Setor de mobilidade cresce, mas mulheres ainda são só 1 em cada 9 motoristas
Participação feminina no transporte é de 11,2%; no delivery, chega a 5,8%. Dados mostram consolidação lenta e barreiras estruturais
9 de março de 2026
Em um mercado que cresceu impulsionado pela promessa de flexibilidade e autonomia, a mobilidade por aplicativo ainda é majoritariamente masculina. No Mês da Mulher, os dados ajudam a tirar o debate do campo simbólico e levá-lo à dimensão estrutural. Levantamento do Data Gaudium, núcleo de inteligência da Gaudium, com base em corridas e entregas realizadas em 2024 e 2025 em todo o país, mostra que mulheres representam cerca de 11% dos motoristas de transporte por aplicativo e 6% dos profissionais de entrega. O percentual não avança de forma significativa, mas tampouco recua. Em um setor historicamente dominado por homens, essa estabilidade revela menos estagnação e mais consolidação de presença.
No transporte de passageiros, a participação feminina era de 11,53% em 2024 e passou para 11,21% em 2025. A oscilação de 0,32 ponto percentual mantém o índice acima de 11% pelo segundo ano consecutivo. Em termos absolutos, trata-se de um contingente pequeno diante do universo total de condutores. Em termos estruturais, porém, indica que a presença não é pontual nem circunstancial. Em um setor marcado por jornadas extensas, renda variável e exposição cotidiana à violência urbana, permanecer já é um dado relevante.
No delivery, a base é ainda mais enxuta, mas apresenta leve crescimento. A participação feminina subiu de 5,55% para 5,85% no mesmo período. O avanço de 0,30 ponto percentual sugere que, mesmo em uma atividade associada a maior desgaste físico e vulnerabilidade nas ruas, há entrada gradual de mulheres. O movimento é lento, mas consistente.
O dado mais relevante talvez não esteja na variação anual, mas na consolidação de um piso. Após anos em que a mobilidade por aplicativo foi apresentada como alternativa flexível e aberta a todos, a composição do setor mostra que barreiras de gênero seguem operando. Questões como segurança e sobrecarga doméstica continuam pesando. “Muitas mulheres acabam precisando ficar em casa e cuidar de suas famílias”, afirma a motorista e empresária Luciana Marçura.
Luciana administra há quatro anos um aplicativo de transporte exclusivo para mulheres. “Nosso modelo permite que mais mulheres se tornem motoristas, já que atendem exclusivamente outras mulheres, crianças e idosos. Em Sorocaba, já somos mais de 2.200 motoristas cadastradas”, relata. A experiência aponta para um caminho recorrente em mercados desiguais: a criação de soluções paralelas como resposta a riscos e restrições que o modelo dominante ainda não resolve.
Os números indicam que a economia de aplicativos já incorporou a presença feminina como parte de sua base operacional, ainda que em proporção reduzida. “Não se trata de um avanço acelerado, mas de ocupação gradual de espaço. Em um mercado que cresce e se profissionaliza, a questão deixa de ser se as mulheres estarão presentes e passa a ser em que condições e com que suporte estrutural elas conseguirão ampliar essa participação. É nesse ponto que o debate sobre mobilidade e igualdade efetivamente se encontra”, afirma Vinícius Guahy, coordenador de conteúdo e comunidade da Gaudium.