logo paraiba total
logo paraiba total
drink
Foto: Arquivo Pessoal/ Paulo Nascimento

Jampa Gastronomia: Geração Z bebe menos e força bares e restaurantes a repensar o modelo de consumo

Paulo Nascimento comenta estudo que mostra que 46% dos jovens de 18 a 24 anos não bebem; setor se adapta com drinks sem álcool e foco em experiências

12 de março de 2026

O comportamento da minha geração, a chamada Geração Z (jovens nascidos entre o fim dos anos 1990 e o início da década de 2010)  tem chamado a atenção de pesquisadores e do setor de alimentação fora do lar. Estudos recentes indicam que os jovens estão consumindo menos bebidas alcoólicas, uma mudança que começa a impactar bares, restaurantes e a própria indústria de bebidas. Eu conversei com o ex-presidente da Abrasel, Arthur Lira e com o economista Vitor Nayron para entender esse fenômeno. 

Uma pesquisa intitulada “Como o álcool tem impactado a saúde dos brasileiros”, realizada pelo Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa), mostrou que entre jovens de 18 a 24 anos, 20% consomem álcool apenas uma vez por mês ou menos, enquanto 46% afirmam não beber.

A tendência não é exclusiva do Brasil. Um levantamento da empresa britânica Drinkaware analisou diferentes países e apontou que 26% dos jovens se consideram totalmente abstêmios.

Especialistas apontam que essa mudança está relacionada a novos hábitos e prioridades dessa geração, que demonstra maior preocupação com saúde, estética e desempenho físico. Em cidades como João Pessoa, por exemplo, o aumento do número de corridas de rua, grupos de atividade física e eventos esportivos é frequentemente citado como reflexo desse estilo de vida mais voltado ao bem-estar.

Mudança global no comportamento

Para Arthur Lira, ex-presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), a redução do consumo entre jovens não é uma percepção isolada do mercado, mas uma tendência confirmada por dados do setor.

Segundo ele, a queda é especialmente visível em segmentos tradicionais do mercado de bebidas.

“O consumo de álcool entre jovens diminuiu consideravelmente. É uma mudança global e estrutural. No setor cervejeiro, por exemplo, existem dados mostrando redução de produção e até fechamento de indústrias por causa da queda de consumo”, afirma.

O comportamento, no entanto, não é uniforme entre todos os tipos de bebidas. Enquanto cervejas e alguns destilados perderam espaço, outras categorias têm conseguido manter ou até ampliar seu mercado.

O gin, por exemplo, teve crescimento impulsionado pela cultura dos drinks. Ao mesmo tempo, cresce muito a procura por drinks sofisticados sem álcool, que hoje têm uma presença cada vez maior nos cardápios”, explica.

Experiência no lugar da bebida

Além da preocupação com saúde e estética, fatores econômicos e culturais também influenciam o comportamento da nova geração.

Para Lira, a forma de socialização mudou. Se antes sair para beber era o centro da convivência, hoje o foco está mais na experiência.

“Antes, socializar era praticamente sinônimo de beber. Hoje, o jovem associa o álcool a perda de performance física, ganho de peso ou queda de produtividade. Eles continuam saindo, mas direcionam o dinheiro para outras experiências”.

Esse redirecionamento inclui viagens, gastronomia, atividades esportivas ou compras de produtos ligados ao estilo de vida.

Outro fator apontado pelo empresário é a mudança na forma de interação social. Segundo ele, os jovens se reúnem menos presencialmente do que gerações anteriores.

“Há um componente comportamental. Muitos socializam mais pelas redes sociais ou ambientes virtuais. Casas noturnas, por exemplo, já não têm a mesma força de 10 ou 15 anos atrás”, afirma.

Impacto econômico ainda limitado

Para o economista Vitor Nayron, o fenômeno ilustra como mudanças sociais podem alterar padrões de consumo e influenciar diferentes setores da economia.

A economia é uma ciência social. Quando o comportamento muda, isso inevitavelmente tem impacto em determinados mercados”, explica.

Apesar disso, ele avalia que o efeito imediato sobre bares e restaurantes ainda é limitado.

Mesmo que exista uma redução entre jovens, outras faixas etárias continuam consumindo. Esse público mais velho ainda sustenta uma parte significativa da demanda”, afirma.

Segundo Nayron, o setor precisa observar a tendência, mas sem ignorar a diversidade de perfis de consumidores.

Consumo se transforma, não desaparece

Na avaliação do economista, a principal mudança não está necessariamente na diminuição da demanda por lazer ou alimentação fora de casa, mas na forma como o dinheiro é gasto.

“Quando a pessoa deixa de gastar com bebida alcoólica, esse recurso geralmente é direcionado para outros tipos de consumo. Pode ser gastronomia, cafés, experiências ou viagens. A demanda não desaparece, ela circula”, diz.

Ele cita como exemplo o próprio comportamento de jovens que frequentam restaurantes, mas priorizam outras experiências.

Há muitos grupos que preferem sair para comer ou ir a cafeterias, por exemplo, em vez de bares focados em bebida”, afirma.

Eventos ainda impulsionam o consumo

Mesmo com a mudança geracional, datas festivas e eventos culturais continuam sendo importantes motores para o setor.

Carnaval e festas juninas, por exemplo, tendem a elevar o consumo de bebidas alcoólicas em várias regiões do país.

No Nordeste, o período de São João pode durar quase um mês. Eventos assim acabam funcionando como um respiro para o setor”, explica Nayron.

Adaptação do mercado

Diante desse novo cenário, especialistas apontam que bares e restaurantes precisarão adaptar seus modelos de negócio, ampliando opções e valorizando experiências.

Cardápios com bebidas sem álcool mais elaboradas, ambientes voltados para convivência e eventos temáticos são algumas das estratégias que já começam a aparecer.

“Não é necessariamente uma reinvenção completa do setor, mas uma adaptação às novas tendências”, resume Arthur Lira.

Se a tendência de menor consumo de álcool entre jovens se consolidar nos próximos anos, a transformação poderá redesenhar parte da cultura de bares e restaurantes, substituindo a centralidade da bebida por uma lógica mais ampla de experiência, gastronomia e estilo de vida.

Paulo Nascimento

Divulgação

Sobre Paulo Nascimento 

 

Apaixonado por histórias e sabores, Paulo é estudante de Jornalismo na Paraíba e iniciou a carreira em portais voltados à economia e lifestyle, onde aprendeu a valorizar o olhar atento sobre o cotidiano. Recebeu a Comenda Mário Tourinho de Imprensa por uma reportagem  inovadora e já participou de coberturas em eventos de diferentes áreas. Hoje, integra a equipe da TV Correio e escreve sobre gastronomia,  paixão despertada em workshops do Estadão e do Paladar. Agora, assume o cargo de editor e colunista da Jampa Gastronomia.

 

Fonte: Paulo Nascimento