Consumo e Capitalismo Consciente, por Thaisa Bogoni: Nosso papel na construção de um Futuro Sustentável – Agenda 2030 da ONU
4 de agosto de 2022
Seguindo o rumo dos temas essenciais que venho pesquisando para compreensão da pauta do consumo consciente, este mês trago para a coluna informações e reflexões acerca dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU).
Os ODS, como são mais comumente conhecidos, trata-se de um apelo global para a realização de ações focadas em acabar com a pobreza, proteger e regenerar o meio ambiente e o clima e garantir que as pessoas, em todos os lugares, possam viver com paz e prosperidade. Trata-se de um apelo global, criado em 2015, quando os 193 líderes dos países membros assumiram o compromisso com 17 Metas Globais, os ODS´s possuem agenda de proposições a serem atingidas até 2030, conforme descrito a seguir:
1. Erradicação da pobreza – Acabar com a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares.
2. Fome zero e agricultura sustentável – Acabar com a fome e a inanição, alcançar a segurança alimentar, melhorar a nutrição e promover a agricultura sustentável
3. Saúde e Bem-Estar – Assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, em todas as idades.
4. Educação de qualidade – Assegurar a educação inclusiva e equitativa de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos.
5. Igualdade de gênero – Alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas.
6. Água Potável e Saneamento – Assegurar a disponibilidade e a gestão sustentável da água e saneamento para todos.
7. Energia limpa e acessível – Assegurar o acesso confiável, sustentável, moderno e a preço acessível à energia para todos.
8. Trabalho decente e crescimento econômico – Promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, o emprego pleno e produtivo e o trabalho decente para todos.
9. Indústria, Inovação e infraestrutura – Construir infraestruturas resilientes, promover a industrialização inclusiva e sustentável e fomentar a inovação.
10. Redução das desigualdades – Reduzir a desigualdade dentro dos países e entre eles.
11. Cidades e comunidades sustentáveis – Tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis.
12. Consumo e produção responsáveis – Assegurar padrões de produção e de consumo sustentáveis
13. Ação contra a Mudança Global do Clima Tomar medidas urgentes para – combater a mudança do clima e seus impactos
14. Vida na Água – Conservar e promover o uso sustentável dos oceanos, dos mares e dos recursos marinhos para o desenvolvimento sustentável.
15. Vida Terrestre – Proteger, recuperar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres, gerir de forma sustentável as florestas, combater a desertificação, deter e reverter a degradação da terra e deter a perda
16. Paz, Justiça e Instituições Eficazes – Promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, proporcionar o acesso à justiça para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis.
17. Parcerias e Meios de Implementação – Fortalecer os meios de implementação e revitalizar a parceria global para o desenvolvimento sustentável.
Os 17 ODS fazem parte de um plano de ação composto por 169 metas e 232 indicadores, que apontam a urgência em reorganizar a sociedade de uma forma mais justa, igualitária e sustentável. Como uma organização intergovernamental que se propõe a promover a cooperação internacional, a ONU estabeleceu, por meio da Agenda 2030, que a democracia, a boa governança, o Estado de Direito e um ambiente favorável são fundamentais para o desenvolvimento sustentável, o crescimento econômico inclusivo e sustentado, além do desenvolvimento social, proteção ambiental e erradicação da pobreza e da fome.
A ONU afirma que os ODS são “integrados e indivisíveis”, portanto é fator preponderante o equilíbrio dos três pilares do desenvolvimento sustentável (social, econômico e ambiental) e a sua interligação, não sendo possível o avanço de um Objetivo sem que os demais não se desenvolvam de forma conjunta, contando com a participação e comprometimento de todos os países integrantes da sua instituição.
O ranking global e a situação do Brasil
Os desafios são globais, mas também locais. Cada país possui um monitoramento individual dos seus avanços, de acordo com suas peculiaridades e principais necessidades. Neste ponto, é evidente que os países desenvolvidos possuem vantagens para alcançar melhores resultados e precisam apoiar as nações mais pobres, o que está claramente descrito nas diversas metas dos ODS: a importância de se concentrar esforços nos países subdesenvolvidos, que são naturalmente mais vulneráveis e possuem maiores taxas de desigualdade em quase todas as áreas avaliadas.
Para acompanhamento dos resultados parciais da Agenda 2030, a ONU disponibiliza um relatório anual que demonstra a evolução dos países em cada um dos 17 Objetivos, com uma visão global, dados locais e estimativas. Na edição de 2022 são apresentados resultados de uma já esperada involução, consequência da confluência de crises promovidas pela COVID-19, pelas mudanças climáticas e os conflitos entre países, que vemos diariamente em todos os noticiários e que prejudicam diretamente os avanços antes esperados em alimentação, nutrição, a saúde, a educação, o meio ambiente, a paz e a segurança, e afetam assim todos os ODS. Infelizmente a análise dos resultados é parcial, pois diversos países não conseguem compilar e apresentar os dados de forma estruturada para que se haja uma comparação dos resultados e mensuração da evolução no decorrer dos anos, deixando uma lacuna que prejudica o monitoramento dos ODS.
De acordo com a jornalista Rosana Jatobá, que citou em sua coluna Sustentabilidade da rádio CBN um estudo feito por Michael Green, criador do índice de Progresso Social, atualmente o país com o melhor desempenho na Agenda 2030 dos ODS é a Dinamarca, que está avançando de modo a alcançar todos os objetivos dentro do prazo estabelecido. Depois no ranking vem os Estados Unidos, Israel, China, Emirados Árabes e o Brasil só vai alcançar até 2030 os ODS 7 e 17, que tratam de Acesso à Energia e Elaboração de Parcerias. No ritmo atual, o Brasil só conseguiria alcançar os demais 15 ODS no ano de 2094.
O relatório completo de 2022 está disponível para download neste link e possui uma série de gráficos, dados comparativos e análises dos resultados, com exemplos de boas iniciativas que vêm contribuindo para o avanço da Agenda 2030 e apresentação das graves dificuldades que devem ser vistas prioridade por todos os envolvidos no alcance das metas.
O futuro também nos pertence
Mais do que conhecer os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU e entender sua relevância na atual conjuntura dos problemas que o mundo vem enfrentando, a Agenda 2030 pode ser adotada por cada um de nós, de diversas formas. Dentro do contexto brasileiro, precisamos, primeiramente, tornar os ODS cada vez mais populares, compartilhando informações com contatos profissionais e círculos de relacionamento, é uma excelente iniciativa. Em seguida, incentivar, fiscalizar e cobrar a atuação dos setores público e privado, para que eles adotem estas metas e indicadores como um guia de gestão. Como membros da sociedade civil, devemos nos apropriar dos dados disponibilizados, com um olhar atento e crítico, para cobrar de cada setor a elaboração de políticas e ações, além de monitorar os resultados apresentados. Como consumidores devemos rever nossos hábitos de compra, priorizando empresas e marcas preocupadas em exercer um papel colaborativo com os ODS, que absorvam em sua gestão as metas relacionadas diretamente ao seu negócio e setor na economia, que combinem práticas reais com a definição ou revisão dos seus valores e propósito, a fim de priorizar a geração de impacto positivo.
Além disso, outras várias iniciativas podem ser tomadas quando nos entendemos como seres plurais, que além de bons cidadãos, nos envolvemos e nos conectamos com diversas ideias, em diferentes atividades, em várias frentes e pelos mais variados motivos e interesses. Como mãe ou pai, empreendedor, comunicador, funcionário de uma empresa, profissional liberal, acadêmico, ativista ou mesmo como uma boa vizinha, há várias maneiras de fazer parte deste enredo e contribuir, veja alguns exemplos:
– Escolha um ODS para atuar, de acordo com o segmento da sua empresa. Profissionais com ampla experiência de mercado, com habilidades, expertises e talento em determinadas áreas, podem trabalhar em conjunto e criar intersecções com os KPIs ou OKRs já estabelecidos no planejamento anual das suas organizações, avaliando como as entregas previstas podem também trazer resultados para os ODS, ampliando uma visão de futuro que vá além do seu crescimento como uma iniciativa privada e promova uma cadeia de valores que beneficiem outros envolvidos, como seus fornecedores e as comunidade do entorno da sua sede.
– Escolha um ODS para pesquisar, de acordo com o seu campo, sua linha e especialidade, gerando dados comprovados cientificamente e descobertas por meios de resultados empíricos que ajudem a construir embasamentos necessários para soluções e avanços que favoreçam o alcance das metas estabelecidas.
– Escolha um ODS para replicar notícias e informações, seja como professor, comunicador, speaker ou influenciador digital, promovendo espaços para reflexões, engajamento em sala de aula, fóruns de discussão, publicações especializadas ou veículos de comunicação, fomentando a expansão de ideias, o diálogo, a troca de conhecimentos e a inovação em toda e qualquer área que necessite de fontes confiáveis e conteúdo relevante para multiplicar os percursos que levem a oportunidades de melhorias para as causas já colocadas.
– Cobre retorno dos candidatos que ajudou a eleger e de maneira geral dos atuais políticos no poder, para focar na elaboração de projetos de leis, no cumprimento da atual legislação e na implementação de políticas públicas, seja nas esferas municipal, estadual e federal, que priorizem o uso sustentável dos recursos, combatam a corrupção e gerem desenvolvimento social, ambiental e econômico.
– Faça parte de grupos sociais, instituições e movimentos que já assumiram os ODS como parte do trabalho que realizam. O Instituto Capitalismo Consciente Brasil, ao qual faço parte como conselheira, é um deles, contribuindo direta e indiretamente com algumas metas dos ODS 8 e o 17, com o Programa Líderes do Futuro: primeiros passos, a produção de conteúdo para aulas e campanhas, como é o caso da Jornada ESG e do Podcast #MaisConsciente.
As possibilidades são muitas, e deste modo um papel que inicialmente pode parecer pequeno, começando dentro dos nossos lares, na doação do nosso tempo para a comunidade em que vivemos, se expande e ganha dimensões importantes, passando a envolver tudo em que nos dedicamos. Pensar antes de agir, uma prerrogativa simples, mas que muitas vezes não é colocada em prática nos pequenos gestos e nas coisas que já fazemos no piloto automático, pode contribuir para termos atitudes mais conscientes dos impactos que podemos gerar e que se refletem também em grandes causas, como os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU e iniciativas que priorizem o bem-estar, a evolução e a prosperidade de todos e a recuperação e conservação dos recursos do planeta.
Sobre Thaisa Bogoni
Mãe do Otto, esposa do Diogo, curitibana que recentemente mudou de João Pessoa para Belo Horizonte, feminista integrante do Projeto LIS e yogi na horas vagas. Publicitária, especialista em Marketing e Gestão de Projetos com mais de 15 anos de experiência no mercado, atuando em diversos segmentos como educação e tecnologia. Apaixonada pela área de comportamento do consumidor, dedico minhas pesquisas à pauta do consumo consciente e moda sustentável. Conselheira do Instituto Capitalismo Consciente Brasil na filial Nordeste, busco contribuir com a expansão, ações e parcerias da região.