Ricardo Nogueira: “Um edifício pode deixar de ser apenas um produto imobiliário e passar a carregar um significado urbano”
Arquiteto explica como conceitos literários como introspecção e tempo orientaram decisões espaciais no empreendimento da Castro Desenvolvimento Imobiliário
19 de fevereiro de 2026
Arquiteto e urbanista pessoense, Ricardo Nogueira construiu uma trajetória marcada pelo minimalismo contemporâneo e pela busca de significado nos espaços que projeta. No Parque Lispector, empreendimento da Castro Desenvolvimento Imobiliário, ele parte do universo sensível de Clarice Lispector para criar uma arquitetura que valoriza o silêncio, o vazio e a experiência cotidiana de quem habita a cidade. Nesta entrevista, Nogueira explica como conceitos literários podem orientar decisões espaciais, como evitar que referências culturais se tornem apenas rótulos e por que introduzir narrativa e intenção na arquitetura pode transformar não só os edifícios, mas também a forma como as pessoas se relacionam com o lugar onde vivem.
O que, na sua leitura, torna a obra de Clarice Lispector uma referência possível para a arquitetura?
A obra de Clarice propõe uma atenção ao que não é imediatamente visível. O silêncio, em especial, aparece como matéria, algo que pode ser traduzido arquitetonicamente pela contenção, pela escolha de materiais e pelo cuidado com os detalhes. No projeto, isso se manifesta na sobriedade dos materiais internos e em elementos pontuais, como as bolachas de mármore do hall, onde palavras surgem de forma discreta, convidando à observação.
De que forma conceitos como silêncio, introspecção, tempo e sensibilidade foram traduzidos em decisões espaciais, volumétricas ou na relação do edifício com a cidade?
No Parque Lispector, o silêncio foi trabalhado por meio de respiros volumétricos e pela valorização do vazio. A introspecção aparece nos percursos menos diretos e nos espaços de pausa, que criam momentos de desaceleração em meio à cidade. O tempo foi entendido como um elemento de projeto, presente na forma como luz e sombra percorrem as superfícies ao longo do dia.
A sensibilidade está nas texturas, na escala do corpo e em detalhes quase imperceptíveis, mas fundamentais para a experiência do espaço. A relação com a cidade é direta, sem gestos excessivos, buscando uma presença que dialoga em vez de se impor.
Como evitar que um nome consagrado se torne apenas um rótulo e garantir que ele realmente esteja representado no projeto?
Evitar o rótulo passa por tratar o nome como um ponto de partida, não como um artifício. No projeto, as decisões, da implantação ao desenho da fachada, foram guiadas por uma busca de coerência com ideias associadas à obra de Clarice, como profundidade, deslocamento e sutileza. A intenção não foi fazer uma homenagem literal, mas estabelecer um diálogo. Isso exige consistência e disposição para fugir das soluções mais evidentes.
No caso do Parque Lispector, o nome influencia apenas o conceito ou também a experiência cotidiana de quem vai morar ali?
Influencia também a experiência cotidiana. Quando um edifício se relaciona com uma referência cultural, ele pode deixar de ser apenas um produto imobiliário e passar a carregar um significado urbano. Essa camada simbólica se reflete na forma como os espaços são vividos, percebidos e apropriados ao longo do tempo.
Que tipo de reflexão esse movimento pode provocar no mercado e nos próprios moradores?
No contexto brasileiro, onde a arquitetura residencial muitas vezes se apoia em estéticas padronizadas ou em uma ideia de valor associada apenas ao luxo, esse tipo de abordagem sugere outro caminho. Trata-se de introduzir significado, narrativa e intenção como parte do projeto, ampliando a relação das pessoas com o lugar onde vivem.
Fonte: Vivass Comunicação