Do barro à sanfona, projeto valoriza mestres que mantêm viva a cultura popular no Alto Sertão
Iniciativa da Pisada do Sertão está em fase de implantação e reconhece cinco mestres e mestras, com a criação de espaços de memória e aprendizagem em suas casas
15 de setembro de 2026
Cinco mestres e mestras da cultura popular do Alto Sertão paraibano estão tendo suas trajetórias e saberes reconhecidos por meio do projeto Casa dos Mestres, realizado pela Associação Cultural Pisada do Sertão. A iniciativa já está em andamento e passa pela fase de implantação nos municípios de Poço de José de Moura, Poço Dantas e Cajazeiras.
O projeto reúne conhecimentos ligados ao artesanato, à produção com o barro, à poesia, ao Reisado e à música, valorizando práticas transmitidas entre gerações e que fazem parte da memória e da identidade cultural do território.
Participam da iniciativa Maria Lourdes de Souza Mariana, conhecida como Dona Lourdes, Mestra Louceira; Roberto Cesário da Silva, o Tatu, Mestre na Poesia; José Vandevan, Mestre de Cultura Popular e do Reisado; Francisco Amaro da Silva, Chico Amaro, Mestre Sanfoneiro; e Josefa Francisca da Conceição, Dona Zefinha, Mestra em Artesanato e Fiandeira.
Um dos principais objetivos do Casa dos Mestres é reconhecer simbolicamente as próprias residências onde os mestres vivem e desenvolvem seus saberes como Casas dos Mestres da Cultura Popular, criando espaços de memória, visitação e aprendizagem.
Para a cofundadora da Pisada do Sertão, Rafaella Lopes, que está à frente do projeto, a iniciativa também busca ampliar a compreensão sobre os espaços onde a cultura é produzida e preservada.
“Durante muito tempo, a ideia de equipamento cultural esteve associada a prédios, museus, teatros e centros culturais. O projeto parte da compreensão de que as casas onde esses mestres vivem e produzem seus saberes também são espaços de cultura, memória e aprendizagem. A proposta é criar lugares onde as novas gerações possam conhecer essas histórias e entender que existe conhecimento vivo dentro do próprio território”, explica Rafaella.
Casas serão espaços de memória e aprendizagem
Como parte da implantação do projeto, cada residência receberá uma Parede da Memória do Mestre, reunindo fotografias, registros das trajetórias de vida, linhas do tempo, objetos, instrumentos, peças e outros elementos relacionados à história de cada participante. Também serão instaladas placas de identificação nos espaços.
As placas também devem ampliar a visibilidade das casas e criar possibilidades de aproximação com a comunidade, estudantes, pesquisadores, agentes culturais e visitantes. A proposta é reconhecer esses locais como territórios de aprendizagem, onde histórias, objetos, vivências e saberes possam gerar pertencimento e fortalecer a relação das novas gerações com a cultura do próprio território.
Entre as trajetórias reconhecidas está a de Dona Zefinha, mestra em artesanato e fiandeira. Seu trabalho começa antes mesmo da produção das peças: ela planta o algodão, acompanha o cultivo, fia a fibra, produz a própria linha e, a partir dela, cria peças de crochê, que depois são comercializadas. O processo reúne conhecimentos ligados à agricultura, ao artesanato, à técnica, à criatividade e à autonomia.
Dona Lourdes, por sua vez, mantém vivo o conhecimento relacionado ao trabalho com o barro. Como Mestra Louceira, representa um modo tradicional de produção ligado à cultura material do Sertão e a práticas que vêm perdendo espaço diante das transformações no cotidiano das comunidades.
Reisado, poesia e sanfona
As manifestações populares e a música também estão presentes no projeto.
José Vandevan tem sua trajetória ligada ao Reisado José de Moura, manifestação centenária que reúne música, dança, celebração e religiosidade e segue presente na vida cultural da comunidade.
Já Chico Amaro, Mestre Sanfoneiro, tem sua trajetória profundamente ligada às festas e aos forrós do Alto Sertão. Ao longo de sua caminhada, percorreu diferentes comunidades e eventos, ajudando a construir memórias por meio da música e mantendo viva a tradição do forró pé de serra, o forró raiz.
Tatu é poeta, compositor e brincante e carrega em sua trajetória uma herança familiar ligada à cultura popular. Seu avô foi mestre do coco, enquanto seu pai também esteve ligado à tradição do coco e ao Maneiro-Pau, manifestações presentes em sua vivência e memória familiar.
Saberes transmitidos entre gerações
Além de registrar as trajetórias, o Casa dos Mestres prevê vivências e visitas pedagógicas para aproximar os mestres das novas gerações e permitir que os conhecimentos sejam compartilhados diretamente por quem os mantém vivos.
“Preservar uma tradição não significa colocá-la atrás de uma vitrine. Não basta registrar um saber, é preciso criar condições para que ele continue sendo vivido, compartilhado e aprendido. O Casa dos Mestres aposta justamente nesse encontro entre quem carrega esses conhecimentos e as novas gerações”, destaca Rafaella Lopes.
A concepção do projeto é de que a preservação cultural não deve se limitar ao registro do passado, mas também criar condições para que esses saberes sejam experimentados, aprendidos e transmitidos no presente.
O Casa dos Mestres integra a atuação da Associação Cultural Pisada do Sertão na valorização e difusão das culturas populares nordestinas, especialmente das manifestações tradicionais do Sertão. A organização também desenvolve projetos, festivais, formações e ações de mobilização cultural.
O projeto conta com apoio do Governo do Estado da Paraíba, por meio da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura.
Ao reconhecer as casas, histórias e saberes de Dona Lourdes, Tatu, José Vandevan, Chico Amaro e Dona Zefinha, a iniciativa busca fortalecer a circulação desses conhecimentos e contribuir para que práticas construídas ao longo de gerações continuem presentes na vida cultural do Alto Sertão.
Fonte: Assessoria
