Consumo e Capitalismo Consciente, por Thaisa Bogoni: Tendências de consumo consciente para 2023
27 de dezembro de 2022
O fim do ano está chegando e eu acredito que ter um comportamento de consumo mais consciente e sustentável é algo muito além de uma tendência, porém é preciso entender e acompanhar quais possibilidades são mais palpáveis no momento, estão mais próximas de acontecer e se tornar realidade no nosso dia-a-dia, aprimorando nossa rotina e atuação profissional. Por isso, no meu último artigo deste ano resolvi selecionar as 12 tendências previstas para 2023 que achei mais interessante, apresentadas em relatórios e estudos elaborados pelas principais redes sociais e empresas de pesquisa de mercado. Assim, podemos acompanhar desde já e ver o que realmente vai se concretizar, entendendo como, quando e onde aplicá-las, seja como novos hábitos de consumo ou como insights para aprimorar projetos e demandas de trabalho.
Meu critério de escolha foi simplesmente atrelar essas tendências à pauta da sustentabilidade, entendendo como as mesmas poderão contribuir para a geração de impactos socioambientais positivos. Junto com cada conteúdo estão os links para quem quiser analisar os conteúdos completos. Então vamos lá:
1 – Brasileiros estão dispostos a pagar mais por alimentos saudáveis
De acordo com pesquisa realizada pelo Instituto Akatu e GlobeScan e publicada pelo UOL, 64% dos brasileiros estariam dispostos a pagar um preço acima da média por alimentos saudáveis e produzidos de forma sustentável. O estudo é realizado anualmente em mais de 30 países e no Brasil foram entrevistadas 1000 pessoas. De acordo com Bruna Tiussu, gerente de Comunicação do Akatu: “A partir do momento em que a pessoa compreende o porquê esse produto é um pouco mais caro, se entende que isso está por trás daquele atributo de sustentabilidade, ela fica mais disposta a pagar por isso. Precisa ter esse entendimento e aqui tem uma grande oportunidade para as empresas trabalharem”.
Na média mundial, a disposição a pagar mais por alimentos saudáveis e sustentáveis foi citada por 61% dos entrevistados. Além disso, 54% dos brasileiros disseram que suas decisões de compra são muito influenciadas por marcas que impulsionam a agricultura sustentável, que desenvolvem programas de uso eficiente de água e reciclagem/reuso de embalagens e que proporcionam ajuda humanitária.
2 – Os táxis vão decolar
De acordo com relatório Big Ideas 2023 publicado pelo LinkedIn notícias Brasil, mesmo inicialmente sendo considerado um meio de transporte para ricos, os táxis voadores têm sido vistos como uma excelente alternativa para substituir os meios de locomoção que usam combustíveis poluentes e devem ter um crescimento considerável nos próximos anos.
Conhecidos como eVTOLS (sigla em inglês para veículo elétrico de decolagem e pouso vertical), os táxis voadores são parecidos com drones que são grandes o bastante para carregar pessoas e podem voar de maneira autônoma até um destino. Atualmente existem cerca de 300 eVTOLs sendo concebidos ao redor do mundo e essa indústria foi responsável por movimentar mais de U$ 6 bilhões em investimentos privados nos últimos dois anos. Diversas empresas pelo mundo estão buscando as certificações necessárias para operar com este tipo de transporte, incluindo companhias aéreas como a United Airlines. No Brasil, a Eve Air Mobility, subsidiária da Embraer, pretende iniciar seus testes conectando a Barra da Tijuca ao Aeroporto do Galeão a partir do próximo ano.
3- O turismo precisará se reinventar
Também de acordo com o relatório do LinkedIn, neste ano uma determinação do governo francês chamou a atenção do mundo por ter sido avaliada como uma importante iniciativa na busca pela redução das emissões de carbono em 40% até 2030: a proibição de voos domésticos entre destinos que estejam a menos de duas horas e meia de trem. Além desta restrição no setor de viagens ter ganhado forte apoio de outros países da Europa, a ONU estima que as emissões de CO2 relacionadas ao turismo devem aumentar 25% na próxima década, assim prevê-se que em breve outros governos deverão seguir pelo mesmo caminho. Mesmo com um movimento global em prol da sustentabilidade relatando a necessidade da redução do número de voos e viagens, é indiscutível a grande importância da indústria do turismo em todo mundo, que só aqui no Brasil responde por 8,1% do PIB.
Por isso, seja como um propulsor da economia, com grande movimentação de dinheiro e geração de empregos, seja por proporcionar benefícios relacionados alazer, intercâmbio cultural e integração de povos, entende-se que a melhor saída para este setor é abusca pela transformação. Isso mostra que a indústria do turismo terá pela frente um grande desafio de se reinventar para não se freada, criando alternativas viáveis para mitigar os problemas que causa atualmente e incentivando os turistas a escolherem opções mais sustentáveis no planejamento das suas viagens.
4 – Planeta Água
Segundo o relatório PinterestPredicts 2023, a água é um item fundamental que se tornou ainda mais valorizado nos momentos em que as pessoas buscam viver de um jeito mais verde. Por este motivo, a geração X e os boomers estão pesquisando soluções sustentáveis para poupar e reutilizar este recurso dentro de casa, que vão desde a criação de projetos arquitetônicos até coletores de chuva para oquintal. Veja a seguir o quanto cresceram as buscas por alguns termos relacionados a esta tendência:
– Arquitetura com aproveitamento de águas pluviais: +155%
– Paisagismo tolerante à seca: +385%
– Ideias de barris de coleta de chuva decorativos: +100%
– Drenagem com corrente de chuva: +35%
– Paisagismo com pedras para drenagem: +70%
Assim, esta tendência mostra que as pessoas estão se conscientizando de que é possível reduzir a pegada ecológica sem renunciar à beleza, unindo a elegância dos materiais naturais a soluções simples que auxiliam na proteçãoda casa contra a seca e outros desastres naturais.
5 – Entrando nos trilhos
Mais uma tendência citada pelo Pinterest Predicts 2023, também relacionada ao turismo, a geração Z e os millennials são os condutores dessa novidade. Viajar de trem é uma forma de conhecer lugares incríveis com mais conforto, praticidade e sustentabilidade. Confira a ascensão dos termos relacionados a este tema que foram mais pesquisados:
– Aesthetic de viagem de trem pela Europa: +105%
– Aesthetic de passeio de trem: +205%
– Aesthetic de viagem de trem: +40%
– Frases sobre viagem de trem: +285%
– Fotografia de estação de trem indiana: +175%
Ainda como um resquício atrelado aos efeitos da pandemia, percebe-se que as pessoas estão procurando maneiras de viajar que causem o menor impacto ecológico possível, aproveitando para optar pelas viagens de trem, que além de mais sustentáveis, também são mais tranquilas e encantadoras.
6- Localismo Internacional
Segundo o relatório Tendências globais do consumidor 2023, publicado pela agência de inteligência de mercado Mintel, comprar localmente será uma forma dos consumidores se sentirem protegidos financeiramente, ambientalmente ou psicologicamente, além de sentirem que estão retribuindo o que recebem egerando impactos positivos.
Com tantas incertezas a nível global (questões relacionadas à economia, sustentabilidade, cadeias de suprimentos e conflitos), haverá um maior movimento para proteger os recursos e impulsionar os negócios locais. Trata-se não apenas de uma ressaca da pandemia, mas também um reflexo dos consumidores que buscam mudar atitudes em relação ao que é importante para eles.
Muitos consumidores associam produtos locais a produtos mais sustentáveis, levando os varejistas a cultivar essa conexão, reforçando seus benefícios. Por conta disso, as marcas estão sendo mais transparentes sobre onde e como seus produtos são feitos, permitindo que os consumidores olhem nos bastidores por meio de transmissões ao vivo, postagens em redes sociais e acesso a informações por QR Code.
7 – Gastos Intencionais
De acordo com mais uma tendência apresentada no relatório da Mintel, atributos como flexibilidade, durabilidade e sustentabilidade desempenharão serão cada vez mais importantes na equação de valor dos consumidores.
Viver num ambientede incertezas requer um uso conscientede recursos. Os consumidores estão buscando se concentrar no que significa valor para eles e como resultado gastar de forma mais e intencional. Em um ambiente econômico cheio de incertezas, os consumidores querem fazer escolhas financeiras inteligentes sem sacrificar sua qualidadede vida, focando em escolhas mais sustentáveis e que permitam um melhor custo x benefício numa avaliação a longo prazo. Conforme dado apresentado neste relatório, 62% dos consumidores brasileirosconcorda que se eles agiremagora ainda dá tempode salvar o planeta.
Por esta razão, até os próximos cinco anos será possível ver um número cada vez maior de marcas com propósitos emergirem com planos tangíveis e inovações que serão endereçados aos desafios de longo prazo enfrentados pela indústria, países e comunidades da qual fazem parte. E os consumidores verão valor em quem se posiciona no mercado com um propósito, apoiando marcas confiáveis que fazem a diferença à medida que também obtêm lucro, para garantir que suas escolhas diárias de consumo estejam alinhadas como futuro que aspiram.
8 – Estilos de vida compartilhados
Desde 2016 a WGSN vem analisando de que forma os millennials exploram a economia do compartilhamento. De acordo com o seu white paper Consumidor do futuro 2024, a medida que envelhecem, eles são tomados por outros compromissos financeiros, que muitas vezes não conseguem honrar. No modelo do compartilhamento, o consumidor pode comprar coisas em grupo que contribuem com o gerenciamento das contas.
Essa é uma tendência que está se popularizando, por exemplo no mercado imobiliário, onde muitas pessoas estão investindo em compras compartilhadas, informação comprovada pelo aumento de 771% na compra de imóveis nos EUA entre os anos de 2014 e 2021 ,cujos compradores têm sobrenomes diferentes. Este conceito de propriedade compartilhada também já está sendo usado na compra de carros, trailers e até mesmo escritórios, tendência que ganhará ainda mais força pela crescente procura por espaços híbridos e feitos sob demanda.
9 – Repensar rótulos e etiquetas
Às vezes, pequenos detalhes fazem grande diferença numa venda. Para os consumidores com perfil de Conectores, também de acordo com o White paper da WGSN, o custo por uso, a sustentabilidade e a autenticação garantida por rótulos e etiquetas são propulsoras de valor que resultam em vendas e postagens nas redes sociais. Embora não seja novidade, a tecnologia de rastreamento ainda tem muitos passos pela frente e vai ser uma expectativa de boa parte dos consumidoresa partir de 2023. Em 2021, a plataforma ‘SustainableMarkets’ e seu projeto ‘Initiative Fashion Taskforce’ apresentaram a Digital ID, uma tecnologia que rastreia uma peça de roupa da produção à venda e até mesmo à revenda, novidade que já vem sendo adotada por marcas como Armani, Mulberry e Chloé. Cada vez mais comuns, as etiquetas com dados de sustentabilidade são usadas para informar o público e reforçar o compromisso ambiental das marcas, possibilitando uma transparência total.
10 – Reciclar, Reutilizar, Reconstruir
De acordo com o relatório de Tendências 2023 do Instagram, que é realizado anualmente nos Estados Unidos, a partir do próximo ano os criativos da Geração Z planejam fazer moda com suas próprias mãos.A sustentabilidade é uma questão fundamental para esta geração, e à medida que as preocupações com o clima aumentam, roupas DIY (do it yourself, ou faça você mesmo, em tradução livre) tornam-se uma alternativa sustentável à moda rápida. No estudo mais da metade dos entrevistados disseram que planejam fazer suas roupas em 2023.
11- Mente verde
Na última década houve a ascensão de movimentos como o veganismo, a economia circular, e ações populares para pressionar instituições com pouca – ou nenhuma – responsabilidade ambiental. De acordo com o Guia de Tendências 2023 do SEBRAE-PR, estas preocupações tem se intensificado, atingindo cada vez mais pessoas. Por isso, nos próximos anos, o público estará mais inclinado a se preocupar em consumir de forma consciente, dando prioridade às empresas que realizam ações verdadeiramente relevantes para a causa.
Assim, empresas que desenvolvem produtos devem rever sua atuação preocupando-se com todo o ciclo de vida destes bens (da matéria prima até o descarte), além de ter critérios rigorosos para realizar a seleção de seus fornecedores e aprimorar as condições de trabalho e garantir os direitos dos seus empregados, englobando processos e políticas justos na atuação com todos os seus stakeholders, numa relação de transparência e ganhos para todos os envolvidos.
12 – Energias renováveis e emergentes
No assunto energia, temos vivenciado no Brasil e mundo afora problemas como a crise hídrica e, consequentemente, o desabastecimento das hidrelétricas. Também conforme o mesmo guia do SEBRAE-PR, a soma destes problemas com a crise econômica está despertando na população, e no próprio mundo empresarial, o interesse por alternativas mais estáveis ou rentáveis, como a energia solar, a energia eólica e a bioenergia. Considera-se também nesta tendência a decaída de fontes de energia não-renováveis e combustíveis fósseis, em especial o petróleo. O Brasil recebe mais de 2200 horas de irradiação solar por ano. Se esse potencial fosse aproveitado por painéis fotovoltaicos e convertido em energia elétrica, o Brasil poderia gerar até 15 trilhões de megawatts. Por isso, rever o modelo atual e migrar para uma das fontes de energia citadas pode ser considerada uma ótima opção para quem busca investimentos com retorno a médio prazo e pensar em deixar sua contribuição para o futuro das próximas gerações.