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Foto: Magnific

Economia circular avança no Brasil com fóruns regionais e mobilização de 11 mil pessoas

Experiência liderada por Liu Berman busca transformar estratégias nacionais em ações adaptadas às diferentes realidades econômicas e sociais dos territórios.

15 de setembro de 2026

O Brasil avança na adoção de práticas de economia circular, mas a consolidação desse modelo ainda depende da capacidade de transformar diretrizes nacionais em ações concretas nos territórios. A pesquisa “A economia circular está no DNA das indústrias brasileiras” da Confederação Nacional da Indústria (CNI) de 2026 aponta que 57% das empresas brasileiras adotam pelo menos uma prática de economia circular, enquanto entre os principais entraves aparecem a falta de demanda por produtos circulares e as dificuldades relacionadas ao financiamento e à adoção de novas tecnologias.

Ao mesmo tempo em que a indústria amplia iniciativas de circularidade, a discussão passa a envolver uma questão mais ampla: como fazer com que políticas e estratégias nacionais produzam resultados em territórios com estruturas produtivas, recursos, capacidades institucionais e vocações completamente diferentes? A experiência acumulada pelos Fóruns Regionais de Economia Circular, que já mobilizaram cerca de 11 mil pessoas no Nordeste, parte justamente da necessidade de aproximar a agenda nacional das realidades locais.

É nesse contexto que entra a experiência de Liu Berman, responsável pela construção dos Fóruns Regionais de Economia Circular, iniciativa que começou no Nordeste e agora avança para outras regiões do país. À frente do Instituto Reinventando Futuros, Liu tem trabalhado na articulação entre governos, empresas, academia, organizações locais e comunidades, buscando transformar a discussão sobre economia circular em processos permanentes de implementação territorial.

“O Brasil avançou bastante na construção de uma direção para a economia circular, o desafio agora é transformar essa direção em capacidade real de implementação. E isso exige algumas coisas muito concretas: governança, orçamento, responsáveis, indicadores e articulação entre os diferentes atores. Mas tem um ponto que, para mim, é central: essa implementação precisa considerar as diferenças territoriais. Uma política nacional pode orientar o país, mas ela não pode chegar da mesma forma a todos os lugares. A experiência que eu tenho vivido com os Fóruns Regionais mostra isso com muita clareza. Quando a gente chega nos territórios, a economia circular aparece conectada a outras agendas, desenvolvimento econômico, bioeconomia, economia criativa, economia popular e solidária, turismo, resíduos, inovação”, explica Liu.

A experiência dos Fóruns também mostra que o ponto de partida para essa implementação muda conforme a região. Pará, Ceará, Alagoas e São Paulo, por exemplo, apresentam diferentes estruturas econômicas, cadeias produtivas, condições de infraestrutura e capacidades instaladas. Enquanto alguns territórios podem encontrar oportunidades na indústria, na logística reversa e na gestão de resíduos, outros podem ter na bioeconomia, no turismo comunitário, no artesanato, na economia popular e nos saberes tradicionais caminhos para avançar na circularidade.

“Uma política nacional precisa ter uma direção comum, mas não pode pressupor uma única forma de implementação. Quando a gente olha para os territórios, percebe que a economia circular se manifesta de formas muito diferentes. Em alguns lugares, ela aparece mais vinculada à indústria, à logística reversa e à gestão de resíduos. Em outros, ela está profundamente conectada à bioeconomia, ao turismo comunitário, ao artesanato, à economia popular, aos saberes tradicionais e às vocações locais. Então, para mim, o ponto de partida precisa ser entender quais ativos aquele território já possui, quais atores estão presentes, quais cadeias econômicas existem, quais são os gargalos de infraestrutura e quais capacidades já estão instaladas. A implementação precisa ter flexibilidade suficiente para ser construída a partir da realidade de cada território”, afirma Liu.

Nas experiências realizadas pelo FNEC, a articulação entre diferentes setores aparece como um dos principais mecanismos para aproximar política pública e realidade local. Nas duas últimas edições, foram mobilizados mais de 350 painelistas, entre gestores, líderes comunitários e representantes internacionais, em mais de 300 horas de programação. A proposta, agora, é transformar essa experiência em uma estrutura de articulação que permaneça ativa para além dos eventos.

“Governo, empresas, academia, organizações locais e comunidades têm papéis, interesses e capacidades diferentes. O desafio é construir um espaço em que essas diferenças consigam se transformar em complementaridade. E isso exige governança. Exige clareza sobre quem pode contribuir com o quê, quais são as prioridades comuns e como aquela articulação continua depois do encontro. Talvez um dos maiores riscos seja criar muitos espaços de conversa e poucos mecanismos de continuidade”, destaca a especialista.

A necessidade de criar soluções conectadas aos territórios também aparece nos desafios identificados pela indústria. A pesquisa mais recente da CNI aponta que, embora 57% das empresas adotem ao menos uma prática de economia circular, ainda existem obstáculos para ampliar esse movimento, entre eles questões econômicas, tecnológicas e de inovação. O cenário reforça que a transição depende não apenas da adesão das empresas, mas também de políticas públicas, instrumentos financeiros, infraestrutura e capacidade de articulação.

A agenda também se aproxima dos debates sobre inovação e tecnologia, especialmente em ambientes como o HackTown. Para Liu, inteligência artificial, dados, plataformas e sistemas de rastreabilidade podem contribuir para melhorar processos, conectar cadeias e criar novos modelos de negócio, mas a inovação territorial não começa necessariamente por uma ferramenta tecnológica.

“Eu acho que o HackTown traz uma oportunidade importante de ampliar o que a gente entende por inovação. Muitas vezes, quando falamos em inovação, a gente imediatamente pensa em tecnologia, inteligência artificial, dados, plataformas. E tudo isso pode contribuir muito para a economia circular, seja em rastreabilidade, eficiência, novos modelos de negócio, gestão de cadeias ou tomada de decisão. Mas as experiências recentes nos territórios têm me provocado a olhar para inovação de uma forma mais ampla”, explica Liu.

Nesse cenário, o principal desafio da economia circular brasileira passa a ser transformar o avanço das estratégias e das práticas já existentes em uma agenda capaz de produzir resultados duradouros nos territórios. Para isso, a construção de políticas nacionais precisa caminhar junto com a identificação das capacidades locais, a articulação entre diferentes setores e a criação de instrumentos que permitam que cada região desenvolva seus próprios caminhos.

“Talvez o maior desafio seja parar de perguntar apenas qual tecnologia precisamos criar e começar a perguntar que problema queremos resolver e quais capacidades já existem no território para isso. E acho que isso dialoga diretamente com a economia circular, porque muitas das soluções que precisamos construir não começam necessariamente pela tecnologia. Elas começam pela capacidade de reconhecer o que já existe, conectar atores, organizar recursos e criar novos modelos a partir dessas capacidades”, conclui Liu Berman.

Fonte: Assessoria