Mercado de remédios para emagrecer caminha para US$ 100 bilhões e coloca patentes no centro da disputa
Expansão de novos medicamentos e entrada de concorrentes levantam questões sobre preços, propriedade intelectual e acesso à saúde
24 de setembro de 2026
A corrida da indústria farmacêutica por novas opções de medicamentos para tratamento da obesidade deve ganhar ainda mais força nos próximos anos, especialmente diante da expansão dos tratamentos orais e da perspectiva de lançamento de novos produtos no segmento.
A Novo Nordisk, fabricante de Ozempic e Wegovy, anunciou planos de lançar ao menos cinco novos medicamentos até 2030, em um novo capítulo de uma disputa entre grandes farmacêuticas que já movimentam cifras bilionárias e coloca no centro da discussão questões relacionadas à proteção de patentes, entrada de concorrentes, formação de preços e acesso da população aos tratamentos.
Para a advogada Thaluana Alves, a dimensão econômica desse mercado ajuda a explicar a importância da disputa pela propriedade intelectual e pelo desenvolvimento de novas tecnologias.
“Para entendermos o tamanho dessa disputa, estamos falando de um mercado que movimentou cerca de 66 bilhões de dólares no mundo só em 2025. O Mounjaro sozinho faturou quase 23 bilhões de dólares naquele ano. E há projeções colocando esse mercado perto ou acima dos 100 bilhões de dólares até 2030. Então, quando a gente fala de patente e concorrência dessas canetas, estamos falando de uma disputa econômica gigantesca.”
Patentes podem influenciar concorrência e preços
A proteção patentária é um dos principais instrumentos utilizados pela indústria farmacêutica para proteger os investimentos realizados no desenvolvimento de novos medicamentos. No Brasil, a patente de invenção tem, em regra, prazo de 20 anos contado da data do depósito.
Segundo a advogada, durante esse período, a exclusividade pode limitar a entrada de concorrentes que dependam daquela tecnologia, mas o preço final de um medicamento não é determinado exclusivamente pela existência da patente. Com o encerramento da proteção patentária, outros fabricantes podem passar a desenvolver e comercializar produtos concorrentes, desde que atendam às exigências regulatórias e sanitárias. A entrada de novos fabricantes pode aumentar a concorrência e criar pressão sobre os preços, mas a redução não ocorre necessariamente de forma automática.
“Isso pode influenciar a concorrência e, consequentemente, os preços. Mas é importante lembrar que a patente não é o único fator que determina o preço de um medicamento: pesquisa, produção, demanda, distribuição, tributação e regulação também interferem”, destaca Thaluana.
Medicamentos para emagrecimento e o acesso pelo SUS
O avanço dos tratamentos para obesidade também traz uma discussão sobre a possibilidade de incorporação dessas tecnologias ao Sistema Único de Saúde. A especialista explica que “não basta o medicamento existir ou ter registro sanitário para ser automaticamente oferecido pelo SUS. A incorporação passa por uma avaliação técnica, que considera evidências de eficácia, efetividade e segurança, além da avaliação econômica e do impacto que a inclusão daquele tratamento teria no orçamento público.”
Direito à saúde e limitações orçamentárias
O crescimento do mercado de medicamentos para emagrecer também coloca em evidência o desafio de conciliar o direito constitucional à saúde com o alto custo de determinadas terapias e a necessidade de utilização responsável dos recursos públicos.
Nesse contexto, a discussão jurídica envolve não apenas o acesso individual aos tratamentos, mas também a formulação de políticas públicas capazes de atender à população de maneira universal e sustentável.
“A Constituição, no artigo 196, estabelece que a saúde é direito de todos e dever do Estado. Mas esse direito precisa ser concretizado por meio de políticas públicas que atendam a população de forma universal e sustentável. Por isso, o desafio é encontrar um equilíbrio entre garantir acesso a tratamentos eficazes, proteger a inovação e utilizar de maneira responsável os recursos públicos disponíveis”, reforça Thaluana Alves.

