Compras digitais já representam 16,6% das vendas em farmácias, aponta pesquisa
Levantamento mostra avanço das compras por WhatsApp e delivery, enquanto especialistas destacam a importância da eficiência operacional para preservar a rentabilidade.
17 de julho de 2026
A transformação digital está redefinindo o varejo farmacêutico brasileiro. A expansão das compras realizadas por WhatsApp, aplicativos, marketplaces e serviços de delivery mostra que a tecnologia deixou de ser apenas uma ferramenta de apoio para se tornar parte central da jornada de compra dos consumidores. Ao mesmo tempo em que abre novas oportunidades de crescimento, essa evolução exige que as empresas ampliem sua capacidade de integrar canais, controlar custos e utilizar dados para tomar decisões mais eficientes.
Dados da Pesquisa de Comportamento do Consumidor em Farmácias 2026, realizada pelo IFEPEC (Instituto Febrafar de Pesquisa e Educação Corporativa), revelam que 16,6% dos consumidores já realizam compras não presenciais. O WhatsApp lidera esse movimento e é utilizado por 13,3% dos entrevistados para adquirir produtos farmacêuticos, percentual que mais do que dobrou em relação à edição anterior do levantamento.
Realizada com 4 mil consumidores em todas as regiões do país, a pesquisa evidencia uma mudança estrutural na forma como os brasileiros se relacionam com as farmácias. Embora a proximidade e a confiança continuem sendo atributos importantes, conveniência, rapidez e facilidade de compra passaram a ocupar papel central na decisão dos consumidores.
O movimento acompanha uma tendência observada em diversos segmentos do varejo, na qual a experiência de compra deixa de estar restrita ao ambiente físico e passa a integrar diferentes pontos de contato digitais. Para as farmácias, isso significa construir operações capazes de atender o cliente de forma fluida, independentemente do canal escolhido.
Segundo Stephenson Seleber, sócio-fundador e presidente da Alpha7 Desenvolvimento de Software, a digitalização do setor já não está relacionada apenas à criação de novos canais de venda, mas à capacidade das empresas de conectar tecnologia, operação e inteligência de dados. “Estamos vendo uma mudança profunda no comportamento do consumidor. Hoje a venda pode começar no WhatsApp, passar pelo sistema de gestão, ser concluída por delivery e ainda gerar informações valiosas sobre hábitos de compra. O desafio das farmácias não é apenas estar presente nesses canais, mas integrar toda essa jornada de forma eficiente, segura e rentável”, afirma.
O desafio da rentabilidade na era digital
A evolução dos canais remotos levou muitas farmácias a ampliarem investimentos em atendimento digital, logística de entrega, marketplaces, aplicativos e ferramentas de relacionamento com clientes. Entretanto, especialistas alertam que o crescimento das vendas digitais nem sempre é acompanhado pelo aumento da rentabilidade.
Para Seleber, um dos principais desafios do setor é justamente garantir que a conveniência oferecida ao consumidor seja sustentável financeiramente. “A digitalização deixou de ser uma escolha. O consumidor está comprando pelo WhatsApp, aplicativos e outros canais remotos. Porém, muitas empresas ampliaram sua presença digital sem calcular corretamente todos os custos envolvidos. Em diversos casos, o faturamento cresce, mas a margem diminui”, explica.
Por trás da experiência digital existem despesas que nem sempre são consideradas de forma adequada na gestão das operações. Entre elas estão as comissões cobradas por marketplaces, taxas de aplicativos, despesas com motoboys, logística de entrega, combustível, manutenção de veículos, taxas de meios de pagamento, integrações tecnológicas e subsídios de frete gratuito.
Segundo o executivo, o problema não está na expansão dos canais digitais, mas na ausência de indicadores capazes de mensurar o impacto real dessas operações. “Quando os custos não são monitorados adequadamente, a operação digital pode se transformar em um fator de erosão das margens. A tecnologia precisa gerar inteligência para apoiar decisões e não apenas ampliar o volume de vendas”, destaca.
Dados ganham protagonismo nas decisões do varejo
O cenário torna-se ainda mais desafiador diante das mudanças no perfil de consumo observadas pela pesquisa do IFEPEC. O levantamento aponta que 12,6% dos consumidores afirmam não conseguir adquirir todos os medicamentos desejados devido a limitações financeiras, percentual superior ao registrado em anos anteriores.
Ao mesmo tempo, cresce a participação dos medicamentos genéricos nas cestas de compra. Em 2021, eles representavam 27,6% das aquisições dos consumidores. Em 2026, esse índice alcançou 32,1%. Os dados revelam um consumidor mais atento ao custo-benefício das compras, mas não necessariamente focado apenas no menor preço. Elementos como conveniência, confiança, rapidez na entrega, qualidade do atendimento e programas de fidelidade influenciam cada vez mais as decisões.
Nesse contexto, a utilização estratégica de dados passa a ser um diferencial competitivo para as farmácias. “Muitas empresas ainda acreditam que competir significa apenas reduzir preços. Essa é uma estratégia cada vez mais arriscada. O consumidor busca conveniência, relacionamento e benefícios que façam sentido para sua realidade. Quanto mais a farmácia conhece seu cliente, maior sua capacidade de oferecer a solução adequada sem depender exclusivamente de descontos”, afirma Seleber.
Segundo ele, sistemas de gestão integrados, análise de comportamento de compra e inteligência de dados permitem desenvolver campanhas mais assertivas, programas de fidelização mais eficientes e estratégias comerciais capazes de preservar as margens mesmo em ambientes altamente competitivos.
A consolidação do modelo omnichannel
A pesquisa também revela que o varejo farmacêutico atravessa três grandes transformações simultâneas: a digitalização da jornada de compra, o envelhecimento da população consumidora e a crescente demanda por conveniência e serviços.
Além do avanço das compras remotas, o levantamento mostra que 64,5% dos consumidores já participam de programas de fidelidade e que os clientes acima de 60 anos representam uma parcela cada vez mais relevante para o setor.
Esse cenário tem impulsionado investimentos em tecnologia, automação, relacionamento e integração entre canais físicos e digitais. Mais do que disponibilizar novos meios de compra, as farmácias precisam construir uma experiência unificada, capaz de acompanhar o consumidor em todas as etapas da jornada.
Para Seleber, o futuro do setor será definido pela capacidade das empresas de transformar dados em decisões estratégicas. “O próximo estágio da transformação digital das farmácias não é simplesmente vender online. É utilizar tecnologia para entender o comportamento do cliente, otimizar operações, reduzir desperdícios e criar uma experiência integrada entre o físico e o digital. Quem conseguir transformar dados em gestão terá uma vantagem competitiva significativa nos próximos anos.”
O executivo acredita que o delivery e os canais remotos continuarão crescendo de forma consistente. No entanto, o diferencial competitivo estará na capacidade de equilibrar experiência, tecnologia e eficiência operacional. “O digital já faz parte da rotina do consumidor. O desafio agora não é apenas vender pelos novos canais, mas garantir que toda a operação seja sustentável. As farmácias que conseguirem unir experiência, inteligência de dados, automação e controle de custos estarão mais preparadas para crescer de forma saudável e consistente”, conclui.
