Automedicação exige atenção mesmo com medicamentos de uso comum, alerta professora médica da Afya Paraíba
Uso sem orientação adequada pode provocar eventos adversos, interações medicamentosas e até retardar a investigação de sintomas persistentes
17 de setembro de 2026
A facilidade de acesso a medicamentos faz com que dores de cabeça, febre, sintomas gripais e dores musculares sejam frequentemente tratados por conta própria. Embora muitos desses medicamentos sejam conhecidos e façam parte da rotina das famílias, isso não significa que sejam isentos de riscos. A segurança depende da indicação, da dose, do tempo de uso e, principalmente, das condições de saúde de cada pessoa. O alerta é da Médica de Família e Comunidade e professora da Afya Paraíba, Denise Mota Araripe Pereira Fernandes.
Uma pesquisa realizada pelo Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade (ICTQ), em 2024, apontou que nove em cada dez brasileiros fazem uso de medicamentos sem prescrição. Entre os produtos mais utilizados estão analgésicos, antitérmicos e anti-inflamatórios. Justamente por serem conhecidos e facilmente encontrados, muitas vezes são percebidos como medicamentos de pouco risco.
“São medicamentos que muitas pessoas têm em casa e que podem ser utilizados com segurança em diversas situações, mas isso não significa que o uso possa ser indiscriminado. A dipirona, por exemplo, costuma ser bem tolerada, mas pode causar reações adversas e exige atenção especialmente em pessoas com histórico de alergia ou contraindicações. O paracetamol, quando utilizado acima das doses recomendadas, pode provocar toxicidade hepática importante. Já os anti-inflamatórios merecem um cuidado especial, principalmente quando usados repetidamente ou por períodos prolongados”, explica.
Segundo a professora, a própria rotina contemporânea contribui para que sintomas recorrentes sejam tratados repetidamente com medicamentos, sem que se investigue o que está provocando aquela dor. Longos períodos diante das telas, pouca atividade física, sono inadequado, sobrecarga de trabalho e fatores ergonômicos podem estar associados a diferentes queixas musculoesqueléticas.
“Nesses casos, tomar repetidamente um medicamento pode até aliviar a dor naquele momento, mas não modifica necessariamente aquilo que está produzindo o sintoma. Quando a dor se torna frequente, precisamos sair da lógica de apenas silenciá-la e começar a perguntar por que ela está acontecendo.”
Dose e tempo de uso também fazem diferença
O risco aumenta quando a pessoa ultrapassa a dose recomendada, combina medicamentos sem conhecer suas possíveis interações ou mantém o uso por períodos prolongados sem reavaliação. Denise Mota destaca que anti-inflamatórios, corticoides e doses excessivas de paracetamol merecem atenção, assim como o uso simultâneo de diferentes medicamentos em pessoas que já fazem tratamento contínuo para doenças crônicas.
“Os anti-inflamatórios, por exemplo, podem aumentar o risco de lesão renal e sangramento gastrointestinal e também interferir no controle da pressão arterial em algumas pessoas. O risco não é igual para todo mundo. Uma pessoa idosa, alguém com doença renal, hipertensão, insuficiência cardíaca ou que utiliza outros medicamentos pode ter uma vulnerabilidade diferente daquela de uma pessoa jovem e saudável.”
Quando um medicamento não produz o efeito esperado, aumentar a dose ou prolongar o tratamento por conta própria não costuma ser a melhor resposta.
“Se o sintoma persiste, precisamos entender o motivo. Também é muito comum repetir uma receita ou um tratamento que funcionou anteriormente, mas sintomas parecidos podem ter causas diferentes. O medicamento que foi adequado para uma situação passada não necessariamente será a melhor escolha para o episódio atual.”
Outro cuidado importante envolve a combinação de medicamentos. As interações podem modificar a ação dos fármacos, aumentar o risco de eventos adversos ou interferir no tratamento de outras condições de saúde.
“A interação medicamentosa faz parte da nossa prática cotidiana, principalmente entre pessoas que utilizam vários medicamentos. Por isso, é importante que o profissional de saúde saiba tudo o que o paciente utiliza: medicamentos prescritos, aqueles comprados por conta própria e até produtos que a pessoa considera simples ou usa apenas de vez em quando.”
Alívio do sintoma não significa tratar a causa
Outro problema da automedicação é a possibilidade de retardar a investigação de sintomas que merecem avaliação. Ao conseguir um alívio temporário, a pessoa pode ter a impressão de que o problema foi resolvido e postergar a procura por atendimento.
A médica cita como exemplo sintomas digestivos recorrentes, como azia e queimação. O uso ocasional de um medicamento pode aliviar o desconforto, mas a repetição frequente desses sintomas merece avaliação, especialmente quando existem outros sinais associados.
“Quando um sintoma se repete, persiste ou começa a interferir na vida cotidiana, o mais importante não é simplesmente trocar o medicamento ou aumentar sua dose. É compreender o que aquele sintoma está nos dizendo. Aliviar uma dor ou uma azia é importante, claro, mas cuidar também significa procurar a causa quando aquela queixa deixa de ser episódica.”
Para Denise Mota, uma atitude bastante simples pode tornar as consultas mais seguras: conhecer e registrar os medicamentos utilizados no cotidiano. A pessoa pode anotar os nomes, as doses e a frequência de uso ou até levar fotografias das caixas e receitas para a consulta. Também devem entrar nessa lista os medicamentos utilizados apenas ocasionalmente.
“Costumo orientar que o paciente faça uma espécie de diário recordatório dos medicamentos: o que usa, em qual dose e com que frequência. Isso nos ajuda muito durante a consulta, porque permite enxergar associações, duplicidades e padrões de uso que às vezes nem o próprio paciente percebe. Medicamento é uma ferramenta valiosa para o cuidado, mas precisa ser usado com indicação, na dose adequada e pelo tempo necessário.”
A orientação, portanto, não é transformar medicamentos comuns em vilões, mas promover seu uso racional. Analgésicos, antitérmicos e outros fármacos têm papel importante no cuidado e no alívio de sintomas. O problema surge quando a familiaridade com esses produtos faz com que seus riscos sejam esquecidos ou quando o medicamento passa a substituir a investigação de uma queixa persistente.
“Autocuidado também envolve reconhecer os próprios limites. Existem situações simples que podem ser manejadas em casa, mas sintomas persistentes, recorrentes, intensos ou acompanhados de sinais de alerta precisam ser avaliados. O objetivo não é ter medo dos medicamentos. É aprender a utilizá-los de forma mais consciente e segura.”
Para Denise Mota, uma medida simples pode ajudar o paciente durante uma consulta: registrar os medicamentos utilizados no dia a dia. A recomendação é anotar os nomes dos produtos, as doses e a frequência de uso, incluindo aqueles tomados ocasionalmente. Esse histórico facilita a avaliação médica e ajuda a identificar possíveis associações ou padrões de uso que mereçam atenção.

