Senhoras e senhores: o empreendedorismo sênior na culinária paraibana
Com restaurantes populares e tendas de comida regional, empreendedores seniores transformam décadas de trabalho em fonte de renda, memória e resistência na culinária paraibana, por Paulo Nascimento
21 de maio de 2026
Em um país onde a aposentadoria costuma ser vista como linha de chegada, milhares de idosos brasileiros seguem trabalhando, empreendendo e sustentando famílias inteiras. Na Paraíba, essa realidade ganha rosto em cozinhas populares, pequenos restaurantes e tendas de comida regional espalhadas pela cidade. São homens e mulheres que transformaram a experiência de vida em empreendimentos. Eles mantêm um negócio aberto e ao mesmo tempo contam suas histórias por meio da culinária.

No Mercado Central de João Pessoa, na Avenida Dom Pedro II, você encontra um restaurante chamado “Encontro de Amigos”, e lá encontrei o seu Luiz Inaldo, morador do Jardim Veneza, que aos 71 anos trabalha desde os 14 de idade. Foi vendedor, prestamista, operário da antiga fábrica de Toalha, até construir o pequeno restaurante que começou apenas como uma barraca simples dentro do mercado. Ele ainda relatou, “sem trabalhar não sou nada”.
O restaurante do Luiz cresceu junto com a própria cidade. Hoje, o espaço é conhecido pelo movimento intenso na hora do almoço, um bom churrasco e pela relação próxima com os clientes, mesmo quando é a sua primeira vez no estabelecimento.
Empreender depois dos 60
Exemplos como o do Luiz se repetem em todo o Brasil, que possui hoje mais de 4 milhões de empreendedores com mais de 60 anos, segundo levantamentos do Sebrae. Eles representam cerca de 13,5% dos donos de negócios do país. Dentro desse grupo, 21,2% atuam no setor alimentício, percentual quase três vezes maior do que entre os jovens empreendedores.
Na Paraíba, os números também revelam a força da chamada “economia prateada”. Dados cruzados entre Sebrae e IBGE apontam que cerca de 7,6% dos empreendedores paraibanos possuem mais de 60 anos. O estado possui aproximadamente 23,2 mil empreendedores formais acima dos 65 anos, concentrados principalmente no comércio local, pequenos serviços e negócios alimentícios familiares.
Luiz lembra das dificuldades para chegar em João Pessoa vindo do interior, quando a capital ainda tinha pouco mais de 200 mil habitantes. Ele relembra das viagens difíceis e da vida dividida entre o trabalho e os estudos. “Parei de estudar cedo para trabalhar, mesmo assim, consegui concluir o segundo grau anos depois, enquanto trabalhava durante o dia”.
Ao longo de mais de quatro décadas no Mercado Central, enfrentou ameaças de remoção, reformas da prefeitura, incertezas e dificuldades financeiras. Em uma das reformas do mercado, recebeu um prazo de 72 horas para deixar o espaço onde havia investido praticamente toda a sua vida.
Hoje, uma nova reforma no Mercado Central volta a trazer insegurança. Luiz teme perder o restaurante que construiu ao lado da esposa. Durante a entrevista, um homem chegou perguntando quanto ele aceitaria para repassar o negócio. Luiz respondeu sem hesitar: “R$150”.
Depois da conversa, admite que pensa em parar. Quer viajar pelo Maranhão novamente, conhecer cachoeiras e descansar um pouco da rotina pesada da cozinha. Mas existe algo que o mantém ali: o orgulho da própria trajetória e os frutos colhidos por ter empreendido em uma época em que o Mercado Central ainda não era como conhecemos hoje. “Valeu a pena. Trabalhei muito, consegui criar a minha família e construir minha história aqui.” conta Luiz.
O restaurante “Encontro de Amigos” virou parte da rotina e da identidade de Luiz. Mesmo aposentado, ele continua trabalhando diariamente ao lado da esposa. “É a minha vida. Eu gosto de estar aqui, conversar com o povo e trabalhar”, afirma.
A fala de Luiz dialoga diretamente com um cenário nacional cada vez mais comum. Segundo o IBGE, cerca de 17 milhões de lares brasileiros são sustentados financeiramente por idosos. Em 13,5 milhões desses domicílios, a renda da pessoa idosa é a única fonte financeira da família inteira. “Nesse período, o restaurante foi meu porto seguro”, afirma Inaldo.
A culinária como recomeço
Enquanto Luiz carrega a memória de décadas dentro do Mercado Central, em outro ponto de João Pessoa, no bairro do Valentina, a história de Joana Lima revela outro lado do empreendedorismo sênior: o recomeço.
Aos 64 anos, Joana é proprietária da Tenda Azul Tempero Nordestino, empreendimento conhecido pelos pratos típicos e pelos caldos servidos durante a semana. O espaço se tornou referência entre moradores da região pela comida caseira e pelo atendimento acolhedor, “Nossa comida é feita com muito carinho e sabor”, diz Joana.
No cardápio, pratos tradicionais nordestinos como rubacão, feijoada, galinha guisada, vaca atolada, dobradinha, marisco e pirão de camarão atraem clientes de diferentes bairros da capital paraibana.
Mas a história da Tenda Azul começou de maneira simples. Há quatro anos, incentivada por uma amiga, Joana começou vendendo feijoada usando materiais emprestados. “Eu abracei a oportunidade com fé, determinação e esperança”, relembra.
Antes disso, sua trajetória foi marcada por diferentes experiências. Nascida na zona rural, se mudou ainda jovem para o Rio de Janeiro, onde trabalhou em casa de família e em fábrica de costura. Depois retornou para a Paraíba, vendeu miçangas em feira livre, trabalhou com roupas, joias e diversos outros serviços até encontrar na culinária o caminho definitivo, “Foi da minha caminhada de luta que nasceu a Tenda Azul”.
Economia prateada na Paraíba
A realidade enfrentada por Joana é comum entre pequenos empreendedores idosos. Embora a renda média dos empreendedores seniores na Paraíba esteja em torno de R$3.558 mensais (valor acima da média salarial do estado), grande parte desses negócios ainda funciona de forma simples, em bairros, feiras, pequenos restaurantes familiares ou produção artesanal.
Negócios como o de Joana ajudam a movimentar um setor que reúne mais de 40 mil pequenos empreendimentos alimentícios na Paraíba, sendo quase 70% deles formados por MEIs. São negócios que movimentam a economia local, geram renda e mantêm as tradições da cena gastronômica vivas.
Joana se emociona ao lembrar de uma noite chuvosa em que acreditou que não venderia quase nada, mesmo debaixo de chuva, clientes começaram a chegar de todos os lados para comprar sopas e caldos na Tenda Azul. “Formou uma fila enorme e a comida acabou toda. Foi ali que eu senti que todo esforço estava valendo a pena.”
Hoje, ela olha para o próprio negócio com gratidão: “Me sinto feliz e realizada administrando tudo isso.”
Histórias como as de Luiz e Joana ajudam a mostrar a força do empreendedorismo sênior na gastronomia paraibana. São negócios que representam memórias, tradição e acolhimento, e durante esses anos, transformaram as suas experiências em espaços que fazem parte da vida da cidade.
Ao contrário dos estereótipos que associam envelhecimento à improdutividade, o empreendedorismo sênior mostra justamente o oposto. São pessoas que acumulam conhecimento prático e capacidade de adaptação, sustentando famílias e movimentando a economia.
Mas também carregam o peso da insegurança financeira, da informalidade, do cansaço físico e da ausência de políticas públicas voltadas para pequenos empreendedores idosos.
Muitos clientes chegam apenas em busca de uma refeição, mas acabam encontrando tambem histórias de dedicação, afeto e resistência. Em cada prato servido, existe um pouco da trajetória de quem passou décadas aprendendo, trabalhando e construindo algo próprio.
E talvez seja justamente isso que torna o empreendedorismo sênior tão importante: ele não fala apenas sobre economia. Fala sobre permanência, resistência e sobre pessoas que envelhecem sem abrir mão da própria história.
Fonte: Paulo Nascimento