Novo índice vai medir condições do empreendedorismo feminino nos municípios brasileiros
Novo índice vai mapear os desafios enfrentados pelos municípios para destravar crédito e apoiar mulheres que empreendem
17 de julho de 2026
Mais do que identificar onde é mais fácil ou mais difícil empreender, um novo índice pretende revelar o que está por trás das oportunidades — ou da falta delas — para milhões de mulheres brasileiras. Desenvolvido pelo Sebrae em parceria com o Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte (MEMP), o Índice Municipal de Empreendedorismo Feminino (IEFM) está em fase piloto em dez cidades das cinco regiões do país e reunirá indicadores sobre acesso ao crédito, tecnologia, mercado, educação empreendedora e suporte político-institucional.
A proposta é transformar dados em estratégias capazes de fortalecer os ecossistemas locais e ampliar as chances de sucesso de quem decide empreender. Embora seja baseado em indicadores, o IEFM nasce a partir das experiências reais de mulheres empreendedoras. Além da análise de bases públicas, a metodologia inclui visitas técnicas, entrevistas e diagnósticos territoriais para compreender os desafios enfrentados em cada cidade.
De acordo com a gestora do Sebrae Delas, Renata Malheiros Henriques, o objetivo não é criar um ranking entre cidades, mas oferecer um instrumento capaz de orientar decisões mais eficientes. “O índice mostrará onde estão as principais barreiras enfrentadas pelas mulheres em cada município e quais são os pontos fortes de cada território. A partir desse diagnóstico, será possível construir planos de ação específicos e estimular a troca de boas práticas entre os municípios”, destaca.
Uma das cidades escolhidas para validar a metodologia é Parintins (AM), onde a professora e empreendedora cultural Irian Butel transformou a pandemia em uma oportunidade de recomeço. Depois de retomar os estudos sobre editais públicos e apoiar artistas locais, ela ajudou a aprovar cerca de 40 projetos culturais e, em 2024, formalizou a empresa especializada em elaboração de projetos e consultoria técnica para agentes culturais. Para Irian, o maior desafio foi reconhecer a própria trajetória como uma experiência empreendedora.
“Nunca me vi como empreendedora. Trabalhar com ideias e depois materializar essas ideias em resultados nem sempre é algo fácil de visualizar. Hoje tenho um grupo fidelizado de artistas assessorados e espero que iniciativas como o índice contribuam para ampliar o acesso ao crédito e ao mercado, porque os caminhos para o empreendedorismo feminino ainda são mais difíceis”, afirma.
Também em Parintins, a empreendedora Sarah Reis, proprietária dos negócios Salgadinho Legal e Ilha dos Personalizados, cresceu em uma família de empreendedores e sempre enxergou no próprio negócio a principal alternativa de geração de renda. Ainda assim, ela afirma que transformar esse sonho em realidade exigiu superar um obstáculo comum entre mulheres que iniciam uma empresa: o acesso ao crédito.
“Sem capital é muito mais difícil fazer o projeto acontecer. Quando você ainda não tem histórico com instituições financeiras, conseguir financiamento leva mais tempo e isso impacta diretamente o crescimento do negócio”, relata. Para Sarah, a criação do índice representa um passo importante para que políticas públicas sejam construídas a partir da realidade vivida pelas mulheres.
Entre os indicadores avaliados pelo IEFM estão a oferta de creches, participação feminina na política, acesso ao crédito, presença de mulheres em cursos de ciência e tecnologia (STEM), educação empreendedora e condições para inserção no mercado. A escolha desses fatores reflete desafios frequentemente apontados pelas próprias empreendedoras.
Sarah, por exemplo, acredita que ampliar a oferta de creches públicas pode fazer diferença para milhares de mulheres que conciliam maternidade e gestão do negócio. “Quando você sabe que seu filho está bem cuidado, consegue empreender com muito mais tranquilidade. Para muitas mães, especialmente as que chefiam a família, isso muda completamente a rotina e as possibilidades de crescimento”, observa.
Índice Municipal de Empreendedorismo Feminino
Após a conclusão da fase piloto, prevista para o segundo semestre deste ano, o Sebrae pretende automatizar a metodologia para todos os municípios brasileiros, permitindo que gestores públicos, instituições de apoio e lideranças locais utilizem os resultados para formular políticas mais eficazes. Os municípios-piloto são: Parintins (AM), Macapá (AP), Imperatriz (MA), Juazeiro (BA), Lucas do Rio Verde (MT), Anápolis (GO), Volta Redonda (RJ), Suzano (SP), Lages (SC) e Pelotas (RS).
A expectativa é que o IEFM ajude a reduzir desigualdades regionais, ampliar o acesso das mulheres ao crédito, à tecnologia, ao mercado e à educação empreendedora e fortalecer ambientes de negócios mais inclusivos. Afinal, como resume Renata Malheiros Henriques, “aquilo que é medido pode ser melhorado”.
Fonte: ASN