Flávio Augusto: “Estabilidade não existe. Quem busca liberdade está procurando crescer”
Empresário, escritor e fundador da Wise Up avalia desafios do empreendedorismo, fala sobre coragem, preparo técnico, formação de pessoas e expansão de negócios durante o Comunicador de Elite, em João Pessoa
13 de agosto de 2026
Empreender exige disposição para lidar com incertezas, capacidade de tomar decisões mesmo diante do medo e preparo para transformar uma ideia em um negócio que possa ser repetido e ampliado. Para Flávio Augusto da Silva, empresário, escritor e fundador da Wise Up, o crescimento não depende da existência de um cenário perfeito, mas demanda, acima de tudo, a combinação entre visão, coragem, competência e capacidade de formar pessoas.
É assim que o empresário abordou empreendedorismo, expansão de negócios, formação de lideranças, coragem e a ideia de que “estabilidade não existe” durante palestra no último domingo (9), na segunda edição do Comunicador de Elite, um dos maiores eventos de comunicação do país, realizado em João Pessoa.
Em formato de conversa com o público, o empresário respondeu a perguntas sobre sua trajetória, os critérios que utiliza para selecionar empreendedores para mentorias, os caminhos para fazer uma pequena empresa crescer e as condições necessárias para transformar uma operação em uma rede.
O senhor costuma dizer que estabilidade não existe. Mas, olhando para sua história, houve uma estrutura familiar importante para que você pudesse chegar até onde chegou. Como você enxerga essa relação entre estabilidade, apoio e segurança?
Eu recebi estrutura, investimento e apoio da minha família e da minha esposa, mas isso não significa estabilidade. É justamente essa confusão que procuro esclarecer: quando você busca estabilidade, está jogando na defesa, enquanto a liberdade exige crescimento, expansão, prosperidade e disposição para construir um futuro diferente. Até um casamento precisa ser cuidado diariamente, assim como um jardim: se não houver atenção, ele se deteriora. Nada permanece funcionando sozinho.
Quando me preparei para um concurso, minha mãe trabalhou e abriu mão de coisas para financiar minha preparação. Isso foi estrutura e investimento, não estabilidade. A estabilidade é uma promessa que não existe, e colocar o futuro nessa busca pode limitar as possibilidades e gerar frustração. Quem escolhe a liberdade precisa estar disposto a crescer, prosperar, evoluir e fazer a diferença, entendendo que esse processo exige cuidado, movimento e ação constante.
Quando o senhor seleciona pessoas para seus processos de mentoria, o que procura primeiro? Qual é o principal elemento que faz você olhar para alguém e pensar que aquela pessoa pode avançar?
Eu busco pessoas que estão em movimento, que já estão fazendo alguma coisa acontecer dentro de sua área e que demonstram disposição para avançar. Existe uma fase em que a pessoa ainda está parada, procurando uma direção, e isso também é importante, mas não é o perfil que procuro. No processo atual, recebemos milhares de vídeos, quase 400 apenas de médicos, e a seleção é difícil diante da quantidade de pessoas qualificadas. O objetivo é escolher quem já está em movimento e pode aproveitar uma oportunidade de desenvolvimento para avançar ainda mais.
A formação de pessoas é mais importante do que o próprio conhecimento técnico do dono sobre o produto?
A formação de gerentes é a chave para quem quer vencer e expandir um negócio. Você não precisa necessariamente dominar a atividade principal da empresa, mas precisa saber formar e liderar pessoas. O produto precisa ser bom, claro, mas a base da expansão é a gestão de pessoas, porque ninguém consegue estar fisicamente em vários lugares ao mesmo tempo. Quando você forma pessoas capazes de manter uma boa performance ao longo do tempo, consegue multiplicar sua presença, criar escala e fazer o negócio crescer de forma consistente.
O senhor também falou sobre inteligência artificial e preparação das empresas para essa tecnologia. O que as empresas precisam fazer antes de implementar IA?
Não adianta uma empresa querer implantar inteligência artificial nos seus processos se os dados estão desorganizados. É como ter um carro de luxo e tentar andar com ele no meio da lama. Antes de adotar a tecnologia, é preciso organizar os próprios dados e preparar a estrutura da empresa, como se fosse asfaltar a rua para o carro conseguir passar. A inteligência artificial pode ser muito poderosa, mas sua eficiência depende diretamente da qualidade das informações que alimentam o sistema.
Ao olhar para a sua trajetória, quais foram os principais fatores que permitiram transformar uma ideia em 1995 em um negócio que pudesse crescer e se tornar a Wise Up?
Todo empreendedor precisa de três fatores para começar a enxergar o seu lugar: visão, coragem e competência. A visão é a capacidade de identificar um problema, desenvolver uma solução e criar algo que possa ser vendido. A coragem é necessária para colocar a ideia em prática, mesmo diante do medo e das opiniões de quem tenta proteger você dos riscos. Quando abri a Wise Up, em 1995, coloquei minhas economias em um negócio sem garantia de retorno, assumindo a responsabilidade pela decisão. Por fim, é preciso ter competência, que envolve conhecimento técnico e intensidade de trabalho. Não basta ter uma boa ideia e coragem para executá-la; é preciso trabalhar, errar, corrigir e aprender rapidamente para transformar a visão em resultado.
E como conseguiu tomar essa decisão aos 23 anos, sem ter muito dinheiro?
Eu tinha pouco dinheiro, mas tinha preparo em vendas. Quando meu sócio desistiu de entrar no negócio porque não conseguiu vender o próprio carro, precisei assumir a parte dele e, para colocar o negócio de pé, cheguei a usar o cheque especial, com juros muito altos para aquela época.
Depois abri a segunda unidade com recursos limitados e, na terceira, já não precisava mais recorrer ao cheque especial. Eu tinha 23 anos, quatro anos de experiência em vendas e dominava aquela área, o que me dava segurança para acreditar que conseguiria gerar receita para a empresa. Coragem sem preparo é loucura. Eu também tinha medo, mas o conhecimento que havia adquirido me dava condições para enfrentar esse medo.
Se coragem não é algo que simplesmente aparece, como uma pessoa pode desenvolver coragem?
Existem duas formas principais de desenvolver coragem: ampliar suas referências e aumentar seu nível de preparo. Você precisa conviver com pessoas maiores, mais corajosas e mais avançadas do que você, porque estar sempre na mesa em que é a melhor pessoa limita seu crescimento. É importante buscar referências que desafiem sua visão e façam você pensar: “Se ele pode, eu também posso”. Ao mesmo tempo, quanto mais preparado você está, mais condições tem de enfrentar o medo. O medo faz parte do processo; a diferença está em se acomodar diante dele ou avançar, e o preparo é o que dá segurança para tomar essa decisão.
Então, para você, o medo não é necessariamente um sinal de que a pessoa não deve seguir em frente?
Não. Quando você decide colocar uma ideia em prática, o medo vai aparecer. Empreendo há mais de 30 anos e ainda sei o que é sentir frio na barriga, porque o medo faz parte do processo. O que importa é o que você faz diante dele: pode se acomodar ou se preparar para enfrentá-lo. Não existe uma fórmula ou uma “farmácia da coragem”; você desenvolve coragem ao ampliar suas referências e aumentar seu nível de preparo, porque quanto mais competente e preparado estiver, maior será sua capacidade de lidar com o medo e seguir em frente.
Qual é, então, a combinação que o senhor considera essencial para quem quer empreender?
Eu resumiria em três fatores: visão, coragem e competência. Primeiro, você precisa identificar um problema e enxergar uma oportunidade de solução. Depois, precisa ter coragem para transformar essa visão em realidade e, por fim, desenvolver competência para executar. Isso envolve conhecimento técnico e intensidade de trabalho, porque não basta pensar positivo, ter uma boa ideia ou simplesmente trabalhar muito. É preciso saber onde quer chegar, dominar as ferramentas necessárias e ter intensidade para executar. É essa combinação que transforma uma ideia em um negócio.
Fonte: Vitória Bárbara
