Natália Mendonça: “Crescer não é sobre fazer mais, mas sobre tomar decisões mais conscientes”
Consultora estratégica pra confeiteiras defende que crescimento na área depende mais de gestão e estratégia do que apenas da técnica
2 de abril de 2026
Com 17 anos de experiência na alta confeitaria, Natália Mendonça transformou o que antes era execução em estratégia — e hoje ajuda confeiteiras a fazerem o mesmo. Depois de formar mais de 10 mil alunos em 107 países e levar suas aulas presenciais a mais de 20 cidades, ela passou a olhar além da técnica: enxergou que o verdadeiro crescimento não está só no fazer, mas em como estruturar um negócio.
Foi assim que nasceu o “2º Andar da Confeitaria”, um método que propõe uma virada de chave: sair do operacional e assumir uma visão mais estratégica, organizada e lucrativa. Com consultorias personalizadas e foco em resultados reais, Natália direciona confeiteiras que já dominam a produção, mas ainda enfrentam dificuldades para crescer, precificar e ganhar escala.
Nesta entrevista, ela compartilha aprendizados da própria trajetória e revela por que tantas profissionais travam — mesmo sendo talentosas — e o que, de fato, precisa mudar para transformar a confeitaria em um negócio sólido.
Você tem uma trajetória consolidada na alta confeitaria e hoje atua com consultoria. Em que momento percebeu que seu conhecimento poderia se transformar em um negócio escalável?
Em dois momentos. Primeiro, quando dei a minha primeira aula, em 2012. Foi um workshop a convite de uma escola de inglês e foi ali que eu vi que o que eu tinha aprendido na produção, ao repetir e aperfeiçoar receitas incansavelmente, podia ser útil para outras pessoas.
Segundo, em 2014, quando meu Instagram começou a crescer e passei a responder perguntas de confeiteiros do mundo todo que tinham dificuldade com os macarons e outros doces. Percebi que o meu método de produção e a minha experiência poderiam ajudar e facilitar o trabalho de muita gente.
Como você enxerga o mercado de confeitaria na Paraíba e no Nordeste hoje? Ainda há espaço para crescimento?
Sempre há espaço para profissionais que se destacam pela qualidade e consistência. Décadas atrás, os maiores nomes da confeitaria se concentravam no Sudeste e Sul do país. Fico extremamente feliz em ver que o Nordeste (principalmente a Paraíba) tem grandes talentos reconhecidos por todo o Brasil. Essa descentralização mostra que o importante é se aperfeiçoar como profissional em todos os ângulos – no estudo, na técnica, no acabamento, na pontualidade, na organização, no gerenciamento, entre outros. Sempre existe mercado para quem está disposto a se melhorar em todos os aspectos. “Melhorar a cada dia” é uma máxima que me ajuda até hoje.
Muitas confeiteiras dominam a técnica, mas não conseguem crescer. Onde está o principal gargalo: na execução ou na gestão do negócio?
Na gestão, na grande maioria dos casos. Muitas começam como eu comecei: como um hobby rentável e com zero noção de negócios.
Eu fui aprendendo sobre precificação, gerenciamento e otimização da produção na prática, à medida que o meu trabalho ia ganhando um novo alcance.
A maioria das confeiteiras são excelentes artistas, mas muitas não têm o tino para negócios. O que é normal, a gente não nasce com todas as habilidades. Mas é importantíssimo reconhecer isso e se dedicar a aprender não só sobre receitas, se quiser realmente crescer.
O que significa, na prática, “subir para o 2º andar da confeitaria” e como isso impacta os resultados financeiros?
“Subir para o 2º andar da confeitaria” significa sair do operacional e passar a conduzir o negócio com estratégia. Na prática, envolve ajustar pontos-chave como cardápio, precificação, nicho de atuação, fluxo de produção, gestão e estratégias de venda. Com o negócio estruturado, o aumento de faturamento deixa de depender de mais horas de trabalho e passa a vir de decisões mais eficientes. Isso abre espaço para crescer com mais organização, previsibilidade e margem.
A precificação ainda é um grande desafio no setor. Qual é o erro mais comum e como corrigi-lo de forma estratégica?
Um dos maiores erros é se basear em achismos. No que você acha que merece ganhar, no que acha que estão vendendo por aí… Precificação depende de dados, de mercado, de posicionamento e modelo de cada negócio. A maior parte das confeiteiras desvaloriza muito o próprio trabalho. O preço de venda precisa refletir o seu produto e a sua marca, não as inseguranças. E é muito mais fácil ter essa mudança de percepção com a ajuda de alguém que já passou pelas mesmas coisas, e vai orientar nesse processo.
Você fala em aumentar o faturamento sem aumentar a carga de trabalho. Quais ajustes são essenciais para isso acontecer?
Na confeitaria, todas as medidas são calculadas, não existem aquelas pitadinhas disso ou daquilo, como na cozinha quente. Assim também existem métodos precisos para aumentar a produtividade que podem ser usados mesmo numa cozinha de casa, com poucos recursos.
Planejar e organizar a produção – cardápio, ficha técnica, compras, armazenamento e congelamento – é uma das grandes chaves para isso. Não é sobre trabalhar mais, é sobre trabalhar certo.
Sua consultoria é altamente personalizada. Por que soluções prontas não funcionam para quem quer crescer de verdade?
Porque soluções prontas não consideram a realidade de cada negócio. Cada confeiteira tem um momento, uma estrutura e objetivos diferentes. Na prática, muitas sabem o que precisa ser feito, mas não conseguem aplicar isso dentro da própria rotina. O meu papel é justamente adaptar a estratégia para cada caso, considerando os recursos disponíveis e o estágio do negócio. Por isso, soluções genéricas dificilmente funcionam – o que gera resultado é direção personalizada e aplicável no dia a dia.
Para uma confeiteira que quer sair do nível operacional e construir um negócio sólido, qual é o primeiro passo?
O primeiro passo é ter clareza sobre o que ela quer construir como negócio. Muitas confeiteiras ficam presas no operacional, porque não param para definir um direcionamento: que tipo de produto querem vender, para qual público, com qual rotina e qual objetivo financeiro.
A partir dessa clareza, fica mais fácil identificar os principais gargalos – seja na precificação, na organização da produção ou na forma de vender. Depois, é começar a ajustar o negócio de forma estratégica. Crescer não é sobre fazer mais, mas sobre tomar decisões mais conscientes e alinhadas com esse objetivo.