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Rejane Negreiros: “O país em que vivemos é marcado pelo machismo, patriarcado e furar as bolhas e barreiras que nos são impostas é essencial”

Rejane Negreiros: “O país em que vivemos é marcado pelo machismo, patriarcado e furar as bolhas e barreiras que nos são impostas é essencial”

Jornalista e editora do Portal “Política Por Elas” fala ainda sobre mulheres, politica e negócios

4 de julho de 2022

Rejane Negreiros: mais de 15 anos de carreira e há 14 atua no jornalismo político. É formada pela UFPB, mestranda em Ciência Política e Relações Internacionais e já passou pelas principais emissoras de TV da Paraíba e do Amazonas. É uma profissional multimídia: atua na TV, no Rádio e na internet como analista de política. É podcaster do ‘Política com Rejane Negreiros’ e editora do Blog Política por Elas.

Com toda essa bagagem, Rejane foi escolhida para ser a primeira convidada da série especial do podcast “Furacanizando”, da aceleradora de negócios Be.Labs — pioneira na aceleração de empresas exclusiva para mulheres do Nordeste. Rejane Negreiros destacou a importância da mulher nos negócios e política e da necessidade de ampliar os espaços de participação feminina na sociedade.

Na entrevista que segue, ela adianta como foi a conversa e fala ainda sobre mulheres, politica e negócios. 

Você é jornalista, mas também é empreendedora com o Portal “Política Por Elas”. Pela sua experiência, como vê o empreendedorismo feminino no Brasil?

Ser empreendedora no país não é fácil, não temos essa cultura. As dificuldades, precarização das relações de trabalho, desemprego, crise econômica, fizeram com que diversas pessoas tivessem que adotar esse caminho. Não romantizo em torno do empreendedorismo, pois, nem todos optam por isso, às vezes não têm opção e pela falta de intimidade, precisam aprender na marra. Apanha muito e muitas vezes quebra a cara. Também não é fácil porque temos impostos altíssimos. Estamos lutando por uma reforma tributária, um sistema mais justo, mas o que está sendo proposto hoje não responde a essa necessidade e é uma grande pena.

Como surgiu o “Política por Elas”?

No meu caso, com o “Política por Elas” foi uma busca, não uma necessidade financeira. Foi de alma, de cidadã, de profissional que busca um espaço mais democrático para se colocar. Busquei com Juliana Teixeira, minha sócia no blog há mais ou menos um ano e meio e houve um longo período de incubação. Estudamos e fomos aprendendo. Hoje contratamos uma jornalista para nos ajudar e uma empresa de marketing digital. É bacana ver como está crescendo e como exige organização e planejamento, foco. Não é fácil, mas estamos dispostas a continuar e espero que tenhamos mais políticas públicas voltadas para a capacitação da mulher, para que mais possam optar por esse caminho, se assim desejarem, inclusive de parcerias público-privadas, no sentido de enxergar talentos, oportunidades e principalmente aproveitá-las.

Como vê a participação feminina nos negócios na atualidade?

A participação feminina vem crescendo. De acordo com o IBGE, 46% dos novos empreendimentos são tocados por mulheres, ou seja, quase metade, mas por trás disso existe um ambiente de precarização e abandono. Muitas mulheres, mães solo, que precisam lidar com vulnerabilidade econômica e acabam ganhando muito menos para desempenhar as mesmas funções que o homem. Há uma precarização e desvalorização da mão de obra e do trabalho. Embora as mulheres sejam maioria nas universidades e no país, ainda assim nos espaços de poder elas ainda são minoria. Precisamos falar mais sobre isso e cobrar, inclusive dos nossos representantes no parlamento e no executivo, para que possam melhorar o ambiente de negócios para mulheres.

E a participação das mulheres na política?

Acredito que está crescendo. Ainda temos um ambiente de extrema fragilidade, muito instável. Temos a cota de gênero de 30%, mas temos um país machista, patriarcal e os homens de fato reinam meio que soberanos na política. Precisamos ampliar as discussões, fortalecer movimentos sociais para que mais mulheres possam estar nesses movimentos, ouvidas e empoderadas. Isso é cidadania consolidada e não semi-cidadania ou sub-cidadania. Precisamos lutar para combater a violência contra a mulher — de todo tipo. Muitas vezes acaba em morte, mas tem a violência patrimonial, econômica e psicológica para além da violência física. São várias ambiências que precisam ser combatidas para que a participação seja efetiva tanto nos negócios quanto na política.

Como vê esse tipo de impulsionamento que a Be.Labs faz com negócios exclusivamente de mulheres?

É fundamental ter uma mola propulsora, uma força capaz de juntar mulheres, identificar perfis, promover o aceleramento de ideias e negócios. Temos um ambiente ainda muito masculino, muito preconceito e quando falamos em uma aceleradora que promove mulheres e negócios femininos é fenomenal. O país em que vivemos é marcado pelo machismo, patriarcado e furar as bolhas e barreiras que nos são impostas é essencial. Quando não se tem esse tipo de estímulo fica mais difícil, pois existe uma desigualdade abissal na sociedade. As mulheres começaram a votar em 1932, mas só as casadas e que tinham permissão dos maridos, brancas, abastadas economicamente. Quando vamos segmentando para mulheres negras, LGBTs, da umbanda e candomblé, elas sofrem um preconceito maior, por questão de igualdade esse tipo de impulsionamento é fundamental.

Qual a importância de incentivar esse tipo de debate para as mulheres?

Quando se fala de questão de gênero é importante entender que não é “só porque é mulher é competente”, claro que não! Mas nós, mulheres somos sim extremamente competentes se nos dão oportunidade, sabemos agarrar e precisamos empoderar mais mulheres, proporcionar espaços assim para que mais mulheres se sintam inspiradas e encorajadas para lutar. A vida da mulher, em si, já é pura resistência e resistir é preciso principalmente em um momento de tanta opressão, obscurantismo e perseguição à diversidade e pluralidade. Nós não crescemos quando ofuscamos o outro, quando silenciamos o outro, as diferenças são fundamentais e precisamos ressignificar o termo radicalizar. Muito se fala de polarização radicalizada, mas quero voltar o termo para a democracia, precisa sim radicalizar e ampliar espaços de poder, discussão, mobilização social, precisa promover ambientes de democratização. A democracia é muito cara para que a gente se cale diante do que tem visto.