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céu noturno
Foto: Divulgação

Unidades de Conservação fortalecem o astroturismo ao preservar céus escuros no Brasil

Localizadas com frequência longe de luzes artificiais, áreas protegidas se destacam na proteção do céu noturno, na promoção do turismo sustentável e na conservação da biodiversidade

14 de abril de 2026

As Unidades de Conservação (UCs) federais têm papel fundamental na proteção dos chamados “céus escuros”, ambientes onde a baixa incidência de luz artificial permite a observação clara do firmamento.

Além de proteger a biodiversidade, essas áreas preservam paisagens naturais e condições ambientais essenciais para a observação astronômica. Essa conexão entre conservação e visitação contribui para sensibilizar visitantes e fortalecer a valorização do patrimônio natural.

Segundo coordenadora substituta de Estruturação e Qualificação da Visitação, Serena Reis, o astroturismo está diretamente alinhado com os objetivos das Unidades de Conservação. “O astroturismo dialoga diretamente com os objetivos das unidades de conservação ao promover a valorização do patrimônio natural e a sensibilização dos visitantes para a importância da conservação. A atividade também contribui para a aproximação de diferentes perfis de visitantes e reforça a importância da proteção de ambientes com baixa poluição luminosa” .

Entre as atividades que podem ser realizadas nas unidades, destacam-se a observação do céu estrelado, fotografia noturna e astrofotografia, caminhadas em trilhas durante a noite e ações educativas voltadas à astronomia.

No Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás, a baixa incidência de nuvens e a reduzida poluição luminosa tornam a região uma das mais indicadas para a observação do céu noturno no Brasil. Em áreas mais afastadas das cidades, é possível visualizar a Via Láctea em determinados períodos do ano, uma experiência cada vez mais rara em regiões urbanizadas.

Além da observação do céu noturno, o pôr do sol também integra as experiências ligadas ao astroturismo na unidade. Segundo o chefe do parque, André Ribeiro , as paisagens naturais da região tornam esse momento um dos mais valorizados pelos visitantes. “Aqui na Chapada dos Veadeiros, pelas paisagens todas, o pôr do sol é parte importante do astroturismo” , destaca.

Segundo André, preservação do céu escuro é um diferencial importante para a visitação e uma preocupação constante diante do crescimento urbano e da expansão da iluminação artificial. “Quando a iluminação não é adequada, vamos perdendo gradativamente a possibilidade de observar o céu noturno. A poluição luminosa é uma preocupação crescente, especialmente com o avanço das cidades e a ocupação de áreas rurais” , destaca.

A experiência de contemplação do céu noturno foi ampliada ao longo dos anos. Em 2013, a abertura da Travessia das Sete Quedas permitiu que visitantes passassem a pernoitar dentro do parque, vivenciando o ambiente noturno em meio à natureza. Já em 2022, trilhas passaram a ser abertas para visitação noturna na região de São Jorge, iniciativa viabilizada no contexto do contrato de concessão firmado pelo ICMBio e a concessionária Parquetur , com acompanhamento obrigatório de condutores credenciados, garantindo segurança aos visitantes e reduzindo possíveis impactos ambientais.

Bioluminescência de larvas de vagalumes ilumina cupinzeiro no Parque Nacional das Emas (GO), fenômeno natural que depende da preservação de céus escuros e da baixa incidência de luz artificial - Foto: Alisson da Silva

Bioluminescência de larvas de vagalumes ilumina cupinzeiro no Parque Nacional das Emas (GO), fenômeno natural que depende da preservação de céus escuros e da baixa incidência de luz artificial – Foto: Alisson da Silva

Conservação que vai além da paisagem

Preservar áreas com baixa luminosidade não beneficia apenas o turismo, é essencial para a manutenção dos ciclos naturais de diversas espécies.

No Parque Nacional das Emas (GO ), por exemplo, a baixa presença de iluminação artificial no entorno contribui diretamente para a qualidade do céu noturno e para a conservação da biodiversidade.

De acordo com a analista ambiental do ICMBio , Taynara Castro, a distância das áreas urbanas é um fator decisivo para a visibilidade do céu estrelado na unidade. “A baixa presença de luz artificial ao redor do Parque Nacional das Emas faz toda a diferença para a qualidade do céu noturno por aqui. Como quase não tem iluminação forte por perto, a poluição luminosa é bem baixa, e o céu acaba sendo classificado como ‘ótimo’ pelo Índice de Potencial Astroturístico dos Parques Nacionais ( IASTRO ) , principalmente na parte norte do Parque” .

Em condições favoráveis, é possível observar constelações, planetas e até mesmo o braço da Via Láctea com nitidez. Esse cenário também favorece fenômenos naturais raros, como a bioluminescência de larvas de vagalumes presentes em cupinzeiros, um espetáculo natural que depende diretamente da ausência de luz artificial.

Segundo a analista, manter o céu escuro é essencial para garantir o equilíbrio ecológico. “Vai além de ser um atrativo turístico. Ele é importante para a biodiversidade e para o equilíbrio ecológico, pois muitas espécies dependem da escuridão para se orientar, caçar, se alimentar e se reproduzir” .

A expansão urbana e o crescimento de atividades humanas próximas às Unidades de Conservação representam desafios para a manutenção dos céus escuros. A poluição luminosa, causada pelo excesso de iluminação artificial, pode comprometer a observação astronômica e afetar diretamente os ecossistemas.

Segundo Taynara, medidas simples e planejamento territorial adequado são fundamentais para evitar esses impactos. “É importante pensarmos no planejamento do território e reduzir atividades que joguem luz em excesso para o céu ou causem impacto direto na unidade. A fiscalização dos empreendimentos na zona de amortecimento também precisa ser reforçada, para garantir que o céu continue limpo e escuro” .

Entre as ações recomendadas estão o uso de iluminação direcionada e de baixa intensidade, a substituição de lâmpadas por modelos mais eficientes e a criação de regras municipais que limitem o excesso de luz artificial próximo às áreas protegidas.

Campanhas de conscientização com moradores e produtores rurais também são consideradas fundamentais, pois ajudam a demonstrar que a preservação do céu noturno pode trazer benefícios ambientais, científicos e econômicos.

Via Láctea registrada no céu do Parque Nacional da Serra da Capivara (PI)- Foto: Rafael Pereira

Via Láctea registrada no céu do Parque Nacional da Serra da Capivara (PI)- Foto: Rafael Pereira

Projeto Entre Parques e o astroturismo no Brasil

O potencial do astroturismo em áreas protegidas tem sido estudado por iniciativas como o projeto desenvolvido pelo Instituto Entre Parques, que criou o IASTRO, ferramenta que avalia o potencial de parques nacionais para a prática do astroturismo, considerando fatores como poluição luminosa, condições climáticas e infraestrutura disponível para visitantes.

A iniciativa surgiu a partir da percepção de que a população mundial vem perdendo o contato com o céu estrelado. Segundo o site do Entre Parques, estima-se que cerca de 80% das pessoas já não conseguem observar a Via Láctea a partir de suas áreas de residência, em razão do crescimento da poluição luminosa.

A estruturação do índice foi resultado de uma expedição realizada pelo projeto Entre Parques ao longo de mais de três anos. A ferramenta foi desenvolvida por uma equipe multidisciplinar, formada por profissionais das áreas de turismo, economia, psicologia, geografia e astronomia, incluindo especialistas vinculados a instituições públicas e acadêmicas.

Com base em conceitos de ciência cidadã e no uso de dados públicos disponíveis, o índice passou a avaliar os parques nacionais considerando critérios como a qualidade do céu noturno, a probabilidade de céu aberto ao longo do ano e a existência de infraestrutura turística, como condutores e locais adequados para pernoite.

Diversas Unidades de Conservação federais apresentam condições favoráveis para o desenvolvimento do astroturismo. Entre os exemplos estão o Parque Nacional das Emas, em Goiás, conhecido pela baixa poluição luminosa e pelo fenômeno da bioluminescência de larvas de vagalumes, além do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros , também em Goiás, e do Parque Nacional da Serra da Capivara , no Piauí, reconhecidos pelas excelentes condições de observação do céu noturno.

No Parque Nacional do Iguaçu (PR), uma das experiências mais recentes voltadas ao astroturismo é o programa “Céu das Cataratas”, que convida visitantes a contemplar o céu noturno em meio a um dos cenários naturais mais emblemáticos do país.

A atividade ocorre ao anoitecer e conduz os participantes até um mirante com vista para as Cataratas do Iguaçu, onde são realizadas observações do céu estrelado e apresentações que combinam conhecimentos da astronomia com saberes tradicionais dos povos originários, especialmente da cultura Guarani.

Durante a experiência, os visitantes têm acesso a explicações sobre a formação de estrelas, planetas e galáxias, além da observação de constelações e outros corpos celestes em um ambiente com baixa interferência de luz artificial, favorecendo a contemplação do céu noturno.

O crescimento do astroturismo acompanha uma tendência global de valorização do turismo de natureza e de experiências com baixo impacto ambiental. Em áreas protegidas, essa modalidade permite que visitantes explorem o ambiente natural durante o período noturno, ampliando as possibilidades de visitação e promovendo novas formas de sensibilização ambiental.

Além de fortalecer a conservação da biodiversidade, o astroturismo contribui para o desenvolvimento local ao gerar oportunidades de trabalho e renda, especialmente por meio da atuação de condutores e iniciativas de educação ambiental.

Noite nas Cataratas - Foto: Urbia Cataratas

Noite nas Cataratas – Foto: Urbia Cataratas

 

Fonte: Agência Gov