Infarto em jovens acende alerta para uso indiscriminado de substâncias e hábitos de risco
Cardiologista e professor da Afya Paraíba chama atenção para o consumo excessivo de substâncias que podem comprometer a saúde cardiovascular
23 de outubro de 2026
A ideia de que o infarto é um problema restrito a pessoas mais velhas já não corresponde ao cenário observado pelos especialistas. A maior presença de fatores de risco entre adultos jovens, associada a mudanças no estilo de vida e ao uso indiscriminado de determinadas substâncias, tem colocado a saúde cardiovascular de pessoas com menos de 45 anos no radar da medicina.
Dados do Ministério da Saúde apontam que as internações por infarto entre pessoas de até 39 anos cresceram 59% em uma década, enquanto o número de mortes nessa faixa etária aumentou 9% no mesmo período. O cenário chama atenção para a presença cada vez mais precoce de condições como hipertensão, obesidade, diabetes e alterações do colesterol, além de hábitos como sedentarismo, tabagismo, alimentação inadequada e exposição frequente ao estresse.
Para o cardiologista e professor da Afya Paraíba, Alexandre Negri, um ponto que merece atenção é o consumo de substâncias sem indicação ou acompanhamento adequado. Segundo ele, a combinação de diferentes produtos, muitas vezes utilizados com objetivos estéticos ou de desempenho, pode representar um risco importante para o sistema cardiovascular.
“É uma questão que precisa ser muito bem definida, porque a tendência é que o número de infartos em pessoas mais novas aumente cada vez mais. Estamos vendo um consumo exagerado de substâncias ilícitas e também de hormônios. Há pessoas fazendo reposição hormonal sem qualquer necessidade clínica, inclusive mulheres jovens utilizando testosterona sem indicação”, alerta o professor.
O médico também destaca o consumo excessivo de produtos estimulantes, muitas vezes associados entre si. “Temos ainda o uso exacerbado de energéticos, inclusive associados a álcool, hormônios e medicamentos, além de termogênicos e pré-treinos. Tudo isso sendo utilizado de maneira inadequada, intensa e excessiva. Existem estudos mostrando alterações e repercussões dessas substâncias sobre o sistema cardiovascular”.
A combinação de estimulantes também preocupa
A preocupação não está necessariamente relacionada ao consumo de uma única substância, mas à soma de diferentes produtos ao longo do dia e às associações feitas sem orientação profissional. Bebidas energéticas, café, pré-treinos e termogênicos podem contribuir para uma ingestão elevada de cafeína e outros estimulantes.
Para a maioria dos adultos saudáveis, a Food and Drug Administration (FDA) considera que até 400 mg de cafeína por dia geralmente não está associada a efeitos negativos. A quantidade, no entanto, pode variar conforme características individuais e condições de saúde, e algumas bebidas energéticas apresentam concentrações significativas da substância.
Alexandre Negri chama atenção justamente para o consumo sem controle. “Quando falamos em cafeína, por exemplo, uma pessoa pode pensar que está apenas tomando café. Uma lata pequena de energético pode ter cerca de 182 mg, enquanto uma maior pode chegar a 280 mg. Então, dependendo do consumo, há um excesso importante. As pessoas estão utilizando essas substâncias em quantidades exageradas e sem indicação”, explica.
O problema pode ganhar outra dimensão quando estimulantes são combinados com álcool, medicamentos ou outros produtos utilizados para melhorar o desempenho físico. Por isso, a avaliação individual é importante antes do uso de qualquer substância com potencial de interferir no funcionamento cardiovascular.
Cigarro eletrônico, cigarro convencional e maconha entram no alerta
O tabagismo continua sendo um importante fator de risco para a saúde do coração, mas a popularização dos dispositivos eletrônicos entre os mais jovens trouxe uma preocupação adicional. A exposição à nicotina e a outras substâncias presentes nesses produtos pode afetar o organismo, e entidades médicas vêm alertando para os riscos associados ao consumo.
A cannabis também aparece entre os fatores que, segundo o professor, merecem atenção. “Existem trabalhos mostrando uma associação entre o consumo de cannabis e doenças cardiovasculares. Ela pode estar relacionada a eventos como infarto e AVC, além de outras repercussões cardiovasculares”, afirma o cardiologista.
O médico chama atenção, principalmente, para a percepção de que determinadas substâncias seriam inofensivas por serem socialmente aceitas ou por apresentarem uma imagem de menor risco. “Em alguns casos, a cannabis é vista como algo que não oferece grandes consequências. Mas não é bem assim. O consumo excessivo precisa ser encarado com seriedade, principalmente quando estamos falando de saúde cardiovascular”.
Fatores de risco e sinais de alerta
Apesar da atenção crescente ao uso de substâncias, fatores tradicionais continuam entre os principais riscos cardiovasculares em pessoas jovens:
* Sedentarismo, obesidade e alimentação inadequada
* Hipertensão, diabetes e colesterol elevado
* Tabagismo e estresse crônico
Histórico familiar de infarto ou outras doenças cardiovasculares, especialmente em idade precoce
A ausência de doenças conhecidas também não significa que uma pessoa jovem esteja protegida. Entre os principais sinais de alerta estão:
* Dor ou pressão no peito
* Falta de ar
* Suor frio, náusea ou tontura
* Cansaço intenso
* Dor que se espalha para braços, costas, pescoço ou mandíbula
Esses sintomas não devem ser atribuídos automaticamente à ansiedade ou ao cansaço. Diante de sinais compatíveis com infarto, é fundamental procurar atendimento de emergência imediatamente.
Prevenção começa antes dos primeiros sintomas
A prevenção cardiovascular passa pelo acompanhamento de fatores como pressão arterial, colesterol, glicemia e peso, além da prática regular de atividade física, alimentação equilibrada e abandono do tabagismo. Para pessoas com histórico familiar de doenças cardiovasculares, o acompanhamento pode ser ainda mais importante.
“Há casos de médicos que prescrevem hormônios sem uma indicação precisa, além de profissionais de outras áreas que fazem uso dessas substâncias. O problema é que até pessoas sem conhecimento na área da saúde conseguem comprar e utilizar esses produtos por conta própria. Isso está errado e é muito perigoso. Há pessoas morrendo em decorrência desse tipo de prática”, alerta o cardiologista.
O alerta mostra uma questão central para a saúde cardiovascular dos jovens: não basta considerar apenas a idade. Histórico familiar, condições de saúde, hábitos cotidianos e uso de substâncias precisam fazer parte da avaliação individual. A prevenção, nesse sentido, começa antes que apareça qualquer sinal de que o coração está sendo afetado.

