Famílias gastam menos de 2% da renda com obras
Com base nos dados do IBGE, estudo feito pelo setor do cimento mostra mudança no perfil de consumo da população
18 de agosto de 2022
Famílias gastam menos de 2% da renda com obras. O brasileiro está gastando menos com obras em suas moradias ao passar dos anos. É o que revela estudo comparativo promovido pelo Sindicato Nacional da Indústria do Cimento (SNIC), a partir dos dados da última Pesquisa de Orçamento Familiar (POF), do IBGE — Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. De acordo com as conclusões apontadas na pesquisa, se em meados dos anos 1990, cerca de 6% da renda familiar era direcionada para obras, reformas e pequenas melhorias, em sua última edição em 2018, a constatação foi de que apenas 1,9% de todos os ganhos tiveram o mesmo destino.
Para o diretor executivo do SNIC, Bernardo Jannuzzi, boa parte da queda é explicada pela mudança no perfil de consumo da população brasileira. “Nos últimos 20 anos houve transformações profundas não apenas com relação aos avanços tecnológicos, às mudanças climáticas, ao cenário político-econômico mas, principalmente, no comportamento das pessoas e aos seus hábitos de consumo. Durante esse período os brasileiros passaram a adquirir mais produtos como celulares, carro e eletrodomésticos e serviços como televisão a cabo, streaming, internet e viagens”, revela.
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Em 2018, as famílias brasileiras despenderam R$ 86,765 bilhões em obras. Desse valor, 40,8% referentes a manutenção e reparos e 59,2% em construções e reformas. Enquanto o primeiro tipo de obra apenas repõe o capital investido, o segundo expande o valor do capital investido na moradia. Em termos nominais, essas despesas indicaram um crescimento de 23,5% comparadas com o resultado da POF de 2008, ou seja, um crescimento médio anual de apenas 2,1%. Em termos reais, considerando a inflação dos preços dos materiais e mão de obra, o resultado se inverte, com queda de 18,8%, o equivalente a um decréscimo médio anual de 2,1%.
Ao longo de 2018, 21,4 milhões de unidades domiciliares realizaram algum tipo de obra, ou seja, três em cada dez famílias fizeram obra em suas moradias. Logo, o valor médio das despesas com obras foi de R$ 4.063,00 em cada residência por ano. Em termos per capita, o gasto anual com obras caiu 25%, saindo de R$ 559,90 em 2008 para R$ 418,94, em 2018.
Consumidor domiciliar de cimento
Durante muito tempo associou-se o consumidor domiciliar de cimento, o chamado “consumidor formiga”, às famílias de baixa renda. Entretanto, a POF revela que esse consumidor está presente em todas as classes de renda.
“As unidades consumidoras que recebem até três salários-mínimos consumiram 29,2% do cimento. Já as famílias compreendidas na faixa entre três e cinco salários-mínimos foram responsáveis por 24,7% desse consumo. Os consumidores com renda entre cinco e dez salários-mínimos foram destino de 29% do produto. Já aqueles que receberam mais de 10 salários-mínimos ficaram com 17,1%. Portanto, a distribuição do cimento é uniforme entre as diversas classes de renda”, ressalta o diretor do SNIC.
Ao analisar o consumo de cimento pelos diversos mercados, o auto construtor foi responsável, em 2018, por 17,6% de todo cimento utilizado, sendo que os outros 82,4% foram consumidos através de construtoras e outros produtos a base de cimento.
“As estatísticas da POF indicam padrões comportamentais úteis para avaliações de médio e longo prazo e entender situações extremas de curto prazo que ocorreram durante a pandemia. No longo prazo, o crescimento econômico, os avanços da renda e o acúmulo de patrimônio levam à expansão sustentada do consumo. Estima-se que cada aumento de 10% na renda das famílias haja um avanço de 2,2% nas despesas com obras (manutenção/reparo e construção/reforma) e um crescimento de 2% no gasto com cimento”, explica.
Pandemia
Com a pandemia e o redirecionamento dos gastos para obras e reformas, estima-se que as despesas com obras tenham comprometido 2,5% da renda das famílias.
Nesse período, a atividade da construção civil foi considerada essencial enquanto a maioria dos serviços e estabelecimentos permaneceram fechados e boa parte dos trabalhadores foram impedidos de saírem de suas casas. Com isso, a residência deixou de ser apenas um local de refúgio para se transformar num lugar de trabalho e lazer. Ademais, a maioria dos comércios aproveitou o momento de pausa das atividades e promoveram obras e reformas significativas, inexequíveis em dias de normalidade. Com isso, verificou-se um significativo aumento da autoconstrução.
“As políticas de afastamento social levaram a uma forte queda do setor de serviços, entretenimento e viagens, liberando recursos para o consumo de outras mercadorias. Somando-se a esse movimento a evolução da renda entre 2018 e 2020, estima-se uma disponibilidade de R$ 72,4 bilhões em 2020, sendo que 36,6% desse montante foi destinado a realização de obras. Com isso, as despesas com obras saltaram de 1,9% em 2018 para 2,5% da renda total das famílias”, revela o diretor.
No entanto, fatores que estiveram por trás desse excepcional desempenho começaram a desaparecer em 2021. “O elevado nível de desemprego da economia, a queda da renda, o expressivo aumento da inflação, a retomada do ciclo de expansão dos juros e alto endividamento das famílias foram as principais razões para o arrefecimento do consumo de cimento pelo chamado autoconstrutor”, explica.
Com a reabertura gradual da economia, a renda da população foi direcionada para serviços que estavam fechados como restaurantes, viagens e entretenimento, diminuindo o gasto com construção. Atualmente acredita-se que o gasto com obra tenha retornado para nível inferior a 2% da renda familiar, perdendo o ganho registrado em 2020.
Perspectivas
Para o diretor do SNIC, o ano de 2022 apresenta inúmeras incertezas no cenário político e econômico, nacional e internacional, que vem afetando a indústria do cimento. “Diante desse cenário é fundamental termos outros indutores de demanda por cimento, como a volta do investimento em infraestrutura e habitação por parte do governo. Nos últimos anos percebemos uma tímida retomada das obras de infraestrutura, mas ainda muito aquém das necessidades brasileiras. O programa habitacional Casa Verde Amarela, por exemplo precisa ser alavancado e desempenhar seu papel em diminuir o enorme déficit habitacional existente”, afirma.