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Foto: Divulgação

Silos do Recife inspiram reflexão: retrofit como política urbana pode reviver o Centro Histórico de JP

Especialista defere reaproveitamento de prédios vazios e degradados para frear expansão periférica e trazer moradia e vitalidade ao coração da cidade

21 de janeiro de 2026

Mais que um feito arquitetônico ou de engenharia, a conversão dos antigos silos do Moinho Recife pela Moura Dubeaux em edifícios residenciais é uma escolha política urbana. Ao transformar estruturas industriais centenárias em moradia, convivência e vitalidade econômica, a cidade mostra que crescimento urbano pode nascer do reaproveitamento inteligente do que já existe e não da expansão contínua para novas áreas.

João Pessoa convive com desafios semelhantes. O Centro Histórico, o Varadouro, o Porto do Capim e trechos inteiros da área central acumulam imóveis vazios, subutilizados ou degradados, apesar de estarem cercados por infraestrutura, serviços e valor simbólico. A lógica atual ainda privilegia a verticalização periférica, enquanto o miolo da cidade perde moradores, comércio e presença cotidiana, abrindo espaço para mais degradação e insegurança.

Essas construções poderiam cumprir nova função urbana, como moradia, convivência e economia criativa. Reocupar o que já existe é reurbanizar, é mais inteligente, sustentável e humano do que empurrar a cidade para as bordas, pois “retrofit”não é luxo, é política pública urbana moderna, a exemplo do que já fizeram outras capitais como São Paulo.

Centro histórico como mero cenário de Instagram

Segundo o presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo da Paraíba, Ricardo Vidal, o retrofit deve ser visto como escolha urbana e política, e não como saudosismo arquitetônico: “O exemplo do Recife deixa claro que cidades maduras crescem para dentro, reaproveitando infraestrutura, memória e localização, em vez de empurrar a expansão sempre para a periferia. Em João Pessoa, seguimos repetindo um erro antigo ao tolerar o esvaziamento do Centro Histórico enquanto estimulamos novas frentes de adensamento”.

Ele acrescentou que existem discurso e política pública estruturadas, porém ainda incipientes, sendo necessário mais segurança jurídica e continuidade institucional. “Centro histórico não pode virar apenas cenário de Instagram. Uma cidade viva se faz com gente morando, trabalhando e ocupando o espaço todos os dias”.

Incentivos tímidos na Capital paraibana

Do ponto de vista institucional, ainda são tímidos os incentivos estruturados para retrofit e reuso urbano na capital paraibana. A Prefeitura de João Pessoa avança pontualmente em projetos de requalificação, mas carece de uma política contínua que estimule a transformação de prédios antigos em habitação e uso misto. A Câmara Municipal poderia exercer papel decisivo ao modernizar o debate urbanístico, criando instrumentos legais que reduzam entraves, flexibilizem usos e incentivem investidores comprometidos com preservação e função social.

A “Queridinha do Nordeste” deveria buscar inspiração na positiva transformação urbanística causada pela recuperação dos antigos silos do Moinho Recife com um olhar mais apurado e coragem para ocupar seus vazios urbanos e estruturas esquecidas.

No plano estadual, o Governo da Paraíba também poderia integrar esse esforço com linhas de crédito, incentivos fiscais e parcerias público-privadas voltadas à reocupação de áreas centrais.

BNB resiste e investe

O Banco do Nordeste no Brasil faz a sua parte mantendo em pleno funcionamento sua agência localizada na Gama e Melo, no Varadouro, com projeto que diz respeito à utilização de recursos do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE) para ações de requalificação de áreas centrais e históricas das cidades.

O exemplo do Recife mostra que retrofit não é nostalgia, é estratégia econômica, ambiental e social. João Pessoa já tem história, localização e potencial. Falta transformar isso em política urbana clara antes que o centro se torne apenas cenário, e não lugar de vida.

Fonte: Assessoria