Daniel Fernandes: “Quem deixar para analisar os impactos da Reforma Tributária quando eles chegarem ao caixa poderá descobrir tarde demais”
Com mais de 20 anos de experiência na área, especialista em Controladoria e Perícia Contábil analisa os impactos da transição tributária e os desafios para empresas até 2033
17 de setembro de 2026
A Reforma Tributária já começou a sair do papel e a entrar na rotina das empresas. Em 2026, enquanto o novo modelo passa por testes e adaptações, empresários precisam entender não apenas o que muda na tributação, mas também os reflexos sobre preços, custos, fluxo de caixa e decisões de negócio.
Com mais de 20 anos de experiência na área contábil, Daniel Fernandes de Oliveira acompanha de perto os desafios do setor. Contador e perito contábil judicial, especialista em Controladoria e Perícia Contábil e formado pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), ele também atua à frente da FOUR CONSULT – Perícia e Consultoria Contábil.
Em entrevista ao Paraíba Total, Daniel fala sobre os impactos da Reforma Tributária, os desafios para diferentes setores, as escolhas envolvendo o Simples Nacional, o avanço da Inteligência Artificial na contabilidade e o que as empresas precisam fazer para crescer com mais segurança em um cenário de profundas mudanças.
Estamos em 2026, o ano oficial de início dos testes e da transição prática da Reforma Tributária. Qual tem sido o maior desafio das empresas e dos escritórios de contabilidade neste exato momento?
O maior desafio hoje é transformar uma mudança legislativa muito ampla em decisões práticas dentro das empresas. A Reforma Tributária não significa apenas trocar tributos antigos por CBS e IBS. Ela muda a lógica de formação de preço, aproveitamento de créditos, fluxo de caixa, contratos, sistemas, emissão de documentos fiscais e até a relação entre fornecedores e clientes.
Neste momento, empresas e escritórios precisam trabalhar em duas frentes: continuar atendendo às regras do sistema atual e, ao mesmo tempo, preparar estrutura, tecnologia e planejamento para o novo modelo.
O maior risco é o empresário imaginar que a Reforma é apenas um problema do setor fiscal. Ela envolve compras, vendas, financeiro, contratos, tecnologia, precificação e estratégia empresarial. Por isso, 2026 deve ser encarado como um ano de diagnóstico e preparação. Quem deixar para analisar os impactos quando eles chegarem efetivamente ao caixa poderá descobrir tarde demais que sua margem foi afetada.
Setores de serviços e o comércio tradicional enxergam a unificação dos impostos de maneiras muito diferentes. Quem ganha e quem perde competitividade no mercado atual com o modelo de IVA Dual?
O impacto não será igual para todos os setores. Empresas de comércio, indústria e cadeias com grande volume de insumos tendem a se beneficiar mais da lógica de créditos do IVA, pois possuem maior volume de aquisições que podem gerar créditos tributários.
Já determinados setores de serviços podem enfrentar uma situação mais delicada, principalmente aqueles cuja principal despesa é a folha de pagamento. Uma empresa de consultoria, contabilidade ou advocacia, por exemplo, tem grande parte dos custos relacionada a pessoas, salários e encargos, que não geram o mesmo volume de crédito de uma indústria.
Por isso, não podemos afirmar que a Reforma simplesmente reduz ou aumenta impostos para todos. É preciso analisar a cadeia econômica de cada empresa.
Outro ponto importante é que o crédito tributário passa a ter ainda mais valor comercial. Uma empresa poderá escolher um fornecedor não apenas pelo preço, mas também pela capacidade de gerar crédito tributário para ela. Isso pode alterar a competitividade entre empresas.
Diante desse cenário de transição gradual até 2033, o que os empresários devem fazer imediatamente no planejamento financeiro para evitar perdas de caixa?
A primeira providência é realizar uma simulação tributária, comparando quanto a empresa paga atualmente e quanto poderá pagar no novo sistema, considerando faturamento, compras, despesas, créditos tributários e perfil dos clientes. Também é necessário rever a formação do preço de venda, considerando o impacto dos créditos e débitos de CBS e IBS, além de reforçar o controle do fluxo de caixa e da conciliação tributária.
Outro ponto importante são os contratos de longo prazo. Um contrato iniciado no modelo tributário atual pode terminar em outro cenário, alterando a rentabilidade da operação.
Também recomendo uma revisão dos contratos de longo prazo. Contratos iniciados em um modelo tributário podem terminar em outro, e isso pode alterar significativamente a rentabilidade de uma operação.
Minha recomendação é que o empresário não espere 2033. A transição já está acontecendo e o planejamento precisa começar agora.
O Simples Nacional sofreu modificações importantes quanto ao aproveitamento de créditos. Vale a pena para a micro e pequena empresa continuar no Simples ou migrar de regime se tornou uma estratégia real?
Hoje essa decisão precisa ser muito mais estratégica. O Simples Nacional continuará sendo importante para milhões de empresas, mas, dependendo do perfil do negócio e de seus clientes, será necessário fazer contas.
Uma empresa que vende predominantemente para o consumidor final pode continuar encontrando vantagens no Simples. Já aquela que atua principalmente no mercado B2B precisa analisar com atenção a questão dos créditos tributários, porque o cliente empresarial poderá considerar quanto de crédito aquela aquisição gera.
Assim, a pergunta deixa de ser apenas “quanto vou pagar de imposto?” e passa a ser: “qual regime tributário torna minha empresa mais competitiva dentro da minha cadeia?”
Esse tipo de análise será cada vez mais comum nos próximos anos.
A tecnologia e a Inteligência Artificial avançaram agressivamente. Como o papel do contador se transformou de um “gerador de guias de impostos” para um conselheiro estratégico de negócios?
A Reforma Tributária acelera uma transformação que já estava acontecendo na contabilidade. A tecnologia consegue automatizar lançamentos, conciliações, relatórios e cruzamento de informações, enquanto a Inteligência Artificial amplia ainda mais essa capacidade.
Mas não adianta simplesmente colocar IA em uma empresa que não possui processos bem definidos. A tecnologia potencializa aquilo que já existe. Com organização e informações confiáveis, pode aumentar muito a produtividade; com processos desorganizados, pode apenas acelerar os problemas.
É nesse cenário que o papel do contador muda. O empresário não precisa apenas saber quanto deve pagar de imposto, mas entender seus números, identificar riscos, melhorar a margem e tomar decisões.
Na FOUR CONSULT, entendemos que a contabilidade deve funcionar como uma ferramenta de decisão, integrando demonstrativos, indicadores financeiros, planejamento tributário e tecnologia à estratégia da empresa.
A tecnologia pode processar informações em uma velocidade extraordinária, mas estratégia e tomada de decisão continuam dependendo de conhecimento, experiência e compreensão do negócio. O contador tende a ser cada vez mais consultivo e estratégico.
Para encerrar, qual é o principal conselho que você deixa para os empreendedores que desejam expandir seus negócios ou atrair investidores em meio a tantas mudanças econômicas?
Meu principal conselho é: profissionalize e estruture a empresa antes de acelerar o crescimento. Muitos empresários buscam expansão, novas unidades, aumento de faturamento, crédito ou investidores sem possuir uma estrutura financeira, contábil e administrativa preparada para suportar esse crescimento. E crescer sem estrutura pode ser tão perigoso quanto não crescer.
Para expandir, a empresa precisa ter processos bem definidos. É necessário saber quem é responsável por cada atividade, como as informações circulam, como são realizados os controles, quais são os indicadores acompanhados e como as decisões são tomadas. Caso contrário, o aumento do faturamento pode vir acompanhado de aumento de desperdícios, problemas de caixa, falhas operacionais, passivos tributários e perda de controle da própria operação. Por isso, crescimento precisa ser planejado para não se transformar em crescimento desordenado.
Quem pretende expandir precisa ter contabilidade confiável, demonstrações financeiras organizadas, controle de custos, fluxo de caixa, planejamento tributário, processos internos, indicadores e governança. Com a Reforma Tributária, isso se torna ainda mais importante. Investidores, instituições financeiras e grandes empresas querem segurança. Eles querem entender faturamento, margem, endividamento, geração de caixa, riscos tributários e, principalmente, se aquela empresa possui estrutura para crescer de maneira sustentável.
Então, antes de perguntar “quanto minha empresa pode crescer?”, o empresário também deveria perguntar: “minha estrutura está preparada para suportar esse crescimento?” Organização contábil, processos e governança não devem ser vistos apenas como burocracia. Eles fazem parte do valor da empresa. Acredito que as empresas que mais vão se destacar nesse novo ambiente serão aquelas que conseguirem unir processos bem definidos, tecnologia, informação contábil confiável e planejamento estratégico.
A Reforma Tributária traz desafios, mas também cria oportunidades. Quem estruturar a empresa agora terá muito mais condições de crescer de forma organizada, ganhar escala e atrair investidores nos próximos anos.
Fonte: Marília Domingues
