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Inadimplência
Foto: Freepik

Desenrola 2.0 termina dia 31: saiba como renegociar sem voltar a se endividar

Programa permite descontos de até 90% e uso de parte do FGTS; especialista alerta para os riscos de assumir novas parcelas sem reorganizar o orçamento

28 de agosto de 2026

O prazo para adesão ao Desenrola 2.0, o Novo Desenrola Brasil, termina no próximo 31 de agosto. Criado pelo Governo Federal para apoiar famílias na renegociação de dívidas em atraso, o programa contempla pessoas físicas com renda mensal de até cinco salários mínimos, atualmente equivalente a R$ 8.105, e prevê condições diferenciadas para determinados débitos.
Entre as condições estão descontos de até 90%, taxa máxima de juros de 1,99% ao mês, prazo de até 48 meses e possibilidade de utilização de parte do saldo do FGTS para amortização ou quitação das dívidas. São elegíveis débitos de cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal (CDC) contratados até 31 de janeiro de 2026 e que estejam em atraso entre 91 dias e dois anos.
Para o PhD em Educação do Comportamento Financeiro Reinaldo Domingos, presidente da Associação Brasileiro de Profissionais de Educação Financeira (ABEFIN), porém, a proximidade do fim do prazo deve servir não apenas como um alerta para quem deseja renegociar, mas também como um momento de reflexão. Segundo ele, aceitar uma nova condição de pagamento sem avaliar a própria realidade financeira pode fazer com que uma solução emergencial se transforme em um novo ciclo de endividamento.
“A dívida não é o problema. A dívida é a consequência. O verdadeiro problema está no comportamento financeiro, na falta de organização, na ausência de planejamento e, principalmente, na inexistência de uma educação do comportamento financeiro estruturada no país”, alerta Reinaldo Domingos.
Renegociar não significa que o problema está resolvido

Na avaliação de Domingos, o Desenrola 2.0 pode ser uma ferramenta importante para famílias que precisam reorganizar dívidas, mas não deve ser encarado como uma solução isolada. “O Desenrola 2.0 reorganiza a dívida, mas não reorganiza a vida financeira. É como dar uma solução imediata para um problema que exige tratamento profundo. O sintoma pode até diminuir, mas a causa permanece”, afirma.
Por isso, o primeiro passo antes de procurar o banco deveria ser fazer um diagnóstico completo da situação financeira. O consumidor precisa saber exatamente quanto ganha, quanto gasta, quais são seus compromissos e qual valor poderá assumir mensalmente sem comprometer novamente o orçamento.
“Antes de aderir, é fundamental que cada pessoa faça um diagnóstico financeiro: quanto eu ganho, quanto eu gasto, para onde vai o meu dinheiro, quais são minhas prioridades e quais são meus objetivos. Sem essa análise, qualquer decisão será tomada com base na urgência, e não na consciência”, explica o especialista.
Parcela menor não significa dívida mais barata

Outro cuidado apontado por Domingos é não olhar apenas para o valor da parcela. Uma prestação que cabe aparentemente no orçamento pode esconder um compromisso financeiro longo ou representar um custo total que ainda pesa no bolso.
“Existe uma narrativa de que 1,99% ao mês é um juro baixo. Não é. No longo prazo, esse custo continua sendo elevado, especialmente para quem já está em situação de fragilidade financeira”, alerta. Por isso, antes de aceitar a renegociação, o consumidor deve verificar o saldo da dívida, o desconto concedido, a taxa de juros, o número de parcelas e, principalmente, quanto efetivamente pagará ao final do acordo.
A recomendação é que a pessoa não faça uma nova dívida apenas porque a parcela parece menor. O compromisso precisa ser compatível com a renda disponível depois de considerados todos os gastos essenciais da família.
FGTS deve ser usado com muita cautela

A possibilidade de utilizar parte do FGTS para amortizar ou quitar dívidas é outro ponto que merece atenção. A legislação do programa permite o uso de recursos do Fundo dentro das regras estabelecidas para a operação.

Para Reinaldo Domingos, entretanto, o trabalhador precisa avaliar cuidadosamente a decisão, já que o FGTS representa uma importante reserva para situações futuras. “O FGTS é a principal, e muitas vezes única, reserva financeira do trabalhador brasileiro. Ao permitir que esse recurso seja utilizado para pagar dívidas, estamos trocando uma segurança futura por um alívio imediato.”
Segundo ele, quitar uma dívida pode ser positivo em determinadas situações, mas utilizar a reserva sem corrigir o comportamento financeiro pode deixar a pessoa mais vulnerável: “Se o trabalhador utilizar o FGTS sem mudar seu comportamento, pode até sair da dívida agora, mas ficará mais vulnerável no futuro. E o mais grave: poderá voltar ao endividamento sem a reserva que tinha antes.”
Limpar o nome não pode significar voltar imediatamente ao crédito

Para Domingos, outro risco está na sensação de que a vida financeira foi resolvida simplesmente porque uma dívida foi renegociada: “Sem educação financeira, o ciclo tende a se repetir: a pessoa renegocia a dívida, limpa o nome, volta a ter acesso ao crédito e, em pouco tempo, retorna ao endividamento. Isso não é solução. É adiamento do problema.”
O especialista explica que o crédito deve ser utilizado como ferramenta de planejamento e realização de objetivos, e não como extensão permanente da renda: “Muitas famílias utilizam o crédito como extensão da renda. Não porque querem, mas porque precisam. Vivemos uma realidade de perda do poder de compra, em que os reajustes salariais não acompanham o aumento do custo de vida. Sem orientação, o crédito passa a ser a única alternativa e também o maior risco.”
É preciso descobrir o que levou ao endividamento

A renegociação também deve ser acompanhada de uma revisão dos hábitos financeiros. Para Domingos, não adianta reorganizar as dívidas sem identificar quais despesas, comportamentos ou decisões levaram à situação de inadimplência. “Como podemos combater a causa do problema do desequilíbrio financeiro se não há uma preocupação efetiva com o conhecimento e a consciência na utilização dos recursos financeiros e da cadeia de créditos concedidos, que se transformam em dívidas?”, questiona.
Nesse processo, ele recomenda revisar gastos, identificar desperdícios, estabelecer prioridades e definir objetivos financeiros. A ideia é que a renegociação seja o início de uma transformação, e não apenas uma pausa no problema. “Enquanto não tratarmos a educação do comportamento financeiro como prioridade, continuaremos assistindo a programas que aliviam o presente, mas podem comprometer o futuro”, alerta Reinaldo Domingos.
Cinco cuidados antes de aderir ao Desenrola 2.0

Para quem pretende aproveitar o prazo até 31 de agosto, Reinaldo Domingos recomenda alguns cuidados básicos:

  1. Faça um diagnóstico financeiro
    Antes de negociar, coloque no papel todas as receitas, despesas e dívidas da família.
  2. Confira se a parcela realmente cabe no orçamento
    Não considere apenas o valor da prestação. Avalie se ela poderá ser paga todos os meses sem recorrer novamente ao crédito.
  3. Analise o custo total da renegociação
    Verifique o desconto, os juros, o número de parcelas e o valor final que será desembolsado.
  4. Pense duas vezes antes de utilizar o FGTS
    A utilização da reserva pode aliviar a situação no presente, mas também reduz a proteção financeira para o futuro.
  5. Mude o comportamento depois da renegociação
    É necessário rever gastos, desperdícios, prioridades e a utilização do crédito para evitar que uma nova dívida seja formada.

Atenção aos canais de negociação

O Governo Federal orienta que o cidadão procure diretamente os canais oficiais da instituição financeira que possui a dívida para verificar as condições disponíveis e formalizar a renegociação. O Ministério da Fazenda também alerta para golpes e informa que não envia links, mensagens digitais ou SMS para oferecer renegociação.
O serviço é gratuito para o cidadão e, de acordo com a página oficial, permanece disponível até 31 de agosto de 2026.
Renegociação deve ser o começo, não o fim

Na avaliação de Reinaldo Domingos, programas de renegociação têm sua importância, principalmente para quem está sufocado por dívidas e precisa de uma oportunidade para reorganizar a vida financeira. O problema está em acreditar que a renegociação, sozinha, resolverá a situação. “Programas de renegociação são necessários. Eles podem representar uma oportunidade real de recomeço. Mas só fazem sentido quando acompanhados de mudança de comportamento.”
Para ele, a verdadeira solução passa pela educação do comportamento financeiro, pela organização do orçamento e pela definição de objetivos. “O Desenrola pode, sim, ser uma oportunidade. Mas, sem mudança de comportamento, será apenas mais um capítulo de um ciclo que insiste em se repetir”, conclui.

Fonte: Assessoria