Nas redes sociais, o novo endereço do mercado imobiliário
Imobiliárias e corretores de imóveis de João Pessoa investem em conteúdo digital para criar confiança e se aproximar de um público cada vez mais conectado
30 de setembro de 2026
Se antes a busca por imóveis passava por anúncios em placas e visitas presenciais, hoje os compradores conseguem ver milhares de opções com poucos cliques e encontrar tours virtuais em meio ao próprio conteúdo do Instagram. A mudança, no entanto, não ficou só do lado do consumidor: os profissionais do mercado imobiliário também passaram a investir fortemente em presença digital. Muitos se tornaram criadores de conteúdo e até “influenciadores digitais”, capazes de impactar milhões de seguidores.
Diferente das postagens simples, os novos conteúdos carregam diversos artifícios criativos para chamar atenção nas redes, desde vídeos humorados a simulações com alta precisão geradas por Inteligência Artificial, que mostram como será o cotidiano em um imóvel de luxo, por exemplo.
O crescimento desse tipo de conteúdo não acontece apenas no setor imobiliário. Segundo o Digital AdSpend 2026, estudo do IAB Brasil em parceria com o Ibope, as marcas brasileiras destinaram R$ 42,7 bilhões à mídia digital em 2025, um salto de 12,7% em relação ao ano anterior.
No mercado imobiliário, especificamente, esse avanço tem rosto e idade. Uma pesquisa do DataZap, do Grupo OLX, mostra que, na busca por um imóvel para alugar, as redes sociais são destaque para 47% dos consumidores millennials e da Geração Z (nascidos entre 1981 e 2012). Já entre compradores, esse percentual é de 38%.
Para Melina Tandaya, consultora de marketing imobiliário, essas transformações são resultado de uma revolução ainda maior na comunicação. “Nós deixamos de ter uma comunicação vertical, em que a empresa fazia um anúncio e o consumidor comprava, para ter uma relação mais horizontal. Potencializado pelos meios digitais, o cliente passa a ser mais participativo”, avalia.
Melina argumenta que as redes sociais deixaram de ser apenas um meio de divulgação para se tornar um canal de relacionamento entre vendedor e comprador. “O cliente não quer apenas ver o imóvel, ele quer confiar naquele profissional, acompanhar e entender o processo”, afirma.
A ideia de vender com autenticidade não é nova e já era o cerne do clássico “Jerry Maguire: A Grande Virada” (1996), em que o protagonista, interpretado por Tom Cruise, rompe com o modelo tradicional de representação esportiva para apostar em relacionamento genuíno com poucos clientes. Décadas depois, o mercado imobiliário parece redescobrir essa mesma lógica: nas redes sociais, o que gera resultado não é o volume de anúncios, mas a proximidade real entre corretor e cliente.
Presença digital vira estratégia em João Pessoa
Numa fase de expansão e fortalecimento do setor, a Paraíba já soma 19.913 profissionais inscritos no Conselho Regional de Corretores de Imóveis (Creci-PB), dos quais 14.476 estão em atividade, além de 1.951 empresas imobiliárias registradas no conselho. No mercado aquecido de João Pessoa, muitos profissionais já entenderam que a presença digital deixou de ser opcional para se tornar estratégia de atuação.
Para Phellip Nunes, diretor de Marketing do Creci-PB, o Instagram se tornou peça central na rotina de quem trabalha com imóveis. “É onde o profissional apresenta os imóveis, divulga seu trabalho, constrói relacionamentos e se aproxima de possíveis compradores. Principalmente entre os corretores que estão entrando no mercado, essa presença digital já faz parte do início da carreira”, argumenta.
E ressalta que o Creci-PB acompanha esse movimento também como fiscalizador. “Nosso trabalho é orientar o corretor para que ele saiba usar essas ferramentas com responsabilidade. Isso envolve desde a identificação profissional nas publicações, com o número do Creci, até a atenção ao registro de incorporação, o RI, além do cuidado com a clareza das informações apresentadas ao consumidor”, detalha.
O órgão também investe em formação para o digital através de iniciativas como o EducaCreci e o Terça do Saber, além de vídeos, cartilhas e conteúdos educativos voltados à categoria. “Temos uma diretoria de marketing com profissionais voltados para essa área, porque entendemos a importância do digital no mercado imobiliário. O corretor precisa saber divulgar um imóvel, mas também precisa entender como se comunicar com o público e construir uma presença que transmita confiança”, diz Phellip.
Quem já vive essa mudança
A confiança do cliente foi o principal ganho com o investimento nas redes sociais, segundo Cinata Cordeiro, fundadora da imobiliária Cinata Imóveis. “O que mudou foi justamente o cliente querer comprar conosco e conhecer nossa atuação, ter confiança na imobiliária mesmo sem conhecer pessoalmente, porque o di
gital tem esse poder”, pondera.

A imobiliária investe em presença digital desde 2016, quando começou a produzir conteúdo para o YouTube. Hoje o canal tem 141 mil inscritos e mais de 5,2 mil vídeos publicados. Segundo ela, o objetivo nunca foi atrair mais leads, ou seja, contatos de pessoas interessadas em comprar um imóvel. “Leads a gente já tinha. O objetivo, quando criamos o canal do YouTube, era ter clientes que decidissem comprar com a imobiliária, que, em meio a tantas empresas, nos escolhessem para estar com eles durante a jornada”, relembra.
No Instagram, o perfil @cinataimoveis já acumula mais de 83 mil seguidores e mais de 10 mil publicações. “Fomos pioneiros nesse tipo de conteúdo na cidade e notamos como isso aumentou nosso alcance, inclusive a pessoas de outros estados e fora do país. Os conteúdos nas redes sociais chegaram a lugares que nem imaginávamos”, conta.
Outro caso é o do Núcleo Imobiliário, que atua há 10 anos no mercado. Segundo o sócio Gustavo Galindo, a empresa já usava recursos de visitas online e divulgava vídeos de imóveis antes da pandemia, mas intensificou essa presença nos últimos anos e passou a investir em produção de conteúdo profissional com o apoio de uma aceleradora de marketing e vendas.
O perfil da empresa no Instagram @nucleoimobiliario soma 13 mil seguidores e mais de 1.700 publicações. “Vídeos humorados e bastidores do dia a dia dão engajamento, mas não necessariamente geram negócio. Para converter a venda os conteúdos mais fortes são os que mostram os benefícios do empreendimento, do bairro e da cidade, ajudando o cliente a visualizar o estilo de vida que teria naquele lugar”, avalia.
Para Gustavo, no entanto, o digital não substitui o que sempre foi a base da profissão. “Um bom corretor de imóveis precisa entender de tudo um pouco: finanças, aspectos jurídicos e até psicologia. É preciso compreender a rotina da família, os hábitos do cliente e suas necessidades para indicar o imóvel certo. O digital aproxima, mas a sensibilidade no atendimento continua sendo decisiva”, justifica.
Tecnológico, mas a serviço do humano
Esse protagonismo do corretor não passa despercebido por quem constrói os empreendimentos. Melina afirma que as construtoras acompanham esse movimento com admiração e se tornou cada vez mais comum ver incorporadoras fechando collabs, cedendo verba de divulgação ou escolhendo parcerias com base na presença digital do profissional. “Não é uma cobrança formal”, pondera a consultora, “mas as incorporadoras valorizam, sim, na hora de escolher as parcerias”, completa.
É diante desse cenário que Melina projeta o futuro do setor. Para ela, tecnologia e humanidade devem coexistir, não disputar espaço. “A inteligência artificial acelera os processos e quem não usa está perdendo uma grande oportunidade”, afirma. No entanto, ela ressalta que a ferramenta não substitui o que diferencia o profissional, ou seja, a capacidade de criar conexão humana. “O futuro do marketing não é mais tecnológico do que humano. Ele é tecnológico, mas a serviço do humano”, arremata.
Fonte: Aléssia Guedes