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saúde mental, stress, trabalho, burnout
Foto: freepik

Trabalhador brasileiro em “modo de sobrevivência” em 2026: 72% no nível mais alto de tensão aguda

Com a NR-1 em fase de fiscalização punitiva e o Brasil batendo recorde histórico de afastamentos por saúde mental, especialista em neurociência explica por que tratar pressão como sinônimo de produtividade está custando caro aos resultados

25 de junho de 2026

Uma pesquisa recente trouxe um número que resume o estado emocional do trabalhador brasileiro em 2026: 72% da população trabalha hoje no chamado “modo de sobrevivência”, os níveis mais altos de uma escala de tensão aguda, medidos por um estudo da healthtech de saúde mental Starbem com quase 1.900 participantes acompanhados ao longo de seis meses.

O dado chega em um momento decisivo para as empresas brasileiras, uma vez que segundo o INSS, 1 em cada 7 trabalhadores foi afastado por transtornos mentais e comportamentais em 2025, o maior número já registrado na história, cerca de 546 mil pessoas. Entre os diagnósticos, o burnout foi o que cresceu de forma mais expressiva: os casos mais que triplicaram entre 2023 e 2025, saltando de 1.760 para 6.985 registros.

Ao mesmo tempo, a Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) que obriga empresas a mapear e gerenciar riscos psicossociais deixou a fase educativa para trás: desde 26 de maio de 2026, a fiscalização tem caráter punitivo, com possibilidade de autuações, multas e até interdições. A mudança não tem sido recebida sem resistência: a FIESP e a CNSaúde acionaram o STF por meio das ADPFs 1316 e 1333 alegando insegurança jurídica diante da ausência de critérios objetivos para a fiscalização.

Para a especialista em neurociência aplicada ao comportamento humano e mentora de lideranças Eliane Sato, a disputa em torno da forma como a lei foi escrita é legítima, mas não pode servir de cortina de fumaça para o problema que ela tenta endereçar.

“Empresas têm razão em pedir critérios claros. Mas isso não muda o que a ciência já demonstrou: o cérebro humano não distingue risco psicológico de risco físico. Um ambiente de pressão crônica ativa os mesmos circuitos de ameaça que um risco ergonômico grave. A lei está apenas alcançando o que a neurociência já sabia há anos”, afirma.
Um país que naturalizou viver em estado de alerta

Para Eliane, o dado mais revelador do estudo Starbem não é o número de pessoas em modo de sobrevivência, mas o fato de que a maioria não percebe isso como um problema.

“O estado de alerta deveria ser usado pelo cérebro só em emergências reais. Quando ele se torna o modo padrão de funcionamento, o corpo paga um preço alto e a empresa também. O grave é que isso já foi normalizado a ponto de não ser mais percebido como sintoma”, explica.

Um dos achados mais reveladores da pesquisa é que a ansiedade crônica pode triplicar o tempo necessário para executar tarefas simples, por causa do fenômeno conhecido como névoa mental. Em outras palavras: o modelo de gestão baseado em pressão constante está minando a própria eficiência que tenta proteger. O estudo também aponta que o maior custo para às empresas hoje não é o absenteísmo, mas o presenteísmo profissionais que comparecem todos os dias, mas operam muito abaixo da própria capacidade.

“Empresas continuam tratando pressão como sinônimo de produtividade. Os dados mostram o oposto: quanto mais se exige de um cérebro esgotado, menos ele entrega. Isso não é falta de esforço do colaborador é uma limitação biológica real, que a liderança precisa entender antes de cobrar mais resultado”, afirma a especialista.

Da palestra de bem-estar à gestão de risco real

Eliane chama atenção para um efeito da nova fase da NR-1 que ainda passa despercebido por boa parte das empresas: a norma não cria apenas uma obrigação documental, mas um novo padrão de diligência a partir do qual será aferida a culpa do empregador em ações judiciais que envolvam adoecimento mental de origem ocupacional.

“A empresa que mapear, documentar e agir sobre os riscos psicossociais constrói uma defesa real diante de um processo trabalhista. A que ignorar, vai responder por omissão. E aqui não estou falando de medo de multa, estou falando de responsabilidade com quem trabalha na organização”, afirma.

Para Eliane, a forma como parte do empresariado reagiu à nova fase da NR-1 recorrendo à Justiça em vez de revisar práticas internas é, em si, um sintoma do problema que a norma tenta corrigir.

“O amor é o estado neurológico mais potente do ser humano. Não estou falando de amor romântico, mas daquele que nos faz superar dores, atravessar perdas e nos reconectar com propósito. Mas as lideranças dentro das empresas ainda não estão preparadas para essa conversa e a prova disso é a própria reação de recorrer aos processos de punição em vez de olhar para dentro da organização e perguntar: o que estamos fazendo com as pessoas que trabalham aqui?”, afirma.

Apesar do cenário alarmante, a especialista destaca um dado do próprio estudo Starbem que costuma passar despercebido: após acompanhamento psicológico adequado, os participantes da pesquisa tiveram o nível de foco aumentado em 105% e a motivação em 173%.
“Isso é a prova de que não estamos diante de um problema sem solução. O cérebro humano tem uma capacidade extraordinária de se recuperar quando recebe as condições certas e isso vale tanto para o indivíduo quanto para a cultura de uma empresa inteira. A pergunta que toda liderança deveria se fazer agora não é apenas ‘como vou me adequar à norma’, mas ‘o que estou exigindo do cérebro das pessoas que trabalham comigo e por quanto tempo isso é sustentável?'”, conclui Eliane.

Fonte: assessoria