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Foto: Divulgação

Endividamento por apostas online impacta empresas e gera crise silenciosa no mercado de trabalho

Pesquisas revelam que 42% dos apostadores estão endividados; afastamentos por ludopatia no INSS disparam 2.300% em 2 anos

30 de junho de 2025

A explosão das plataformas de apostas — as chamadas bets — vem se consolidando como um problema econômico e social silencioso. Segundo dados da pesquisa DataSenado, divulgada no fim de 2024, 42% dos brasileiros que disseram apostar em esportes estavam endividados, número que representa mais de 20 milhões de pessoas com mais de 16 anos. A maioria dos entrevistados tinha contas atrasadas há mais de três meses.

Uma análise da fintech Klavi também apontou que o número de pessoas endividadas que apostaram em 2024 aumentou significativamente: o percentual saltou de 4% para 10,6%, um crescimento de 6,6 pontos percentuais. No mesmo período, apenas 8% dos apostadores conseguiram algum ganho financeiro — enquanto 29% dos 400 mil analisados fizeram apostas nos últimos 12 meses.

Além do endividamento, o impacto da ludopatia começa a aparecer com força nos dados da Previdência Social. Um estudo divulgado recentemente pelo Intercept Brasil revelou que o número de benefícios por ludopatia (vício em apostas) concedidos pelo INSS cresceu mais de 2.300% entre junho de 2023 e abril de 2025. Foram 276 auxílios-doença no período, a maioria deles para pessoas entre 30 e 39 anos, empregadas formalmente e afastadas por incapacidade temporária.

“É um dado que revela uma face ainda pouco discutida da crise das apostas, o impacto direto na capacidade de trabalho e na saúde mental de pessoas em idade produtiva”, destaca Caren Benevento, sócia da Benevento Advocacia e pesquisadora do GETRAB (Grupo de Estudos do Trabalho) da Faculdade de Direito da USP.

“Estamos falando de um problema que migra rapidamente da esfera individual para o ambiente corporativo.”

De acordo com Caren, o comportamento financeiro desordenado impulsionado pela facilidade de acesso às apostas e pela baixa educação financeira, tem gerado efeitos visíveis dentro das empresas.

“O número crescente de trabalhadores que recorrem a adiantamentos salariais, empréstimos consignados ou renegociação de dívidas é um indicativo claro de que o problema está generalizado e afeta as estruturas de trabalho”, afirma. “E, muitas vezes, cabe à empresa lidar com os efeitos colaterais de um vício digital sem qualquer preparo prévio.”

Na avaliação da advogada, o desafio está em ampliar a responsabilidade empresarial sem ignorar os limites institucionais. “O papel das empresas não é substituir o Estado, mas é inegável que elas são parte ativa desse ecossistema — e, por isso, precisam rever políticas internas, incorporar práticas de educação financeira e criar ambientes mais atentos ao bem-estar financeiro e emocional dos colaboradores.”

Caren também reforça a urgência de um debate regulatório. “Hoje temos plataformas de apostas operando com alto poder de influência, sem contrapartidas claras em termos de responsabilidade sobre o impacto que causam. Essa conta está sendo repassada à sociedade — e às empresas indiretamente. Ignorar este movimento é também um risco jurídico e financeiro para toda a qualquer empresa”, avalia a advogada.

Fonte: Assessoria