Mulheres da Vez, por Marcela Fujiy: Por que eu deixei de acreditar na meritocracia e você deveria também repensá-la
28 de junho de 2022
A Suécia é um dos países que mais investe em programas profissionalizantes para que toda a população ( e não apenas aqueles que possuem um diploma universitário) possam também ‘vencer na vida’.
E eu, que nasci em uma família abastada — meu pai não gosta que eu me refira assim à nossa família, mas o fato é que apesar dele e minha mãe terem nascido e crescido em famílias pobres , ambos venceram na vida (vamos por enquanto entender o ‘vencer na vida’ como a sociedade encara) -, eu e meus pais vencemos.
Como? Quando eu nasci, tínhamos acesso a muitos privilégios que meus pais não tiveram até a vida adulta: casa em bairro nobre, plano de saúde, escola particular.
Eu, como meus pais, também cresci em um ambiente extremamente católico. Não consigo lembrar de um domingo em que eu pudesse acordar mais tarde, porque tínhamos todos que ir à missa bem cedo das 6h ou das 8h da manhã. E eu tinha que fazer por merecer todas as bênçãos divinas, claro.
Foi nessa lógica de ter acesso a todos esses privilégios, ser uma boa filha, boa aluna e boa filha de Deus, que eu cresci entendendo que, se eu me esforçasse, eu teria uma vida digna.
Pois bem, muita coisa aconteceu desde aquela Marcela de 15 anos, que acreditava que o esforço individual era a mudança de chave para tudo. Para ser bem sincera, já com meus 30 anos, eu ainda morando na Suécia, país em que vivi por 12 anos, eu me questionava por que cargas d’água aquelas pessoas que não tinham estudo suficiente (tradução de: não se esforçaram o suficiente) tinham uma casa igual à minha. Um carro igual ou melhor que o meu? Uma vida bem parecida com a minha, afinal.
Mas então o que mudou Marcela? Se você, aos 30 anos, com carreira internacional, casada, com dois filhos saudáveis, casa com jardim, carro, por que parou de acreditar em meritocracia?
O que mudou foi que eu voltei para o Brasil e me deparei com o abismo socioeconômico que me separava da maior parte da população brasileira. Mudou que várias inquietações foram tomando conta de mim e eu já não aceitava o ‘ eu sou merecedora’.
Mas por quê? Por que eu? Por que eu era melhor? Mais inteligente? Era mais filha de Deus do que aquele que pedia esmola na rua?
Ah Marcela, você teve uma crise existencial. Talvez sim, talvez não. Mas o que quer que tenha acontecido, me fez entender que as circunstâncias da minha vida me levaram a conquistar tudo o que eu conquistei. Claro que trabalhei muito para conquistar tudo o que alcancei até hoje, mas talvez não teria conseguido se não tivesse acesso à uma escola particular, se meu plano de saúde não tivesse me dado acesso à assistência médica quando precisei, se não houvesse comida na mesa e com fartura.

Fato é que todas essas inquietações também me fizeram fundar a Be.Labs Aceleradora há quatro anos. Com ela, a oportunidade de mergulhar na vida de milhares de mulheres pelo nordeste afora e constatar que a meritocracia é um mal do qual temos de nos livrar.
Nas mentorias individuais que fazem parte do nosso programa são muitas as histórias de mulheres que acreditam piamente que o sucesso delas depende apenas do seu esforço. Que precisam se capacitar mais, estudar mais, ser mais organizadas. Eu estou ali de expectadora, assistindo como elas travam essa luta diária e injusta sem conseguir enxergar que o que a nossa sociedade faz é alocar oportunidades conforme o mérito, quando a maioria delas não tiveram as mesmas oportunidades, as mesmas que, por exemplo, eu tive.
A meritocracia é cruel. Ela reforça o pressuposto de que se eu consegui, eu assim o fiz porque sou melhor do que você. Ela é de uma arrogância sem precedentes e aprofunda ainda mais as desigualdades sociais.
Eu sigo acreditando que posso de alguma forma fazer diferença na vida dessas mulheres com a mínima ajuda possível, como a Be.labs faz. Mas sigo também me questionando todos os dias como fazer para que o mundo seja um lugar com menos desigualdades.
Certamente não é pelo ideal meritocrático.
Ps: se você quiser se aprofundar no tema, eu indico o livro “A tirania do Mérito’, de Michael J. Sandel, autor que aborda diversos aspectos históricos de como e por que vivemos em uma sociedade que enaltece o mérito.
Sobre Marcela Fujiy
Marcela é graduada em Direito e pós-graduada em Administração de Empresas. Com mais de 15 anos imersa no meio empreendedor, a paraibana coleciona conquistas, cases de sucesso e muito aprendizado à frente das franquias Kopenhagen Manaíra e Cabo Branco, da aceleradora de negócios femininos BeLabs e da sua mais nova sociedade, a padaria artesanal “Farina In Natura”, também no Cabo Branco. Marcela já morou na Suécia e ministra palestra em diversos lugares do Brasil sobre empoderamento e empreendedorismo feminino. Seu Instagram é @marcelafujiy.