pela Unicred e
pela Aliança Corporativa da Unimed nacional. Em sua vasta experiência neste
segmento, como o senhor avalia o mercado de operadoras de saúde, de um modo
geral, na Paraíba e no Brasil?
O Brasil é um dos poucos países a oferecer à
sua população o mais completo e ousado modelo de saúde do mundo, constituído
por um sistema público, financiado pelo Estado por intermédio do Sistema Único
de Saúde (SUS), e por um sistema privado, denominado de Saúde Suplementar,
cujos financiadores são as operadoras de planos de assistência médica. Assim como o SUS, a Saúde Suplementar tem
passado por grandes transformações advindas de um processo regulamentário, que
teve inicio no final da década de 90 a partir do novo marco regulatório do
setor, formado pela Lei nº 9.656, de 3 de junho de 1998, em conjunto com a
Medida Provisória 2.177-44, de 24 de agosto de 2001 (originalmente MP 1.665, de
5 de junho de 1988), e pela Lei nº 9.961, de 20 de janeiro de 2000, que criou a
Agência Nacional de Saúde Suplementar. Isso permitiu a passagem de um ambiente
marcado pela livre atuação das empresas para um outro pontuado por novas regras
relativas tanto à assistência à saúde quanto a aspectos econômico-financeiros
dos planos e seguros privados de assistência à saúde. Hoje o cenário é de forte
competição entre as operadoras, isso sem esquecer do sufocante processo
regulatório imposto pela ANS. Por outro lado, o mercado projeta novas
perspectivas, a considerar o crescimento de um mercado que ainda pode avançar
mais, sobretudo pela ascensão financeira de uma nova classe média brasileira.
Neste sentido, no campo mercadológico, um dos desafios é a conquista dessa
importante fatia de consumidores, a partir da oferta de produtos compatíveis às
suas expectativas, preservando e até ampliando a qualidade dos serviços já
prestados aos outros agrupamentos sociais. Contudo, precisamos também destacar
os muitos obstáculos impostos às operadoras de planos de saúde, a começar pelas
severas exigências dos agentes da regulamentação da saúde suplementar, da
ganância tributária, da liberalidade do judiciário nos direitos do consumidor,
além das indiferenças governamentais com o cooperativismo, atividade que
militamos desde a nossa origem.
O senhor atualmente é presidente da Confederação
das Unimeds do Norte/Nordeste. Qual a importância de João Pessoa ter um
representante desta instituição que abrande duas regiões, e diversos estados da
federação e mais de 24 mil médicos?
Somos responsáveis pelo fortalecimento do
Sistema Unimed nas regiões Norte e Nordeste, através da prestação de serviços,
da representatividade institucional e do estímulo à cooperação e à integração.
A atuação que vai do Acre à Bahia e percorre todo o Brasil faz ecoar a voz
dessas duas regiões nas grandes discussões nacionais. Uma participação de quase
quatro décadas, inclusive, uma delas na presidência do Sistema Nacional, cargo
ao qual ocupamos com muito orgulho. Os laços da Unimed Norte/Nordeste com João
Pessoa são imensuráveis, especialmente porque é aqui que abrigamos nossa sede
institucional.
Qual a missão e os maiores desafios da Unimed
Norte/Nordeste?
A defesa da unidade regional e compreender
que a sua construção é fruto da união de vários pedacinhos das regiões Norte e
Nordeste é certamente nossa maior missão. Um dos grandes desafios da Unimed
Norte/Nordeste e do próprio Sistema Unimed é harmonizar o espírito e a doutrina
cooperativista com as atuais regras impostas por um mercado cada vez mais voraz
e competitivo. Neste aspecto, sem perder de vista ideais que há muito conservamos,
precisamos delinear estratégias, criar instrumentos e implementar iniciativas
voltadas à própria sobrevivência, sem ferir, claro, todo um postulado
principiológico construído ao longo dessas quatro décadas. Precisamos avançar
na definição das estratégias mercadológicas, consolidar nossas inovações
tecnológicas, aprimorar a gestão de nossas cooperativas, impulsionar a presença
de nossos produtos e serviços no mercado nacional e ampliar a atuação
institucional, sobretudo no suporte a nossas filiadas. Estamos desenvolvendo
uma série de iniciativas mercadológicas voltadas ao estabelecimento da presença
maciça de nossos produtos e serviços, a começar pelo plano estratégico de
marketing digital que iniciaremos até o começo de junho. Criamos um núcleo de
suporte e atenção às operadoras de planos de saúde, tendo a missão de apoiar
institucionalmente nossas filiadas, oferecendo todo o suporte necessário frente
às exigências da ANS e da própria legislação, prevenindo e promovendo a gestão
eficiente dos processos e dos ativos. Estamos consolidando nossa operadora de
planos de saúde, que comercializa produtos corporativos, incursionando nas mais
diferentes regiões, atuando em todo o Brasil e propiciando mercado para os
nossos cooperados e nossas cooperativas, dentro de um espírito de união
recíproca, ampliando o negócio Unimed nas regiões Norte e Nordeste. Além de uma
série de outras iniciativas que estão em curso e em pleno andamento.
Quais os principais avanços que o senhor poderia
apontar em relação à sua gestão na Unimed N/NE?
Ninguém é bom juiz em causa própria, contudo,
em nome da verdade e da própria história, precisamos pontuar algumas questões
ao longo de uma trajetória de dedicação a medicina, ao cooperativismo e ao
Sistema Unimed. Participamos ativamente do processo de construção e
desenvolvimento da Unimed, primeiramente no Nordeste e depois no Norte.
Saltamos de três cooperativas, quando do inicio na década de 1970, para 85
unidades distribuídas do Acre à Bahia. Fomos precursores do Intercâmbio, um
diferencial da Unimed e que disponibiliza atendimento em praticamente todo o
território, em um país de dimensões continentais como o Brasil. Idealizamos e
implantamos um centro regional de tecnologia que criou e desenvolveu a solução
Infomed, um produto voltado para o suporte e o aperfeiçoamento da gestão das
operadoras de planos de saúde. Com quase duas décadas de existência, a solução
Infomed é a mais completa ferramenta para o auxílio operacional das Unimeds, um
conjunto softwares produzidos e pensados para as nossas cooperativas médicas.
Protagonizamos a remoção aeromédica no Brasil a partir do Univida Air.
Instituímos os fundos de suporte às Unimeds e, mais recentemente, após um
redesenho que promovemos em nosso layout organizacional, preconizamos o modelo
das chamadas Unidades Estratégicas de Negócios, compreendidas a partir de um
complexo empresarial cooperativo, constituído pelas Unimeds das duas regiões,
além de diversas empresas criadas para oferecer suporte a elas, por meio de
ações e serviços desenvolvidos para melhorar ainda mais o atendimento a
clientes/beneficiários, ampliando os resultados e oportunizando novos negócios.
Hoje contamos com 18 hospitais próprios, 1.098 leitos hospitalares, 396
hospitais referenciados e 18.920 leitos referenciados. A rede do Sistema Unimed
Norte/Nordeste produz 10,8 milhões de consultas e 25,9 milhões de exames
laboratoriais por ano. São gerados mais de 9 mil empregos diretos e 58 mil
indiretos. Toda essa história, graças ao apoio incondicional dos demais companheiros
cooperados, dirigentes e líderes cooperativistas das Unimeds, bem como daqueles
que por aqui já passaram, dentre eles, Alberto Urquiza Wanderley e Gley
Nogueira Gurjão, conseguimos construir uma trajetória de tantas conquistas.
Médicos reclamam que os valores pagos pela Unimed estão muito
baixos e defasados. Como funciona a dinâmica de relacionamento entre a
cooperativa e seus cooperados?
O cooperativismo é o caminho para democracia
e paz. Acreditamos que é a melhor opção para uma sociedade permeada por
injustiças. Pregamos igualdade em um mundo desigual. Ninguém é dono no
cooperativismo, ou melhor, todos são os donos. Esse é o modelo preconizado pelo
Sistema Unimed desde a sua gênese. Quando tivemos o desprendimento de
constituir a união de médicos, tínhamos em mente um modelo que provesse
oportunidades para todos, consoante ideais de ajuda mútua e ação em conjunto,
tendo em vista a busca do resultado útil e comum a todos. De lá para cá muita
coisa mudou e isso reconhecemos. A sociedade mudou, o mundo mudou e o mercado
mais ainda, contudo, diferentemente de outras operadoras, a Unimed é diferente,
pois sua essência é literalmente humana. As Unimeds são empresas formadas e
dirigidas por médicos, que têm como compromisso primeiro o respeito à vida. E
isso faz muita diferença. Reconhecemos que deveríamos pagar melhor, contudo, em
comparação às demais operadoras, retribuímos muito melhor nosso cooperado, que
não é um simples funcionário ou colaborador, mas o dono desse grande sistema.
O setor de saúde suplementar é muito concorrido,
agressivo e profissionalizado. Que armas a cooperativa adotou para enfrentar
seus concorrentes?
Melhorar a gestão, ampliar os serviços e
avançar na operacionalização dos negócios são as vertentes que temos adotado
para buscar sempre o melhor e a própria excelência. O mercado é muito
competitivo, as exigências da ANS são enormes e as necessidades de nossos
clientes são maiores ainda, o que só aumenta o desafio de estar sempre na
frente. Ser eficiente é cumprir metas com o menor desperdício de recursos, isto
é, fazer o melhor uso possível dos recursos financeiros, tempo, materiais e
pessoas. É executar uma simples tarefa do nosso cotidiano, fazendo o correto
nas horas certas, como foi imaginado ou solicitado, na primeira vez, com o
menor gasto e no menor tempo possível. Para que assim aconteça, necessitamos
escolher a melhor forma de fazer, ou seja, planejar bem, escolher a matéria
prima adequada, disponibilizar os recursos financeiros e a melhor tecnologia
aplicável, escolher as pessoas certas, com o conhecimento, habilidades e
atitudes que a tarefa requisita, definir os objetivos desejados e como mensurar
o resultado final e os resultados de cada etapa da execução, para exercer o
controle e, se necessário, fazer os ajustes, ou seja, organizar bem. É isso que
acreditamos, é isso que defendemos para que possamos continuar liderando o
mercado, atendendo e respondendo com qualidade nossos clientes, mantendo o
padrão da marca Unimed.
Quais são as perspectivas para a saúde suplementar
nos próximos anos e como a Unimed N/NE se projeta nesse contexto?
O Brasil deve gastar mais com saúde nos
próximos anos e isso se deve a inúmeros fatores, como o aumento da expectativa
de vida da população e a melhoria do padrão de vida da população, com reflexos
para saúde pública e a suplementar. No caso específico da saúde suplementar, a
procura por planos de saúde deverá ser ampliada com o incremento dessa nova
classe média. Somos líderes absolutos de
mercado e isso aumenta a responsabilidade, pois temos o dever de nos apresentar
para esses novos consumidores, oferecendo produtos e serviços na medida de suas
necessidades. Também não podemos arrefecer as estratégias voltadas aos demais
segmentos sociais. Temos que ter um olhar especial para o mercado corporativo.
Para tanto, precisamos inovar em produtos diferenciados, conquistando a
simpatia de empresas que buscam planos de saúde para seus funcionários ou
colaboradores. Temos muitos diferenciais em relação aos outros, a começar por
uma rede de serviços, distribuídos por clínicas, hospitais, laboratórios,
farmácias, além de muitos outros equipamentos, que, simplesmente, cobrem o país
inteiro. O Sistema ainda precisa ampliar os pilares que dão sustentação à
marca, o que inclui o trabalho cooperativo, a qualidade da medicina que é
praticada, a satisfação dos clientes e as ações sociais. O caminho da
sustentabilidade é outra importante vertente que o Sistema Unimed precisa e
deve “abraçar”, especialmente por se tratar de um tema estratégico importante e
gerador não só de valor econômico, mas, principalmente, na imagem e reputação
da empresa, refletindo no sucesso a longo prazo. A construção de parcerias
corporativas sob o pálio de uma aliança cooperativista é o caminho que
visualizamos para o futuro do Sistema Unimed, notadamente porque entendemos que
as organizações precisam se transformar para competir no mercado atual e serem
capazes de construir e gerenciar ativos físicos, sejam eles intangíveis ou não.
Portanto, compreender tudo isso é o primeiro passo na direção de um caminho
seguro, plenamente sustentável e absolutamente competitivo para o Sistema
Unimed.
Especialistas afirmam que este mercado mudou muito
desde o final dos anos 90, principalmente por causa da entrada no cenário da
Agência Nacional de Saúde Suplementar. O senhor concorda? Houve um custo pesado
pelas operadoras?
Assim como o SUS, a Saúde Suplementar tem
passado por grandes transformações advindas de um processo regulamentário, que
teve inicio no final da década de 90 a partir do novo marco regulatório do
setor, formado pela Lei nº 9.656, de 3 de junho de 1998, em conjunto com a
Medida Provisória 2.177-44, de 24 de agosto de 2001 (originalmente MP 1.665, de
5 de junho de 1988), e pela Lei nº 9.961, de 20 de janeiro de 2000, que criou a
Agência Nacional de Saúde Suplementar. Isso permitiu a passagem de um ambiente
marcado pela livre atuação das empresas para um outro pontuado por novas regras
relativas tanto à assistência à saúde quanto a aspectos econômico-financeiros
dos planos e seguros privados de assistência à saúde. Um custo pesado, oneroso
e sem a devida reciprocidade dos próprios agentes da regulamentação. E as
distorções não param por aí, uma vez que no nosso caso há uma
desproporcionalidade, considerando que enquanto cooperativas deveríamos ter um
tratamento diferenciado, o que não tem sido respeitado até hoje. Ora, se é
preciso tratar os desiguais na medida de suas desigualdades, as cooperativas
precisam receber um melhor tratamento em virtude de suas próprias
peculiaridades. Neste sentido, é imprescindível a luta por uma tributação mais
justa para as cooperativas. Também é imperiosa uma atuação mais enérgica no
campo da representatividade política, de modo que o Sistema seja mais ouvido e,
consequentemente, ganhe mais espaços no processo que estabelece normas para o
setor de saúde, fazendo com que as nossas especificidades com relação aos
demais atores da medicina privada sejam reconhecidas. Assim sendo, precisamos
lutar para reverter esse cenário injusto, dialogando mais com a ANS, com o
judiciário, com os mais diversos segmentos políticos e com a própria sociedade.
Qual a
sua opinião sobre o debate acerca da contratação de médicos estrangeiros?
A questão é controversa se considerarmos os
argumentos do governo, que diz que faltam médicos no Brasil, o que não é
verdade. Fui gestor da saúde pública, fui vice-prefeito de João Pessoa e sou
médico. Sei que temos problemas sérios não só no sistema público de saúde, mas
no próprio setor privado, contudo, a questão não reside na falta de
profissionais, mas de incentivo, ou melhor, de uma política de valorização das
profissões da área de saúde, que inclui médicos, enfermeiros, fisioterapeutas,
dentre outras. Na área médica, por exemplo, falta uma ação de interiorização do
trabalho desse profissional. Por outro lado, também não podemos descuidar da
qualidade dos serviços e da própria assistência, daí a importância de ampliação
do ensino superior de medica. Acredito na ampliação do ensino superior da
medicina, mas com qualidade e eficiência. Neste sentido, importante se faz a
presença da sociedade através das instâncias de representação nesse debate, a
começar pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e suas respectivas
representações locais. Assim como expôs o CFM, também acredito que a
contratação de médicos estrangeiros sem critérios deixa em risco a qualidade da
assistência aos pacientes, razão pela qual defendo o processo atualmente
vigente de revalidação dos diplomas estrangeiros.