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festa junina
Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Economia Criativa: preservar a identidade para gerar desenvolvimento

Regina Amorim debate a descaracterização das festas juninas e defende a valorização da cultura local como estratégia de desenvolvimento e economia criativa.

10 de agosto de 2026

A cultura perpassa todos os aspectos da vida da sociedade e sem ela os planos de desenvolvimento sempre serão incompletos e tendem ao insucesso. Isso nos faz refletir o quanto as nossas instituições e políticas públicas ainda são frágeis, dependentes das mudanças de poder e da maior ou menor sensibilidade dos políticos e dirigentes, com relação à economia da cultura. O subsídio de recursos públicos não tem contribuído para a efetiva gestão dos negócios criativos e culturais, deixando-os sem estratégias de mercado.

As festas populares brasileiras organizadas pelos poderes públicos, não caracterizam a cultura autêntica dos territórios. O povo é quem sabe fazer a festa, criar suas ofertas lúdicas, que valorizam a ancestralidade e a tradição. O conhecimento sobre o benefício da preservação da cultura é muito pequeno, em relação ao benefício da sua riqueza.

A descaracterização da cultura junina é um exemplo do mal uso, por parte de alguns gestores públicos, para atender à interesses de grandes investidores que não têm nenhum compromisso com a identidade cultural dos municípios brasileiros. A festa junina caracteriza-se pelas relações culturais, sociais e familiares, o simbolismo, as expressões artísticas e cenográficas.

Pergunto: O que une, separa ou aproxima as diferentes motivações de uma festa junina? Qual é o significado da cultura junina para os participantes que se interessam pelas suas práticas lúdicas? A movimentação econômica dos megaeventos de festas populares, certamente atende aos interesses de fornecedores, empreendedores, patrocinadores, políticos, a população local e ao turismo de massa. Isso é comum em todos os grandes shows, independente do gênero musical. Todos atraem multidões e atendem aos propósitos político-eleitoreiros.

O caráter original de um evento junino, como uma festa de memória cultural, aos poucos deixa de ser valorizado, como identidade regional autêntica e passa a ser um evento globalizado e econômico, que insiste em mudar a cultura legítima local, sem dar continuidade a ancestralidade, a inclusão do forró pé de serra, ao coco de roda, a banda cabaçal, a moda junina e a culinária regional.

Temos onze meses do ano para realizar shows de todos os ritmos e gêneros musicais, tais como o samba, o rock, o sertanejo, MPB, o frevo, a música clássica e outros. Por que só na festa junina é que podemos descaracterizá-la? O que vamos vivenciar quando viajamos para megaeventos tais como: Festival Rock in Rio (RJ), Festa do Boi de Parintins (AM), Peão de Boiadeiro de Barretos (SP)?

Para mim fica bem latente a baixa autoestima e a falta de pertencimento, dos gestores públicos e da população em geral. É possível sim, usar a criatividade e inovar sem descaracterizar. Toda a população local é capaz de dar uma grande contribuição para que a festa junina tenha “personalidade turística paraibana”, seja criativa, inovadora e autêntica. A identidade do turismo cultural regional precisa ser mais bem projetada, com a valorização das expressões simbólicas do ciclo junino. Muitas festas de São João carecem de singularidade, porque preferem valorizar o que é de outra região do país, excluindo a alma e a personalidade da cultura junina autêntica.

Destaco a atenção para o fato de que as artes, a cultura junina popular, a gastronomia, o audiovisual, a moda autoral, o artesanato, são oportunidades de negócios criativos rentáveis e sustentáveis. O que falta é gestão empresarial, como acontece em qualquer atividade econômica. Nesse contexto, torna-se necessária política pública para a participação dos atores culturais, em diversos treinamentos sobre gestão financeira, acesso a mercado, melhoria de design, marketing digital, parcerias e conexões com mercados consumidores.

A arte e a cultura, como núcleo da economia criativa, dão visibilidade e possibilitam novos caminhos para o desenvolvimento socioeconômico. Já não se trata mais de proteger a cultura, mas enxergá-la como valor maior das cidades criativas, onde os pequenos negócios alimentam a diversidade, a riqueza e a criatividade dos diversos territórios, aqui e em qualquer lugar do mundo.

Regina Amorim

Foto: Linkedin

Sobre Regina Amorim 

É gestora de Turismo e Economia Criativa do Sebrae/PB. Formada em Economia pela UFPB, 1980, com Especialização em Gestão e Marketing do Turismo pela UNB – Universidade de Brasília e com Mestrado em Visão Territorial para o Desenvolvimento Sustentável, pela Universidade de Valência – Espanha e Universidade Corporativa SEBRAE.

Fonte: Regina Amorim