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Ruth Avelino
Foto: Arquivo Pessoal

Ruth Avelino: “Ao longo da jornada profissional, é preciso não ter medo de mudar, inovar e buscar novos espaços”

Indicada ao Prêmio Sebrae Mulher de Negócios, jornalista e empresária relembra trajetória e revela planos para a marca retrô em João Pessoa

20 de agosto de 2026

Ruth Avelino construiu uma trajetória profissional que reúne jornalismo, gestão pública, turismo e empreendedorismo. Com experiência em veículos de comunicação e 12 anos à frente da PBTur, atualmente atua na Azul Viagens e Azul Linhas Aéreas e mantém “O Assustado”, evento retrô que completa 25 anos em João Pessoa. Indicada ao Prêmio Sebrae Mulher de Negócios, Ruth fala, em entrevista ao Paraíba Total, sobre os desafios da liderança feminina, as transformações do turismo, a adaptação ao setor privado e os caminhos para manter uma marca relevante ao longo do tempo.

Ruth, a sua indicação ao Prêmio Sebrae Mulher de Negócios coroa uma trajetória marcada pelo pioneirismo e forte protagonismo regional. Olhando para o cenário atual, quais você considera os principais desafios e barreiras que as mulheres ainda enfrentam para alcançar o topo da liderança corporativa no Brasil?

Posso me considerar uma mulher de muita sorte, porque sempre busquei meus espaços com responsabilidade e firmeza. Consegui chegar a lugares que jamais imaginei. Sou de origem humilde, filha de um caminhoneiro e de uma dona de casa, e fui lutando. Com o dom da comunicação, consegui galgar muitos espaços.

Acredito que os desafios são muitos para todos os seres humanos, mas, para as mulheres, especialmente no Brasil, ainda existe muito preconceito e misoginia. É preciso ter coragem para seguir, mesmo com medo, se profissionalizar e buscar conhecimento. Ninguém tira o conhecimento de você. Então, é se preparar, estudar e enfrentar os desafios com coragem.

Após uma gestão de 12 anos à frente da PBTur, você assumiu o desafio de gerenciar a Promoção de Destinos da Azul Viagens. Como foi o processo de transição do setor público para uma gigante da iniciativa privada e o que essa mudança exigiu de você em termos de adaptação de liderança?

Sempre fui da iniciativa privada. Comecei minha vida profissional dando aula em uma escola particular, depois fui para a TV Cabo Branco, onde trabalhei muitos anos, e também passei pela TV Correio. Paralelamente, trabalhei na PBTur: foram 15 anos como assessora de imprensa e depois mais 12 como presidente.

Foi muito desafiador trabalhar na gestão pública, porque é uma atividade que exige cuidado e responsabilidade para cumprir os trâmites burocráticos e todas as exigências dos órgãos de fiscalização, fazendo uma gestão com probidade e responsabilidade com o dinheiro público.

Quando recebi o convite para trabalhar na Azul Viagens e nas linhas aéreas, foi interessante. Eu nem queria, na verdade. Estava prestes a fazer 60 anos e queria dar uma acalmada na minha vida, mas terminei aceitando — e foi desafiador demais. Primeiro, por se tratar de uma gigante da aviação no Brasil e até no mundo. Depois, por lidar com pessoas muito jovens e com tecnologias que eu não conhecia. Foi uma adaptação complexa. Confesso que, nos dois ou três primeiros meses, tive muita vontade de sair correndo e não voltar mais. Mas fui tendo paciência, lidando com tudo com cuidado, e as pessoas também foram muito bacanas, me ensinando muita coisa.

Hoje já estou há dois anos na Azul Viagens e também atuo na Azul Linhas Aéreas. Acho muito interessante lidar com tanta gente de diferentes lugares. Os diretores são dos Estados Unidos, da Índia, e há pessoas de vários estados do Brasil. É uma integração muito bacana. É uma empresa grande, mas que tem características de empresa pequena. O presidente está no refeitório almoçando com as pessoas, usando o mesmo elevador. Então, consegui me adaptar bem, apesar de o começo ter sido bastante complexo.

O turismo é uma engrenagem econômica vital, mas que exige muita sensibilidade de mercado. Sob a sua ótica na Azul Viagens, quais são as principais tendências de consumo e os gargalos de infraestrutura que o ecossistema de viagens brasileiro precisa resolver para crescer de forma sustentável?

Sou apaixonada por esse segmento. O turismo mexe com todos os outros setores da economia: agricultura, pecuária, construção civil, empresas e indústrias. É um transformador de realidades sociais e um forte gerador de emprego e renda. No Brasil, evoluímos muito, mas ainda precisamos melhorar a infraestrutura de alguns destinos e a preparação da mão de obra, que continua sendo um gargalo.

Temos destinos que vivem praticamente 100% do turismo, como Campos do Jordão, Gramado, Bonito e Pipa. São lugares cuja economia gira em torno do turismo e que estão mais preparados. Ainda precisamos evoluir na infraestrutura, na qualificação das pessoas e na percepção das novas tendências mundiais, como o cuidado com o meio ambiente e com as pessoas. A gestão pública e a privada estão buscando formas de trabalhar de maneira sustentável, para que os negócios durem e funcionem bem. Grande parte do turismo depende do meio ambiente, então é fundamental cuidar da preservação ambiental, dos animais, das pessoas e das matas.  É um desafio, mas não podemos nos acomodar. É preciso estar sempre evoluindo, estudando e buscando melhorar.

Além do mundo corporativo, você é a mente por trás d’O Assustado, evento retrô que já soma 25 anos de história em João Pessoa. Do ponto de vista de negócios, marketing e fidelização, qual é o segredo para manter uma marca de entretenimento lucrativa, competitiva e relevante por tanto tempo?

Criei O Assustado em 2001, como uma brincadeira, algo que eu achava que iria agregar meus amigos e as pessoas da minha faixa etária. Foi ganhando espaço e passando por vários lugares e há 17 anos estou no Clube Cabo Branco. É muito desafiador manter uma festa, um negócio, por tanto tempo. Vejo restaurantes e boates que tiveram seu momento e depois fecharam. Conseguir manter O Assustado durante tantos anos é algo complexo.

Acredito que o segredo está na manutenção: no cuidado com o astral do lugar, com as pessoas e com o ambiente, para que seja sempre harmonioso, agregador e respeitoso. Depois da pandemia, percebemos uma grande mudança no público. Hoje tenho um público jovem muito grande e também um público LGBT. Minha luta é criar um ambiente onde todo mundo possa se divertir com respeito.

Também estou sempre procurando inovar. Comecei a tocar como DJ no ano passado. Com a proliferação de festas retrô na Paraíba, quis que a minha fosse diferente. Hoje O Assustado é uma marca e tenho uma equipe fixa de 17 pessoas trabalhando comigo em cada evento. A fidelidade vem da confiança. As pessoas precisam confiar naquele ambiente e em quem promove. Faço essa festa há 25 anos e nunca tive uma briga ou confusão. É um ambiente acolhedor e respeitoso. Acho que isso contribui para essa fidelidade.

Sua formação original é no jornalismo, tendo sido pioneira no telejornalismo paraibano. De que forma o “faro jornalístico”, a habilidade de comunicação clara e a gestão de crises — essenciais na imprensa — moldaram a executiva e tomadora de decisões assertivas que você é hoje?

Sou jornalista, amo minha profissão e tudo o que faço. Comecei na imprensa em 1986, como repórter da TV Cabo Branco, e muito cedo assumi cargos de liderança. Com 24 anos já era coordenadora e, antes dos 30, diretora. Desde a escola eu já era representante de turma. Ocupar espaços que antigamente eram mais destinados aos homens foi me dando uma armadura, uma força e uma capacidade que me transformaram na pessoa que sou hoje. Nunca tive muita ânsia pelo poder. Não era meu plano ser presidente de órgão ou gestora de uma grande empresa. As coisas foram acontecendo de forma natural.

A vivência, desde quando eu era professora primária, depois repórter, coordenadora de comunicação e diretora de marketing, foi me fazendo ser quem sou hoje.  Também sou muito aberta a escutar. Nunca me achei dona da verdade, apesar de ser firme e controladora das coisas. Durante os 12 anos em que fui presidenta da PBTur, por exemplo, minha sala era aberta. Sempre fui uma líder agregadora, que gostava de estar junto das pessoas. Isso me ensinou muito

Para encerrar, muitas mulheres acompanham sua trajetória em busca de inspiração para gerir suas próprias carreiras ou empresas. Quais são os seus próximos planos de expansão no mercado e qual conselho fundamental você daria para as leitoras que desejam escalar seus negócios e se tornarem referências em suas áreas?

Planejo seguir com O Assustado. Hoje tenho uma equipe muito jovem que me impulsiona a fazer coisas novas e buscar novos horizontes. Temos projetos como transformar O Assustado em patrimônio material de João Pessoa e criar um bloco de carnaval. São muitas ideias, e essa juventude ao meu lado me ajuda a enxergar coisas novas, a não ter medo de inovar, buscar novos espaços e aceitar novos convites.

Meu conselho é ter coragem, lutar e, acima de tudo, lutar com ética e respeito às pessoas. Não se achar superior nem achar que é o máximo. A gente precisa estar sempre aprendendo. Estou com 62 anos e trabalho desde os 18 e ainda acho que tenho muito o que aprender. Sou uma eterna aprendiz. Então, lute com suas forças e sua garra, mas sempre com ética, respeito e sabendo que você nunca sabe de tudo. É preciso estar sempre aprendendo.  

 

Fonte: Marília Domingues