Amantes de verão vs. caçadores de Carnaval: como a nacionalidade influencia as viagens no Brasil
Estudo do Mastercard Economics Institute mostra que argentinos concentram gastos em varejo, enquanto europeus e americanos priorizam experiências; sul-americanos viajam mais no verão e europeus chegam para o Carnaval
18 de fevereiro de 2026
O Brasil se prepara para o Carnaval com um ímpeto incomum. Em 2025, o país registrou 9,3 milhões de chegadas de turistas internacionais, o maior número da série histórica. Isso representa um aumento de 37,1% em relação a 2024 (cerca de 6,7 milhões de visitantes) e supera a meta nacional de 2025 (6,9 milhões) em 34,6%. O turismo receptivo não está apenas se recuperando, como está em franca expansão. [gov.br]
Mas a alta temporada turística no Brasil não se resume a um único momento. É um período extenso que vai de janeiro a março, e os visitantes não encaram esse período da mesma maneira. O momento da viagem, a duração da estadia e o perfil de gastos podem variar bastante dependendo da origem dos turistas.
Essa diferença é importante porque altera a composição da demanda exatamente no momento em que cidades e empresas enfrentam a maior pressão operacional. Quando o perfil dos visitantes muda, os tipos de gastos subsequentes também podem mudar. O mesmo número de visitantes pode gerar resultados econômicos muito diferentes.
Duas ondas de verão, não uma única “alta temporada”
Uma maneira simples de pensar no turismo de início de ano no Brasil é como duas ondas sobrepostas:
- “Amantes do verão”: visitantes que vêm principalmente para as semanas de praia e o período de férias escolares, e que geralmente partem antes do início do Carnaval.
- “Caçadores de Carnaval”: visitantes que planejam sua viagem em torno das festividades e eventos culturais, e cuja presença (e gastos) aumenta durante o período do Carnaval.
Ambos os grupos podem estar presentes nos primeiros meses. A principal diferença é o que acontece à medida que o Carnaval se aproxima.
Para entender como a demanda por viagens muda do verão para o Carnaval, o Mastercard Economics Institute analisou gastos com cartão de forma anônima no Rio de Janeiro, Salvador e Ipojuca (Porto de Galinhas). Comparamos os padrões de gastos por país de origem dos visitantes, com foco nas semanas próximas ao Carnaval em comparação com o período anterior do verão.
O que emerge é um padrão consistente entre os destinos analisados:
- O número de visitantes sul-americanos tende a atingir o pico mais cedo, durante o auge do verão, e depois diminui à medida que o Carnaval se aproxima.
- Os gastos de turistas europeus e americanos aumentam consideravelmente durante o período do Carnaval, o que condiz com a chegada de visitantes cuja viagem gira em torno das festividades.
A implicação é clara: o Brasil não está simplesmente recebendo “mais turistas” no início da alta temporada. O País está recebendo diferentes perfis de turistas em diferentes momentos da temporada, e isso pode remodelar a economia local semana após semana.
Do samba às compras: o que os gastos dos turistas revelam sobre a economia do turismo no Brasil
Mesmo quando os turistas frequentam as mesmas ruas, festas e eventos, eles não participam da economia local da mesma maneira. Durante o Carnaval, a distribuição dos gastos pode variar bastante dependendo da nacionalidade.
Um grupo em particular se destaca: os argentinos.
Nos dados de gastos, os turistas argentinos destinam uma parcela muito maior de seu orçamento as compras no varejo, especialmente em categorias como vestuário e eletrônicos. Em contrapartida, outros visitantes estrangeiros tendem a concentrar seus gastos em serviços e experiências, incluindo restaurantes, hospedagem e atividades pagas.
Na prática, isso significa que o impacto econômico do Carnaval pode variar de acordo com o destino, dependendo se a cidade está posicionada para captar a demanda do varejo, a demanda por experiências ou ambas.
O gráfico abaixo compara a distribuição percentual dos gastos durante o Carnaval do Rio de Janeiro entre turistas dos principais mercados emissores. Os visitantes da Argentina apresentam um perfil com maior foco em compras, enquanto os demais visitantes tendem a priorizar experiências.
Em resumo: os argentinos tendem a priorizar uma “cesta de compras”, enquanto outros turistas preferem uma “cesta de experiências.”
Esse padrão também se repete em outros destinos turísticos importantes e fora do período do Carnaval. Isso sugere que não é causado pelo Carnaval em si. Parece mais um comportamento persistente do consumidor ligado ao mercado de origem. Essa diferença no comportamento de gastos é especialmente relevante considerando o contexto turístico mais amplo. A Argentina não é apenas um dos mercados de origem mais importantes para o Brasil, como também parece ter sido um fator-chave para o forte crescimento das chegadas de turistas internacionais em 2025.
Essa combinação pode produzir “vencedores” muito diferentes dentro de uma economia local:
- Um destino com forte infraestrutura de varejo pode se beneficiar desproporcionalmente quando o volume de turistas argentinos é alto.
- Um destino com forte capacidade de hospitalidade e experiências pagas pode capturar mais oportunidades com a onda de visitantes europeus e americanos focados no Carnaval.
Consideradas em conjunto, essas duas perspectivas esclarecem por que a história do turismo durante o Carnaval é mais complexa do que uma simples classificação como “alta temporada”. Os turistas sul-americanos impulsionam a temporada de verão em geral, mas muitos deixam o país antes do pico do Carnaval. Enquanto isso, europeus e americanos intensificam sua presença durante o Carnaval e geram maiores gastos em categorias que priorizam experiências, como restaurantes e atividades. Ao mesmo tempo, o perfil de gastos dos turistas argentinos é peculiar, com uma forte tendência às compras, o que pode influenciar quais setores locais se beneficiam mais.
O Carnaval é frequentemente descrito como a maior exportação cultural do Brasil. Os dados de gastos sugerem um ponto complementar: trata-se também de um evento econômico segmentado, em que o período e a composição dos gastos variam de acordo com o público presente. Compreender esses padrões é o que diferencia simplesmente receber uma multidão de aproveitar o potencial econômico do evento. Para as empresas, isso afeta as decisões sobre contratação e estoque. Para as cidades, impacta o planejamento urbano, os serviços públicos e a forma de alinhar a oferta local com as demandas reais dos diferentes visitantes.