Consumo e Capitalismo Consciente, por Thaisa Bogoni: Por que a situação da economia circular piora ano após ano?
31 de janeiro de 2023
Há um tempo já venho pensando em escrever sobre Economia Circular, porém queria antes me aprofundar mais no assunto, pelo seu grau de complexidade e pelos diferentes tipos de abordagem possíveis. Após ler livros, artigos e ouvir diversas entrevistas com especialistas sobre o assunto, pensei que poderia acabar escrevendo “mais do mesmo” e “chovendo no molhado”, por isso ainda assim fui protelando e procurando um gancho que me parecesse interessante, e acredito que este momento finalmente chegou. Infelizmente minha oportunidade está atrelada a um relatório que li recentemente e me deixou bem decepcionada: segundo oThe Circularity Gap 2023, elaborado pela organização Circle Economy, os resultados da economia circular global vem piorando ano após ano.
Dados frustrantes revelam que, apesar de cada vez mais ouvirmos notícias sobre o tema, considerando a mesma uma pauta em destaque nos atuais cenários político, econômico e corporativo, e por isso acreditarmos que diversas ações e projetos estejam sendo implementados, o “Walk the talk” não está sendo a realidade. O aumento da extração e uso de materiais tem reduzido os índices globais de circularidade, que estavam em 9,1% em 2018, passaram para 8,6% em 2020 e agora em 2023 encontram-se em 7,2%. A circularidade é prejudicada pelo uso quase exclusivo de materiais novos (virgens) para produção, o que faz com que 90% de materiais sejam desperdiçados, perdidos ou permaneçam indisponíveis por anos para reutilização aos ficarem presos em estoques de longa duração.
Como consequência destes números, temos o crescimento da emissão dos gases de efeito estufa e o aumento da crise climática, que elevam os riscos de um futuro catastrófico para a humanidade ao transpor os limites seguros do planeta. De acordo com o relatório Riscos Globais lançado pelo Fórum Econômico Mundial 2022, dentre os dez piores, previstos em escala global para os próximos dez anos, os “Top 3” estão relacionados a questões ambientais: ações climáticas insuficientes; eventos climáticos extremos; e perda de biodiversidade.
Diante de uma realidade de previsões pessimistas, está claro que o trabalho feito no presente está muito aquém das expectativas e precisa ser revisado e implementado de forma sólida para ser revertido com a urgência necessária. Para isso, a pauta do ESG e todos os assuntos relacionados à sustentabilidade, impactos positivos e regeneração ambiental de ampla compreensão de todos os atores envolvidos. É necessário gerar informação clara, simples e eficaz para um maior número de pessoas e organizações, que possuem diferentes papéise agem em diversos tipos de ambientes, com diferentes interesses, expectativas, hábitos e comportamentos, a fim de se promover uma educação universal com relação aos danos causados pelo atual modelo econômico. O acúmulo de problemas e resultados negativos, que não nos permite conquistar as mudanças necessáriaspara resultados promissores, e que vem sendo responsáveis pela ultrapassagem dos limites seguros planetários no século XXI, é algo que só mudará por um esforço que precisa ser enxergado como prioridade paratodos os envolvidos, compreendendo as responsabilidades e contribuições com que cada stakeholder deve ser comprometer.
Como permanecer nos limites seguros para o planeta?
Identificados em 2009 por um grupo de cientistas do sistema terrestre, liderados pelo sueco Johan Rockström, os limites planetários definem até onde o desenvolvimento humano pode chegar sem afetar de forma irreversível a capacidade regenerativa da Terra. Também conhecido como “teto ecológico”, compreende nove processos críticos a seguir, que são constantemente monitorados:
- Mudanças climáticas
- Acidificação dos oceanos
- Poluição química
- Carga de nitrogênio e fósforo
- Retiradas de água doce
- Conversão de terras
- Perda de biodiversidade
- Poluição atmosférica
- Destruição da camada de ozônio
Ainda de acordo com relatório The Circularity Gap 2023, no iníciodeste séculoa humanidade já transgrediucinco limites planetários, que medem a saúde do meio ambiente através da terra, água e ar. Além disso, bilhões de pessoas ainda enfrentam privações extremas e o 1% das pessoas mais ricas possui metade da riqueza financeira do mundo, o que prova que realmente estamos conduzindo a situação para um colapso anunciado, e cada vez mais próximo.O relatório também mostra que paraadequar a atividade humana e voltar aos limites seguros do planeta, seria necessário reduzir a extração e o consumo global de materiais em um terço. Mesmo tratando-se de um grande desafio e mudanças estruturais e estruturante, é possível alcançá-lo com a incorporação de algumas soluções propostas pela economia circular, que serão apresentadas a seguir.
Como fazer a economia circular acontecer?
Uma economia circular global nos permitirá atender às necessidades das pessoas com apenas 70% dos materiais que agora extraímos e usamos – levando a atividade humana de volta aos limites seguros do planeta, apresenta o relatório The Circularity Gap 2023.Para isso, soluções circulares incorporadas em quatro sistemas globais principais são necessárias: usar menos, usar por mais tempo, reutilizar e manter limpo/ conservar.
De acordo com dados da Fundação Ellen Macarthur, organização criada em 2010 com a missão de acelerar a transição rumo a uma economia circular, trabalhando com empresas, governos e a academia em diversos países, é necessário corrigir primeiro nosso atual sistema econômico para então conseguirmos mudanças significativas a favor das questões climáticas, reduzindo as emissões de gases de efeito estufa para o alcance das metas que foram estabelecidas no Acordo de Paris. Porém, as ações relacionadas à eficiência energética e a mudança para energia renovável são responsáveis apenas por 55% das emissões globais. Para o alcance do net-zero, é imprescindívelrever e melhorar os métodos de fabricação e uso de produtos, materiais e alimentos.Com a adoção encadeada dos três princípios da economia circular, também seria possível reduzir os outros 45% das emissões, que são associadas à indústria, agricultura e uso da terra e não estão diretamente associadas à transição energética:
1.Eliminar o desperdício e a poluição;
2.Promover a circulação de produtos e materiais;
3.Regenerar a natureza;
O elenco na transformação da economia
Kate Raworth apresentaem seu livro Economia Donut o elenco que atua diretamente para formar o modelo da Economia Integrada, representada num diagrama que alinha a economia dentro da sociedade e do mundo vivo, em que esta possui diversas maneiras de satisfazer as necessidades e vontades das pessoas. Alguns deles também podem ser denominados como stakeholders, como:
-A Sociedade, que é fundacional – portanto, alimente suas conexões;
– O Agregado Familiar, que é nuclear – portanto, valorize sua contribuição;
– O Mercado, que é poderoso – portanto, integre-o com sabedoria;
-O Estado, que éessencial – portanto, torne-o responsável;
– AsInstituições Financeiras, que estão à serviço – portanto, faça-as servir à sociedade;
– As Empresas, que são inovadoras – portanto, dê um propósito a elas;
– E o Comércio, que tem dois lados – portanto, torne-o justo.
Compreender como o papel de cada um impacta positiva ou negativamente para a implementação da Economia Circular é algodiscutido em várias oportunidades e por diferentes pontos-de-vista, que podem ser detalhados e aprofundados, de acordo com o interesse de cada um por esta pauta.
Com o objetivo de dar continuidade ao assunto, que como eu disse lá no início do artigo, é complexo e pode ocorrer por diversos tipos de abordagem, recomendarei a leitura deste livro para quem quiser conhecer a teoria do modelo Donut em detalhes, que não é apenas interessante, mas comprovadamente viável com osdiversos dados e informações que a autora expõe. E da minha parte, darei continuidade ao assunto nos próximos dois artigos que escreverei, com abordagens diretamente relacionadas às áreas que tenho experiência e busco aprofundar meus conhecimentos: como a atuação das empresas pode ser regenerativa, atrelando a teoria ao trabalho realizado pelo movimento do Capitalismo Consciente; e os vários papéis do meu eu econômico, atrelando conteúdos teóricos com estudos e tendências de comportamento do consumidor. Nos vemos em breve!
Sobre Thaisa Bogoni
Mãe do Otto, esposa do Diogo, curitibana que recentemente mudou de João Pessoa para Belo Horizonte, feminista integrante do Projeto LIS e yogi na horas vagas. Publicitária, especialista em Marketing e Gestão de Projetos com mais de 15 anos de experiência no mercado, atuando em diversos segmentos como educação e tecnologia. Apaixonada pela área de comportamento do consumidor, dedico minhas pesquisas à pauta do consumo consciente e moda sustentável. Conselheira do Instituto Capitalismo Consciente Brasil na filial Nordeste, busco contribuir com a expansão, ações e parcerias da região.