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Consumo e Capitalismo Consciente, por Thaisa Bogoni: Os vários papéis do meu eu econômico

Consumo e Capitalismo Consciente, por Thaisa Bogoni: Os vários papéis do meu eu econômico

30 de março de 2023

Segundo previsões, em 2100 seremos mais de 10 bilhões de pessoas habitando o mesmo planeta. E o que significará convivermos dividindo espaços e recursos se continuarmos destruindo a Terra como fazemos atualmente? Diariamente vemos notícias sobre catástrofes, consequências das ações dos homens que ceifam milhares de vidas e destroem não só o meio ambiente, mas casas, comércios, indústrias e cidades inteiras.

Por isso, dando sequência aos assuntos dos meses anteriores, onde abordei: Por que a situação da economia circular piora ano após ano? e Como a atuação das empresas pode ser regenerativa?, neste novo texto falarei sobre como o indivíduo, exercendo seu papel de cidadão e consumidor dentro da sociedade, também é fundamental no elenco que atua para formar o modelo da Economia Integrada.

O homo economicus

Em seu livro Economia Donut, Kate Raworth diz que o homo economicus é considerado a menor unidade de análise na teoria econômica, sendo equivalente ao átomo na física, e do mesmo modo que este, sua composição possui consequências profundas. Como características, ela cita que esta espécie é solitária, calculista, competitiva e insaciável, e que demonstra pouco ou nenhum interesse pela satisfação dos direitos humanos e do meio ambiente.

Talvez esta seja sim a realidade da maioria das pessoas, talvez muitas ainda não tenham despertado para compreender as consequências das suas atitudes como seres que pensam e agem todos os dias realizando diversas coisas que podem inflamar ainda mais o cenário de permanente deterioração. Porém, também já vemos quem está buscando evoluir, com consciência da importância das suas decisões e dos seus pequenos atos, coisas que parecem simples, mas que quando são multiplicadas por 10 bilhões, podem fazer a diferença. Do momento em que você acorda de manhã até a hora que se deita para dormir, pense em quantas destas ações você faz automaticamente: escovar os dentes, tomar banho, escolher que roupa irá usar, tomar café da manhã, lavar a louça, colocar a roupa na máquina para bater, dirigir até a escola dos filhos e ao trabalho, passar no supermercado, na padaria, na farmácia, almoçar, comprar um presente no shopping, acessar seu e-mail e páginas favoritas nas redes sociais, jogar coisas no lixo, ir para academia, pedir comida pelo aplicativo, assistir sua série favorita, carregar o celular. Em todos estes momentos agimos sem nem pensar direito, tomando pequenas decisões que podem impactar positiva ou negativamente a vida das pessoas ao nosso redor, o futuro das próximas gerações, o meio ambiente e a existência do planeta.

Como seres em constante evolução, precisamos realizar breves reflexões diárias e buscar um reencontro com nós mesmos, para pintar um novo retrato a respeito do nosso eu econômico e do nosso papel dentro de um ecossistema maior, dentro das comunidades que fazemos parte, da sociedade e do país em que vivemos. Para a criação desta obra de arte, Kate Raworth propõe explorarmos cinco grandes alterações na representação de quem nós somos, buscando cultivar um espaço seguro, justo e próspero para a humanidade e dentro de um modelo econômico que respeite os limites planetários:

1) em vez de seres egoístas e autocentrados, sermos sociais e recíprocos;

2) em vez de preferências inflexíveis, termos valores fluidos;

3) em vez de isolados, sermos interdependentes;

4) em vez de calcular, geralmente aproximarmos;

5) longe de dominar a natureza, estarmos profundamente integrados na teia da vida.

Assim, podemos fazer escolhas mais conscientes e mudar hábitos simples, compreendendo que nossos papéis individuais como cidadãos e consumidores fazem sim a diferença, seja nas coisas corriqueiras ou num âmbito muito maior.

Os perfis dos consumidores com hábitos sustentáveis

Sabemos que existem vários tipos consumidores e alguns relatórios de tendências apresentam anualmente quais deles estão em destaque, buscando traçar perfis de comportamento, preferências e estilos de vida que servem de guia para as empresas definirem suas estratégias de relacionamento, prospecção e comunicação de valor aos seus públicos de interesse. E para corroborar a ideia de que o ser humano está buscando novos e melhores rumos pensando também no bem coletivo, algo que tem aparecido em vários destes relatórios é a busca por um comportamento de consumo mais consciente, com pessoas preocupadas com as consequências das suas ações, optando por produtos e serviços sustentáveis, por marcas com programas sólidos atrelados ao conceito do ESG e iniciativas que demonstrem na prática como incorporam na sua realidade o que apresentam em seu posicionamento de mercado.

Assim, apresentarei a seguir alguns destes perfis, que reforçam a intenção dos indivíduos em compreender as consequências das suas ações e contribuir com a redução das compras por impulso, do desperdício, do exagero, do descarte irregular e priorizar o desenvolvimento de uma economia regenerativa e circular.

  1. Mente Verde

De acordo com o relatório de tendências 2022/2023 do Sebrae PR, na última década houve a ascensão de movimentos como o veganismo, a Economia Circular, e ações populares para pressionar instituições com pouca responsabilidade ambiental. Estas preocupações se intensificaram nos últimos anos e o público estará mais inclinado a se preocupar em consumir de forma consciente, dando prioridade às empresas que realizam ações verdadeiramente relevantes para as causas que defendem.

  • Estilo de vida compartilhado

O relatório Consumidor do Futuro 2024 da WSGN apresenta o perfil dos Conectores, composto prioritariamente pelos Millennials, e tem como interesse explorar a economia do compartilhamento, pois esta geração encontra-se frente a diversos compromissos financeiros e busca por alternativas para conseguir honrá-los. Além disso, estão atentos aos custos por uso, às questões da sustentabilidade e à autenticação garantidas por rótulos e etiquetas, propulsores de valor que resultam em vendas e postagens nas redes sociais.

  • Localismo internacional

Segundo o relatório Tendências Globais de Consumo 2023 elaborado pela Mintel, comprar localmente será uma forma encontrada pelos consumidores para se protegerem financeiramente, ambientalmente e psicologicamente, além de alimentarem o sentimento de reciprocidade.  Outro ponto é que os consumidores estão redefinindo o que significa valor para eles, buscando gastar mais intencionalmente. Em momentos de crise e incerteza, querem fazer escolhas financeiras inteligentes, sem sacrificar sua qualidade de vida, considerando fatores como flexibilidade e durabilidade, fazendo com que a sustentabilidade desempenhe um papel cada vez mais importante na equação de valor percebido.

  • Ecoeconômicos

Conforme o relatório das 10 Principais Tendências Globais de Consumo para 2023 da Euromonitor, este perfil tem a sustentabilidade como padrão e a consciência de que os cortes não são de todo ruins. A opção econômica passou a ser limitar e reduzir. As organizações estão se esforçando para ajudar este perfil de consumidores a economizar seu dinheiro e salvar o planeta. As motivações de compra deles também decorrem do desejo pós-Covid-19 de se viver com mais responsabilidade e por isso mantém alguns hábitos criados durante a pandemia, optando por produtos que economizam energia, comer em casa, reduzir o uso de eletrodomésticos e limitar as viagens, além de ser relevante o aumento no número de pessoas que estão dispostas a comprar itens de segunda mão.

Uma nova economia construída por um novo ser humano

A oportunidade de conhecer todos estes perfis é um convite para repensarmos nossos hábitos e enxergarmos novas possibilidades, que contemplam uma série de vantagens e benefícios, não apenas para quem adota boas práticas, mas que reverberam a todos que estão ao redor. Deste modo, esta combinação de fatores e resultados positivos deve ser encarada como algo além de uma opção, com uma profunda compreensão de que mudar é o único caminho possível na busca por mitigar os impactos negativos que conduzem o atual sistema econômico colapsado e inviabilizam a existências dos seres humanos, das empresas e do planeta como conhecemos hoje. O futuro dependerá de pessoas conscientes, solidárias e engajadas em seu papel individual para a construção de um novo senso de coletivo e de uma nova e próspera economia.

Sobre Thaisa Bogoni

Mãe do Otto, esposa do Diogo, curitibana que recentemente mudou de João Pessoa para Belo Horizonte, feminista integrante do Projeto LIS e yogi na horas vagas. Publicitária, especialista em Marketing e Gestão de Projetos com mais de 15 anos de experiência no mercado, atuando em diversos segmentos como educação e tecnologia. Apaixonada pela área de comportamento do consumidor, dedico minhas pesquisas à pauta do consumo consciente e moda sustentável. Conselheira do Instituto Capitalismo Consciente Brasil na filial Nordeste, busco contribuir com a expansão, ações e parcerias da região.