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Foto: Sebrae-PB

Município de Nova Palmeira desponta com turismo de bem-estar e base social

Iniciativas comunitárias unem saúde natural, cultura e identidade quilombola no seridó paraibano

23 de março de 2026

No seridó da Paraíba, o município de Nova Palmeira começa a se destacar por experiências turísticas que fogem do convencional. Duas iniciativas locais, uma voltada ao bem-estar e outra ao turismo de base comunitária, têm transformado a realidade social e econômica da região, valorizando saberes tradicionais e promovendo inclusão. O Sebrae/PB e a CTG Brasil atendem ao município desenvolvendo a economia e fortalecendo o empreendedorismo por meio de consultorias e orientações empresariais, como os cursos de Efeito Furacão e o desenvolvimento de dois roteiros.

A primeira experiência dessa parceria foi com a Organização Não Governamental (ONG) que tem mais de três décadas de atuação, o Centro de Educação Popular (CENEP), coordenado por Maria de Lourdes Gomes, conhecida como Nega Lourdes, e que tornou-se referência em práticas integradas de saúde, educação e cultura no semiárido. A ONG surgiu há 36 anos, inicialmente com foco na mobilização de mulheres, organização sindical e fortalecimento de políticas públicas, expandindo ao longo do tempo suas ações para diferentes áreas sociais.

Atualmente, o CENEP mantém seis imóveis em funcionamento na cidade, todos utilizados em atividades contínuas. Um deles é a Casa de Acolhimento Vó Elisa, que atende cerca de 75 idosos em regime diurno, com atividades como hidroginástica, massoterapia, meditação e oficinas de bem-estar. Outro local é ocupado pela Oficina de Remédios Caseiros Irmã Consuelo, um espaço de produção de xaropes, pomadas, cápsulas e tinturas fitoterápicos voltados à atenção primária em saúde.

Ainda há o restaurante de alimentação saudável Tia Quinosa, que oferece refeições naturais acessíveis, reforçando a proposta de saúde integral e espaços culturais e formativos onde ocorrem atividades como dança, teatro popular e formação em terapias naturais. O CENEP dispõe de auditório e espaço de eventos utilizado para cursos, oficinas e encontros comunitários.

A trajetória do CENEP também passa pela cultura popular, com ações como teatro de rua e mamulengo, além de projetos de formação em fitoterapia, óleos essenciais e massoterapia, realizados em ciclos de até 10 meses. A instituição nasceu em meio a um cenário de seca severa, quando passou a atuar diretamente no combate à desnutrição infantil, especialmente entre filhas de trabalhadoras rurais.

Evolução natural

A proposta de turismo de bem-estar surge como uma evolução natural dessas atividades, integrando alimentação saudável, terapias naturais e experiências voltadas ao chamado “turismo prateado”, focado na terceira idade. Segundo o gerente da agência regional do Sebrae/PB em Araruna, Marcílio de Sousa, há potencial para estruturar os espaços como um empreendimento sustentável, capaz de gerar renda e novos empregos.

“Enxergar que a capacidade instalada, desses imóveis todos que o CENEP possui, pode se transformar em oportunidade de ganhar uma renda extra e gerar novos postos de trabalho para a comunidade também. As meninas que são do balé podem se apresentar e ganhar dinheiro. Com os próprios medicamentos, com a possibilidade de hospedagem, da cultura, da alimentação saudável, tudo isso agrega valor. O visitante aqui tem onde dormir, comer bem, receber massagem, completando o ciclo do bem-estar”, comenta Marcílio de Sousa.

Já para a CTG Brasil, empresa que atua na região por meio do Complexo Eólico Serra da Palmeira, iniciativas como essa reforçam o potencial turístico e a riqueza cultural da região. “A Paraíba tem culturas e tradições muito ricas e apoiar iniciativas locais ajudam a transformar esse potencial em oportunidades reais de renda e geração de trabalho. Por meio desse apoio, queremos contribuir para que o turismo cresça de forma sustentável, valorizando os saberes da comunidade, a cultura local e os empreendedores que fazem a economia da região acontecer”, afirma Ronan Max Prochnow, gerente de Sustentabilidade e ESG da CTG Brasil.

Resistência, identidade e turismo de base comunitária

Para dar suporte ao turismo de base comunitária, está sendo desenvolvida uma segunda rota envolvendo o Quilombo Serra do Abreu, também localizado em Nova Palmeira. A iniciativa representa uma oportunidade de fortalecer o turismo ao reconhecer e valorizar os saberes e fazeres da comunidade, articulando-os com as potencialidades naturais da região.

Na zona rural, essa rota representa outro eixo de desenvolvimento turístico em Nova Palmeira, baseado na vivência cultural e na valorização da história local. A comunidade começou a se reorganizar a partir dos anos 2000, após um período de esvaziamento causado principalmente pela escassez de água. A chegada de políticas públicas possibilitou a permanência e o retorno gradual de moradores.

O reconhecimento oficial como comunidade quilombola ocorreu por volta de 2012, após estudos realizados com apoio da Fundação Cultural Palmares, que confirmaram a origem do território como refúgio de pessoas escravizadas. A partir disso, os moradores passaram a se organizar formalmente, criando uma associação e fortalecendo sua identidade coletiva.

Atualmente, a Serra do Abreu reúne 37 famílias, distribuídas entre três municípios e dois estados, mas com forte pertencimento à Paraíba. Entre as principais atividades desenvolvidas estão a caprinocultura, como alternativa de renda e segurança alimentar, a produção inicial de derivados do leite de cabra, e a agricultura de subsistência, com o cultivo de milho, feijão e hortaliças, impulsionado pela perfuração de poços artesianos.

Louceira tradicional

A cerâmica artesanal é uma tradição mantida principalmente por Maria da Guia Silva Santos, que aprendeu o ofício com gerações anteriores e hoje busca mostrar o conhecimento aos mais jovens. Nesta comunidade também é desenvolvido o Turismo de vivência, conduzido pela liderança comunitária Diana Barbosa, que inclui trilhas pela caatinga e experiências culturais no território.

A produção de louça de barro, antes essencial para a sobrevivência, que era trocada por alimentos, hoje resiste como patrimônio cultural. Há iniciativas para resgatar o interesse dos jovens e inovar no design das peças, integrando a atividade ao turismo. Além disso, a comunidade projeta a criação de um pequeno museu em uma casa de taipa, com o objetivo de preservar a memória local e apresentar às novas gerações os modos de vida tradicionais.

“Eu vim de uma comunidade vizinha chamada Quixaba, da cidade de Picuí, em 2002, e a população daqui já tinha ido embora, só existiam três famílias. Antes dessas tecnologias sociais, a gente andava mais de três quilômetros para pegar água para beber, cozinhar e outros usos. A energia elétrica e as cisternas foram as principais melhorias que chegaram antes da Associação Quilombola Serra do Abreu. Atualmente, temos a manutenção das atividades artesanais, econômicas e culturais e com planos para desenvolver o turismo, que será nossa atividade principal daqui há alguns anos”, explica Diana.

A história da Serra do Abreu é marcada por dificuldades, mas também por forte organização social e resistência. Atualmente, os moradores buscam editais e parcerias para ampliar projetos sustentáveis, incluindo reuso de água e fortalecimento da economia local.

A combinação entre o trabalho social do CENEP e a vivência comunitária da Serra do Abreu posiciona Nova Palmeira como um destino emergente no turismo de experiência. “Mais do que atrativos naturais, o município oferece ao visitante a possibilidade de conexão com práticas sustentáveis, saberes tradicionais e histórias de superação que seguem moldando o futuro do território”, conclui Marcílio de Sousa.

Fonte: Sebrae-PB