8,5 mi de MPEs estão negativadas; especialistas apontam onde estão errando e como sair da crise
Serviços lideram inadimplência com 55,2%; diagnóstico financeiro e os “3Rs do negócio” são estratégias para reorganização
12 de março de 2026
O Brasil encerrou 2025 com 8,9 milhões de empresas inadimplentes e cerca de R$ 213 bilhões em dívidas negativadas, segundo a Serasa Experian. Trata-se do maior patamar da série histórica e de um sinal relevante de deterioração no ambiente empresarial brasileiro.
A leitura superficial desses dados pode sugerir apenas escassez de crédito ou retração econômica. No entanto, especialistas alertam que o fenômeno revela, sobretudo, fragilidades estruturais de gestão. De acordo com Benito Pedro Vieira Santos, CEO da Avante Assessoria Empresarial e especialista em reestruturação e governança, a inadimplência elevada raramente é um evento isolado.
“A empresa normalmente não se torna inadimplente de forma repentina. Antes disso, ela já perdeu controle sobre o fluxo de caixa, opera com margens comprimidas sem reação proporcional, alonga o ciclo financeiro e passa a recorrer a crédito caro para sustentar ineficiências. Quando a negativação acontece, ela é apenas a consequência de um desequilíbrio que já vinha se formando”, afirma.
Micro e pequenas concentram maior impacto
Do total de empresas negativadas no fim de 2025, 8,5 milhões eram micro e pequenas empresas, responsáveis por R$ 185,4 bilhões em dívidas. O setor de Serviços lidera a participação entre os negócios inadimplentes, com 55,2%, seguido do Comércio, com 32,7%.
Esse recorte reforça a vulnerabilidade estrutural dos pequenos negócios, que tendem a ter menor acesso a linhas estruturadas de crédito, menor capacidade de absorver choques e maior dependência de decisões operacionais e financeiras disciplinadas.
Para Benito, o erro mais comum em momentos de pressão é buscar capital novo sem um diagnóstico prévio. “Sem análise profunda da estrutura de custos, da rentabilidade e da capacidade real de geração de caixa, a entrada de recursos pode apenas postergar o problema. A dívida deixa de ser instrumento de alavancagem e passa a ser fator de colapso quando não há governança mínima implantada”, ressalta.
Ele defende que a reorganização financeira deve envolver revisão de contratos, renegociação estratégica de passivos, corte de despesas improdutivas e implantação de controles gerenciais permanentes.
Como as empresas devem lidar com a situação
Para Reinaldo Domingos, presidente da Associação Brasileira de Profissionais de Educação Financeira, o enfrentamento da inadimplência começa com mudança de postura e educação financeira aplicada ao negócio. “Para as empresas que já estão inadimplentes, administrar o caixa nesse cenário é complexo, mas não impossível. A principal orientação é que é preciso ter educação financeira”, afirma.
Segundo ele, o primeiro passo é realizar um diagnóstico completo da situação financeira, identificando com precisão receitas, custos fixos e variáveis, margem de lucro e estrutura de endividamento. “As empresas precisam fazer constantemente um diagnóstico da sua situação financeira, conhecer todos os seus custos e receitas e desenvolver um planejamento detalhado para os próximos meses e anos. Isso deve ser feito independentemente da situação da empresa, mas é imprescindível em caso de inadimplência”, explica.
Reinaldo também alerta para o risco de recorrer a empréstimos como solução imediata sem reestruturação interna. “Muitas vezes, ao perceber o aperto no caixa, o empreendedor busca crédito para ganhar fôlego. Se não houver ajuste estrutural, isso apenas amplia o comprometimento da saúde financeira.”
Os 3Rs do Negócio Sustentável
Como diretriz preventiva e corretiva, ele propõe a prática dos 3Rs do Negócio Sustentável:
- Rentabilidade: o negócio precisa gerar lucro ou superávit de forma consistente.
- Recorrência: é necessário manter faturamento contínuo e previsível.
- Reserva: formar recursos financeiros suficientes para enfrentar imprevistos e garantir continuidade operacional.
“Sem rentabilidade, recorrência e reserva, qualquer oscilação econômica pode comprometer o negócio”, destaca.
Passos práticos para reorganizar as dívidas
Para empresas que já enfrentam dificuldades, Domingos orienta:
- Identificar como e quando as dívidas foram geradas.
- Levantar detalhadamente todas as obrigações vencidas e vincendas, com valores, juros, multas e riscos jurídicos.
- Verificar se o negócio gera lucro e qual é sua real capacidade de pagamento.
- Reduzir custos improdutivos e desperdícios, se necessário.
- Estabelecer prioridades no pagamento, considerando valor, risco e custo financeiro.
“É fundamental que o empresário entenda que a tomada de decisão parte dele. Empreender é decidir, realizar e executar algo com estratégia e missão definida, sempre em busca de resultados”, conclui. O avanço da inadimplência empresarial no Brasil, portanto, deve ser interpretado menos como um fenômeno isolado de crédito e mais como um alerta sobre gestão, disciplina financeira e governança. A dívida, nesse contexto, é muitas vezes apenas o sintoma mais visível de um problema que começou bem antes.
Fonte: Assessoria